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Edição 1 705 - 20 de junho de 2001
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O balão de ensaio
do dólar

Empresários e investidores
pessimistas quanto ao futuro
do país forçam a alta da
moeda americana

Denise Ramiro e Murilo Ramos

Nas últimas semanas, o valor do dólar vem subindo como um balão. Valia menos de 2 reais em janeiro, e na última quarta-feira bateu em 2,42 reais. Na sexta-feira, depois do feriado, o mercado abriu a 2,44 reais, e o Banco Central, finalmente, resolveu intervir. Vendeu 2 bilhões de reais em títulos cambiais para impedir que o balão do dólar alçasse vôos ainda mais altos. Até conseguiu que a cotação baixasse no primeiro momento. Mas os especuladores, cheios de gás, continuaram comprando. A cotação fechou o dia em 2,41 reais. Foi baixa irrisória em relação à quarta-feira. Sinal de que a bolha do dólar não vai murchar assim tão facilmente.

O Brasil já enfrentou dois momentos parecidos com o atual. Um foi no começo de 1999, quando o governador mineiro Itamar Franco avisou que seu Estado iria suspender temporariamente o pagamento de suas dívidas. Aí o Banco Central interferiu no mercado, vendendo dólares e elevando os juros. O outro foi no final do mesmo ano de 1999, quando havia dúvidas sobre o que ocorreria com o sistema de informática das empresas na virada do ano. Era o medo do bug do milênio. O dólar subiu mas, como o consumo estava contido pelos juros altos, não houve alta nos preços, e, como logo se percebeu que o bug não provocaria desastres, a situação se acalmou.

A interpretação do que acontece hoje com o câmbio no Brasil é quase unânime: ele está inflando como uma bolha, soprada por empresários, banqueiros e investidores que estão apostando que o governo não dará o remédio amargo que baixa o topete do dólar em quase todas as circunstâncias: juros altos. Um conhecido banco americano de investimentos com negócios no Brasil avaliava na semana passada que a bolha do dólar não desinfla sem uma ação decidida do governo. O banco sugere, num documento interno para clientes de grande porte, que, se o Banco Central aumentar cinco pontos de uma só tacada os juros, o dólar volta correndo para seu padrão mais realista – em torno de 2,10 a 2,15 reais. A próxima reunião do Copom, o conselho que determina a taxa de juros no Brasil, será nesta quarta-feira dia 20. Há uma queda-de-braço surda do mercado com o governo. Normalmente, só compram dólares as empresas que têm de fazer pagamentos no exterior. Hoje, todas estão comprando, tenham ou não contas a pagar.

Com a especulação em curso, o dólar continua subindo. Os riscos dessa subida já superam os benefícios para a balança de pagamentos – que são a inibição leve das importações e a remuneração pródiga para os exportadores. Há o risco de o câmbio aquecer a inflação, o que prejudicaria todo mundo. Os importadores têm seus negócios paralisados, o que também não é saudável. O setor de importação tem uma importância crescente na economia brasileira, na geração tanto de empregos como de riqueza. Só a importação de automóveis, feita por pequenas empresas e não pelas montadoras, faz girar 2,5 bilhões de reais na economia todos os anos. E até os exportadores, que vendem mais facilmente no exterior quando o real fica desvalorizado, estão achando o valor do dólar exagerado. "Para nós, a cotação em torno dos 2,20 reais é ótima", diz Luiz Murat Júnior, diretor financeiro da Sadia.

O ano de 2001 está se apresentando como um pesadelo surpreendente para os brasileiros. O país tem inflação sob controle, gastos públicos idem, juros num patamar tolerável, desemprego em queda e produção industrial crescente. Tem portanto os fundamentos econômicos em ordem – mais em ordem do que nunca, nas últimas décadas. Nesse contexto a disparada do dólar só se explica pela especulação e pela exacerbação da paranóia eterna de que a economia sofra algum baque interno ou externo. Uma pesquisa feita pela Fundação Dom Cabral, de Belo Horizonte, ouviu 183 empresários e detectou certo grau de desconfiança entre eles. A maioria acha que as coisas não vão melhorar até o fim do ano. Em média, os empresários acreditam que o dólar fechará o ano cotado em 2,40 reais. Um terço deles diz que seu faturamento vai diminuir. "O que se percebe é que todos estão em compasso de espera. Nada de muito positivo deverá acontecer na economia do país até o final do ano", diz Betânia Tanure, diretora da fundação.

É normal que num ambiente de câmbio flutuante o preço da moeda varie conforme a lei da oferta e da procura. A variação que está ocorrendo no Brasil neste ano, no entanto, é exagerada. O real já perdeu um quarto de seu valor, e não há razão concreta para isso. "Quando a cotação estava em 2,20 reais a situação era mais confortável, porque o impacto sobre as dívidas em dólar não era muito grande e havia benefícios em relação às exportações", diz Mauro Schneider, estrategista do banco ING Barings para a América Latina.

Outro fator alimentador da especulação é a eclosão precoce da campanha eleitoral presidencial, turbinada pela crise energética. Há duas semanas, quando a agência internacional de avaliação de risco Moody's reconheceu que dezesseis empresas brasileiras estavam apresentando desempenho muito melhor do que o esperado, chegou-se a pensar que a confiança no país seria restaurada. Não houve a contaminação positiva. Se o balão continuar subindo, a economia poderá ter problemas mais sérios. Mas, se os empresários estiverem certos e a cotação ficar estacionada em torno dos 2,40 reais até o final do ano, não há motivo para maiores dores de cabeça. "Com o câmbio estável, em qualquer patamar, por um período mais longo de tempo, os investidores voltarão a confiar no país e a roda da economia voltará a girar", diz José Paschoal Rossetti, economista, professor e pesquisador da Fundação Dom Cabral.

 
 


   
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