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Edição 1 705 - 20 de junho de 2001
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Coréia dá de dez

O Tigre Asiático surra o Brasil na
feroz corrida pelas patentes industriais

Consuelo Dieguez

 

Divulgação
Avião da Embraer: a tecnologia nacional pode ser bem-sucedida

O Brasil tem inegável capacidade de formar doutores. Todos os anos, uma média de 5.000 brasileiros vão às bancas apresentar a tese de doutorado, chegando ao topo da escala acadêmica. É um resultado muito bom, em vários aspectos. Para se ter uma idéia, a Inglaterra, que tem sólida tradição científica, forma, anualmente, o mesmo número de doutores que o Brasil. Só há um problema nessa história. Aqui, a quase totalidade desse contingente de doutores, além de ter recebido formação inferior à oferecida nos países avançados, fica confinada às universidades e aos institutos de pesquisa governamentais. Apenas a minoria está na iniciativa privada. É uma grave distorção provocada pelo hábito secular das empresas brasileiras de virar as costas para a pesquisa e a produção tecnológica. O preço que o país está pagando por essa opção é alto. No mundo globalizado, onde tecnologia significa ganho de produtividade e maior competitividade, o Brasil, com raras e honrosas exceções, entra na corrida científica em franca desvantagem.

Acomodados a uma economia fechada, que durante décadas os protegeu da concorrência, os empresários nacionais se acostumaram a aguardar, pacientemente, a hora em que poderiam comprar a tecnologia produzida em outros países. Além de esse procedimento ser mais barato, não havia concorrência que justificasse o esforço de melhorar a competitividade de seus produtos. Enquanto empresas dos Estados Unidos, da Europa e do Japão gastavam fortunas em pesquisa, o Brasil se contentava com tecnologias ultrapassadas, já desprezadas por seus produtores. A universidade brasileira, por seu lado, por muito tempo não deu a devida importância à interação com a iniciativa privada, um fator essencial para melhorar a formação dos estudantes. Funcionou tudo muito bem enquanto o consumidor brasileiro não tinha parâmetros para comparar os produtos fabricados aqui com os lá de fora. Contudo, quando se viu frente a frente com a abertura comercial, o empresariado brasileiro começou a se dar conta do risco que é viver das migalhas dos países desenvolvidos. "Quem só compra tecnologia está condenado ao atraso. Quem vende só repassa o que não é mais estratégico", afirma José Miguel Chaddad, diretor executivo da Associação Nacional de Pesquisa, Desenvolvimento e Engenharia das Empresas Inovadoras (Anpei), que trabalha para sensibilizar as empresas para a importância do investimento em tecnologia própria.

Um dos pontos de partida nessa tarefa árdua é fazer o empresariado compreender a importância de contratar cientistas para desenvolver esse trabalho. E há farta mão-de-obra nas universidades. Atualmente, só 11% dos mais de 77.000 cientistas brasileiros são absorvidos pelas empresas. Os outros 89% estão em instituições públicas de ensino superior, trabalhando como professores em regime de dedicação exclusiva. Nos Estados Unidos, a situação é exatamente inversa. Do impressionante batalhão de 962.000 cientistas, 87% estão nas empresas envolvidos com algum tipo de pesquisa. É evidente que não há nenhuma pretensão de confrontar o Brasil com a gigantesca potência científica que são os Estados Unidos. Mas basta uma comparação com a Coréia do Sul para descobrir como não é tão difícil assim tomar as rédeas do processo tecnológico. Vinte anos atrás, esse aguerrido Tigre Asiático tinha uma situação semelhante à do Brasil. Hoje, após pesados investimentos públicos e privados em tecnologia, desponta como uma das grandes estrelas do mundo científico.

Claudio Rossi
Cultivo de soja: em vinte anos, a produtividade aumentou mais de 50%

O resultado do esforço pode ser medido na produção de patentes. Há duas décadas, Brasil e Coréia tinham quase exatamente o mesmo número de propriedades industriais registradas nos Estados Unidos: em torno de trinta. No ano passado, o Brasil possuía 96, enquanto seu mais próximo competidor já havia ultrapassado a marca das 3.000. É uma equação perversa. Embora conte com muitos doutores, o Brasil tem patente de menos, pois quem produz patente é empresa, e não universidade. "Reconhecimento de patente significa divisas para o país, já que todos que de alguma forma se aproveitam da invenção são obrigados a pagar pelo uso da idéia", explica José Graça Aranha, presidente do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi).

Um caso emblemático da importância do desenvolvimento de pesquisa no Brasil é a Embraer. A empresa brasileira, que desbancou até a poderosa canadense Bombardier, está atualmente entre as quatro maiores companhias de aviação do mundo. Os projetos de seus aviões são resultado de anos de pesquisa de seus cientistas, a maioria saída do Instituto Tecnológico de Aeronáutica, em São José dos Campos. Hoje, a venda de aviões é o primeiro item da pauta das exportações brasileiras. Na cultura de soja, também um dos principais produtos de exportação brasileiros, todo o processo de cultivo foi desenvolvido com tecnologia nacional. Companhias como a Vale do Rio Doce e a Petrobras também obtêm êxito graças aos enormes investimentos em pesquisa. A Petrobras é líder mundial em prospecção de petróleo em águas profundas.

É para essas experiências bem-sucedidas que a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o mais respeitado órgão de financiamento à pesquisa no país, quer chamar a atenção das empresas nacionais. "Todas as companhias que estão investindo em pesquisa vêm alcançando enormes ganhos de produtividade", diz Carlos Henrique de Brito Cruz, presidente da Fapesp e diretor do Instituto de Física da Unicamp. A cultura de soja, por exemplo, aumentou a produtividade em 55% nos últimos vinte anos. Brito reconhece que as empresas estão acordando para a necessidade da pesquisa e têm procurado o órgão e as universidades públicas em busca de parcerias. No entanto, a grande virada se dará quando elas perceberem que é fundamental contratar profissionais para desenvolver pesquisa especificamente para suas necessidades.

Não se pode dizer que não haja empenho por parte do Estado brasileiro em estimular o desenvolvimento científico. O Brasil tem investido cerca de 1,4% do PIB em pesquisa científica. Nos Estados Unidos e no Japão, o montante é em torno de 3%. O problema é que, aqui, do total investido, 70% são desembolsados pelos cofres públicos. "O Estado faz um esforço enorme para qualificar profissionais em suas universidades e institutos, e as companhias brasileiras simplesmente desperdiçam esse potencial", lamenta Brito. Na Coréia, 80% dos recursos em pesquisa são desembolsados pelas empresas. Pode-se imaginar o salto que o Brasil daria se a iniciativa privada decidisse investir um pouco mais em cérebros.



 
 
   
 
 
   
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