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Coréia
dá de dez
O
Tigre Asiático surra o Brasil
na
feroz corrida pelas patentes industriais

Consuelo
Dieguez
Divulgação
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| Avião
da Embraer: a tecnologia nacional pode ser bem-sucedida |
O
Brasil tem inegável capacidade de formar doutores. Todos os anos,
uma média de 5.000 brasileiros vão às bancas apresentar
a tese de doutorado, chegando ao topo da escala acadêmica. É
um resultado muito bom, em vários aspectos. Para se ter uma idéia,
a Inglaterra, que tem sólida tradição científica,
forma, anualmente, o mesmo número de doutores que o Brasil. Só
há um problema nessa história. Aqui, a quase totalidade
desse contingente de doutores, além de ter recebido formação
inferior à oferecida nos países avançados, fica confinada
às universidades e aos institutos de pesquisa governamentais. Apenas
a minoria está na iniciativa privada. É uma grave distorção
provocada pelo hábito secular das empresas brasileiras de virar
as costas para a pesquisa e a produção tecnológica.
O preço que o país está pagando por essa opção
é alto. No mundo globalizado, onde tecnologia significa ganho de
produtividade e maior competitividade, o Brasil, com raras e honrosas
exceções, entra na corrida científica em franca desvantagem.
Acomodados
a uma economia fechada, que durante décadas os protegeu da concorrência,
os empresários nacionais se acostumaram a aguardar, pacientemente,
a hora em que poderiam comprar a tecnologia produzida em outros países.
Além de esse procedimento ser mais barato, não havia concorrência
que justificasse o esforço de melhorar a competitividade de seus
produtos. Enquanto empresas dos Estados Unidos, da Europa e do Japão
gastavam fortunas em pesquisa, o Brasil se contentava com tecnologias
ultrapassadas, já desprezadas por seus produtores. A universidade
brasileira, por seu lado, por muito tempo não deu a devida importância
à interação com a iniciativa privada, um fator essencial
para melhorar a formação dos estudantes. Funcionou tudo
muito bem enquanto o consumidor brasileiro não tinha parâmetros
para comparar os produtos fabricados aqui com os lá de fora. Contudo,
quando se viu frente a frente com a abertura comercial, o empresariado
brasileiro começou a se dar conta do risco que é viver das
migalhas dos países desenvolvidos. "Quem só compra tecnologia
está condenado ao atraso. Quem vende só repassa o que não
é mais estratégico", afirma José Miguel Chaddad,
diretor executivo da Associação Nacional de Pesquisa, Desenvolvimento
e Engenharia das Empresas Inovadoras (Anpei), que trabalha para sensibilizar
as empresas para a importância do investimento em tecnologia própria.
Um
dos pontos de partida nessa tarefa árdua é fazer o empresariado
compreender a importância de contratar cientistas para desenvolver
esse trabalho. E há farta mão-de-obra nas universidades.
Atualmente, só 11% dos mais de 77.000 cientistas brasileiros são
absorvidos pelas empresas. Os outros 89% estão em
instituições públicas de ensino superior, trabalhando
como professores em regime de dedicação exclusiva. Nos Estados
Unidos, a situação é exatamente inversa. Do impressionante
batalhão de 962.000 cientistas, 87% estão nas empresas envolvidos
com algum tipo de pesquisa. É evidente que não há
nenhuma pretensão de confrontar o Brasil com a gigantesca potência
científica que são os Estados Unidos. Mas basta uma comparação
com a Coréia do Sul para descobrir como não é tão
difícil assim tomar as rédeas do processo tecnológico.
Vinte anos atrás, esse aguerrido Tigre Asiático tinha uma
situação semelhante à do Brasil. Hoje, após
pesados investimentos públicos e privados em tecnologia, desponta
como uma das grandes estrelas do mundo científico.
Claudio Rossi
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| Cultivo
de soja: em vinte anos, a produtividade aumentou mais de 50% |
O
resultado do esforço pode ser medido na produção
de patentes. Há duas décadas, Brasil e Coréia tinham
quase exatamente o mesmo número de propriedades industriais registradas
nos Estados Unidos: em torno de trinta. No ano passado, o Brasil possuía
96, enquanto seu mais próximo competidor já havia ultrapassado
a marca das 3.000. É uma equação perversa. Embora
conte com muitos doutores, o Brasil tem patente de menos, pois quem produz
patente é empresa, e não universidade. "Reconhecimento de
patente significa divisas para o país, já que todos que
de alguma forma se aproveitam da invenção são obrigados
a pagar pelo uso da idéia", explica José Graça Aranha,
presidente do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi).
Um caso emblemático da importância do desenvolvimento de
pesquisa no Brasil é a Embraer. A empresa brasileira, que desbancou
até a poderosa canadense Bombardier, está atualmente entre
as quatro maiores companhias de aviação do mundo. Os projetos
de seus aviões são resultado de anos de pesquisa de seus
cientistas, a maioria saída do Instituto Tecnológico de
Aeronáutica, em São José dos Campos. Hoje, a venda
de aviões é o primeiro item da pauta das exportações
brasileiras. Na cultura de soja, também um dos principais produtos
de exportação brasileiros, todo o processo de cultivo foi
desenvolvido com tecnologia nacional. Companhias como a Vale do Rio Doce
e a Petrobras também obtêm êxito graças aos
enormes investimentos em pesquisa. A Petrobras é líder mundial
em prospecção de petróleo em águas profundas.
É
para essas experiências bem-sucedidas que a Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o
mais respeitado órgão de financiamento à pesquisa
no país, quer chamar a atenção das empresas nacionais.
"Todas as companhias que estão investindo em pesquisa vêm
alcançando enormes ganhos de produtividade", diz Carlos Henrique
de Brito Cruz, presidente da Fapesp e diretor do Instituto de Física
da Unicamp. A cultura de soja, por exemplo, aumentou a produtividade em
55% nos últimos vinte anos. Brito reconhece que as empresas estão
acordando para a necessidade da pesquisa e têm procurado o órgão
e as universidades públicas em busca de parcerias. No entanto,
a grande virada se dará quando elas perceberem que é fundamental
contratar profissionais para desenvolver pesquisa especificamente para
suas necessidades.
Não se pode dizer que não haja empenho por parte do Estado
brasileiro em estimular o desenvolvimento científico. O Brasil
tem investido cerca de 1,4% do PIB em pesquisa científica. Nos
Estados Unidos e no Japão, o montante é em torno de 3%.
O problema é que, aqui, do total investido, 70% são desembolsados
pelos cofres públicos. "O Estado faz um esforço enorme para
qualificar profissionais em suas universidades e institutos, e as companhias
brasileiras simplesmente desperdiçam esse potencial", lamenta Brito.
Na Coréia, 80% dos recursos em pesquisa são desembolsados
pelas empresas. Pode-se imaginar o salto que o Brasil daria se a iniciativa
privada decidisse investir um pouco mais em cérebros.
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