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O balão de
ensaio
do dólar
Empresários
e investidores
pessimistas quanto ao futuro
do país forçam a alta da
moeda americana

Denise Ramiro
e Murilo Ramos
Nas últimas
semanas, o valor do dólar vem subindo como um balão. Valia
menos de 2 reais em janeiro, e na última quarta-feira bateu em
2,42 reais. Na sexta-feira, depois do feriado, o mercado abriu a 2,44
reais, e o Banco Central, finalmente, resolveu intervir. Vendeu 2 bilhões
de reais em títulos cambiais para impedir que o balão do
dólar alçasse vôos ainda mais altos. Até conseguiu
que a cotação baixasse no primeiro momento. Mas os especuladores,
cheios de gás, continuaram comprando. A cotação fechou
o dia em 2,41 reais. Foi baixa irrisória em relação
à quarta-feira. Sinal de que a bolha do dólar não
vai murchar assim tão facilmente.
O Brasil
já enfrentou dois momentos parecidos com o atual. Um foi no começo
de 1999, quando o governador mineiro Itamar Franco avisou que seu Estado
iria suspender temporariamente o pagamento de suas dívidas. Aí
o Banco Central interferiu no mercado, vendendo dólares e elevando
os juros. O outro foi no final do mesmo ano de 1999, quando havia dúvidas
sobre o que ocorreria com o sistema de informática das empresas
na virada do ano. Era o medo do bug do milênio. O dólar subiu
mas, como o consumo estava contido pelos juros altos, não houve
alta nos preços, e, como logo se percebeu que o bug não
provocaria desastres, a situação se acalmou.
A interpretação
do que acontece hoje com o câmbio no Brasil é quase unânime:
ele está inflando como uma bolha, soprada por empresários,
banqueiros e investidores que estão apostando que o governo não
dará o remédio amargo que baixa o topete do dólar
em quase todas as circunstâncias: juros altos. Um conhecido banco
americano de investimentos com negócios no Brasil avaliava na semana
passada que a bolha do dólar não desinfla sem uma ação
decidida do governo. O banco sugere, num documento interno para clientes
de grande porte, que, se o Banco Central aumentar cinco pontos de uma
só tacada os juros, o dólar volta correndo para seu padrão
mais realista em torno de 2,10 a 2,15 reais. A próxima reunião
do Copom, o conselho que determina a taxa de juros no Brasil, será
nesta quarta-feira dia 20. Há uma queda-de-braço surda do
mercado com o governo. Normalmente, só compram dólares as
empresas que têm de fazer pagamentos no exterior. Hoje, todas estão
comprando, tenham ou não contas a pagar.
Com a especulação
em curso, o dólar continua subindo. Os riscos dessa subida já
superam os benefícios para a balança de pagamentos
que são a inibição leve das importações
e a remuneração pródiga para os exportadores. Há
o risco de o câmbio aquecer a inflação, o que prejudicaria
todo mundo. Os importadores têm seus negócios paralisados,
o que também não é saudável. O setor de importação
tem uma importância crescente na economia brasileira, na geração
tanto de empregos como de riqueza. Só a importação
de automóveis, feita por pequenas empresas e não pelas montadoras,
faz girar 2,5 bilhões de reais na economia todos os anos. E até
os exportadores, que vendem mais facilmente no exterior quando o real
fica desvalorizado, estão achando o valor do dólar exagerado.
"Para nós, a cotação em torno dos 2,20 reais é
ótima", diz Luiz Murat Júnior, diretor financeiro da Sadia.
O ano de
2001 está se apresentando como um pesadelo surpreendente para os
brasileiros. O país tem inflação sob controle, gastos
públicos idem, juros num patamar tolerável, desemprego em
queda e produção industrial crescente. Tem portanto os fundamentos
econômicos em ordem mais em ordem do que nunca, nas últimas
décadas. Nesse contexto a disparada do dólar só se
explica pela especulação e pela exacerbação
da paranóia eterna de que a economia sofra algum baque interno
ou externo. Uma pesquisa feita pela Fundação Dom Cabral,
de Belo Horizonte, ouviu 183 empresários e detectou certo grau
de desconfiança entre eles. A maioria acha que as coisas não
vão melhorar até o fim do ano. Em média, os empresários
acreditam que o dólar fechará o ano cotado em 2,40 reais.
Um terço deles diz que seu faturamento vai diminuir. "O que se
percebe é que todos estão em compasso de espera. Nada de
muito positivo deverá acontecer na economia do país até
o final do ano", diz Betânia Tanure, diretora da fundação.
É
normal que num ambiente de câmbio flutuante o preço da moeda
varie conforme a lei da oferta e da procura. A variação
que está ocorrendo no Brasil neste ano, no entanto, é exagerada.
O real já perdeu um quarto de seu valor, e não há
razão concreta para isso. "Quando a cotação estava
em 2,20 reais a situação era mais confortável, porque
o impacto sobre as dívidas em dólar não era muito
grande e havia benefícios em relação às exportações",
diz Mauro Schneider, estrategista do banco ING Barings para a América
Latina.
Outro fator
alimentador da especulação é a eclosão precoce
da campanha eleitoral presidencial, turbinada pela crise energética.
Há duas semanas, quando a agência internacional de avaliação
de risco Moody's reconheceu que dezesseis empresas brasileiras estavam
apresentando desempenho muito melhor do que o esperado, chegou-se a pensar
que a confiança no país seria restaurada. Não houve
a contaminação positiva. Se o balão continuar subindo,
a economia poderá ter problemas mais sérios. Mas, se os
empresários estiverem certos e a cotação ficar estacionada
em torno dos 2,40 reais até o final do ano, não há
motivo para maiores dores de cabeça. "Com o câmbio estável,
em qualquer patamar, por um período mais longo de tempo, os investidores
voltarão a confiar no país e a roda da economia voltará
a girar", diz José Paschoal Rossetti, economista, professor e pesquisador
da Fundação Dom Cabral.
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