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O estranho sumiço
de um papel

Ex-diretor da PF ocultou um
documento sobre o Dossiê
Cayman para ajudar o governo

Policarpo Jr., de Brasília

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Ana Araujo
Ar
Chelotti e o documento de 1998 que ele ocultou: ao governo não bastava inocentar três e deixar as suspeitas sobre Serjão

Os bastidores da investigação sobre o célebre Dossiê Cayman são um labirinto de estranhezas. O dossiê, divulgado em 1998, era um conjunto de papéis falsos que atribuía ao presidente Fernando Henrique e a outros três tucanos a propriedade de uma empresa, a CH, J&T, e uma conta milionária no exterior. Passados três anos de investigações, sabe-se hoje que os documentos eram definitivamente falsos. Mas, até se chegar a essa conclusão, muitas coisas estranhas aconteceram. A mais recente revelação do episódio diz o seguinte: Vicente Chelotti, então diretor-geral da Polícia Federal, foi às Bahamas para tratar do assunto no auge do escândalo, em janeiro de 1999. Conseguiu por lá um documento que inocentava três dos quatro tucanos apontados no dossiê como proprietários da empresa e do dinheiro: o presidente Fernando Henrique, o ministro José Serra e o então governador paulista Mário Covas. E sumiu com o papel. Por essa versão, Chelotti poderia ser responsabilizado por ocultar uma prova importante, que, na prática, decretava de antemão a inocência do presidente da República, do ministro e do governador. Com a omissão, Chelotti fez com que as suspeitas durassem muito mais tempo.

A novidade é que não foi nada disso: Chelotti não cometeu uma omissão por vontade própria, mas, sim, para atender a um desejo do governo. Ele viajou para as Bahamas em 2 de janeiro de 1999 e saiu do Brasil já carregando na bagagem o documento que inocentava o presidente. Em novembro de 1998, a Interpol fez contato com o advogado Emerick Knowles, da Trident Corporate, que representava a CH, J&T. Por telefone, a Interpol ficou sabendo que a empresa nada tinha a ver com FHC, Serra ou Covas – mas nada se disse sobre o quarto tucano, o ex-ministro Sergio Motta. A Interpol pediu que a informação fosse enviada ao Brasil por escrito. A carta chegou no fax de Chelotti em 23 de dezembro, no mesmo dia em que foi redigida. Chelotti solicitou a uma agente, Angela Mardegan, que a traduzisse, avisou o ministro Serra sobre seu conteúdo e, dez dias depois, na companhia de Angela Mardegan, embarcou para as Bahamas com a missão de obter seu original.

Para o governo, a divulgação da carta era um tiro no próprio pé. Afinal, ao inocentar apenas FHC, Serra e Covas, a correspondência deixava em aberto as suspeitas sobre Sergio Motta. E, como Serjão fora amigo, ministro e caixa de campanha de FHC, as suspeitas em relação a ele equivaliam a manter todo o tucanato na berlinda. Nas Bahamas, Chelotti tentou ainda um estratagema. Pediu ao advogado Emerick Knowles que emitisse declarações individuais: uma para o presidente, outra para Serra e uma terceira para Covas. A idéia era trazer as declarações individuais ao Brasil e informar que cada autoridade pedira a sua, mas que Serjão, já então morto, não podia fazer o mesmo. Para convencer o advogado, Chelotti criou uma história mirabolante, dizendo que o Brasil era uma federação, que havia autoridades federais e estaduais envolvidas e que, por isso, as declarações precisavam ser individuais. Knowles, que não nasceu ontem, não concordou em dar as declarações. Em seguida, Chelotti pediu ao advogado que alterasse a data do documento para simular que sua emissão tivesse sido posterior à sua viagem às Bahamas. Knowles também não topou.

Chelotti retornou ao Brasil em 7 de janeiro de 1999. VEJA ouviu duas pessoas que tiveram intimidade com o assunto. Ambas garantem que, ao retornar, Chelotti informou ao ministro Serra e, também, ao presidente Fernando Henrique Cardoso o resultado de sua expedição às Bahamas. Consultado por VEJA, o presidente mandou dizer que "não tem nenhum comentário a fazer". Serra, porém, confirma que recebeu retorno de Chelotti e que falaram sobre o documento. Serra conta que alertou o então diretor da PF de que o documento carecia de credibilidade. "Podia tratar-se de mais uma armadilha dos falsários", diz o ministro, que garante, no entanto, não ter pedido a Chelotti que ocultasse o papel. Serra diz, ainda, que comentou o assunto – "não lembro bem as circunstâncias" – com o presidente e com o então governador Mário Covas. Chelotti, por sua vez, saiu-se com uma pérola. "Não divulguei o documento em memória a Sergio Motta, que não era inocentado, e porque não ajudava o presidente, pois se sabia há muito que o dossiê era falso." É estranho: nunca se soube que um delegado tenha de render homenagens a mortos em suas investigações e ocultar provas quando não beneficiam alguém. O fato é que, um mês depois de voltar para o Brasil, Chelotti elaborou o relatório de sua viagem. Em apenas trinta linhas, diz que esteve nas Bahamas e pediu a Knowles que revelasse o nome dos sócios da CH, J&T. Acrescenta, em seguida, que o advogado se recusou a fazê-lo, alegando que isso feriria a lei das Bahamas.

A investigação de Chelotti era tão sigilosa que não foi informada nem ao chefe imediato, o então ministro da Justiça, Renan Calheiros. "Conversamos sobre o assunto, mas não me lembro de ele ter falado a respeito de documento algum", conta Calheiros. O trabalho de Chelotti também não chegou ao conhecimento do delegado que presidia o inquérito sobre o dossiê, Paulo de Tarso Teixeira. Apesar das evidências de que se tratava de material forjado, o Dossiê Cayman sempre causou preocupação ao governo. É que até mesmo entre pessoas próximas de Serjão havia aquelas que achavam improvável a possibilidade de o ex-ministro não manter conta bancária no exterior. A operação Chelotti indica com que cuidado e discrição o assunto era tratado em Brasília.

Há um mês, os delegados encarregados do caso, Paulo de Tarso e Jorge Pontes, fizeram ao advogado da Trident Corporate a pergunta que ainda precisa ser respondida: Sergio Motta, afinal de contas, era ou não sócio da CH, J&T? Emerick Knowles até hoje não respondeu. Os delegados acreditam que a CH, J&T, desativada em janeiro do ano passado, pertença ao mesmo grupo de falsários brasileiros residentes em Miami que criou o dossiê, vendeu-o a políticos, como o ex-governador Paulo Maluf e o ex-presidente Fernando Collor de Mello, e tentou chantagear o governo. Se for verdade, é de supor que os falsários não teriam incluído o nome de Motta no documento omitido por Chelotti simplesmente para manter a aura de suspeição sobre os tucanos. Pode ser. Nada disso, porém, explica por que se abafou a investigação. O inquérito fora encerrado em maio de 1999, exatamente no momento em que se pediu oficialmente às Bahamas as informações que o ex-diretor da Polícia Federal já tinha recebido e deixou longe dos olhos do público.

 
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