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Entre ligações e títulos
Semana
ruim para Jader: a negociata
de títulos agrários está confirmada e
dois extratos telefônicos mostram a
relação do senador com o maior
fraudador da Sudam

Malu Gaspar
e Alexandre Oltramari
Mauricio Camargo/Obritonews
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| Jader
Barbalho, entre títulos da dívida agrária cancelados
devido à descoberta de uma fraude e extratos telefônicos
mostrando as ligações entre o senador e o empresário
José Osmar Borges, acusado de desviar 133 milhões de
reais da extinta Sudam: os contatos eram feitos por meio do celular
de uma terceira pessoa ou de um aparelho num quarto do Hotel Hilton
em Belém do Pará |
O senador
Jader Barbalho, presidente do Congresso Nacional, jamais contou tudo sobre
sua relação com José Osmar Borges, dono de seis empresas,
três CPFs e acusado de desviar 133 milhões de reais da extinta
Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam). Às
vésperas de sua eleição à presidência
do Senado, Jader afirmou que conhecia Osmar Borges "havia muitos anos",
assim como conhecia outros "inúmeros empresários da Sudam".
Ou seja: não tinha com ele nenhuma relação especial.
Dois meses depois, descobriu-se que havia, sim, uma relação
especial: Jader fora sócio de Osmar Borges numa fazenda no Pará,
entre 1996 e 1998. O senador disse então que, na época da
sociedade, não sabia que o empresário estava enrolado com
fraudes na Sudam. "Eu teria de ser vidente", afirmou. Na mesma ocasião,
Jader informou que, depois de desfazer a sociedade na fazenda, em janeiro
de 1998, manteve alguns contatos com Osmar Borges. Coisa sem importância.
"Após minha eleição no Senado, ele me mandou uma
fita de vídeo com seus empreendimentos", disse. E nada mais.
Agora, descobriu-se
que sua relação com o fraudador é muito mais próxima
do que o senador admitiu. VEJA teve acesso a dois extratos telefônicos
de Osmar Borges. Eles mostram as ligações do empresário
durante três meses de 1999 e em outubro e novembro de 2000
bem depois de janeiro de 1998, data em que foi desfeita a sociedade na
fazenda no Pará. Nesses cinco meses, Osmar Borges fez dezoito ligações
para o senador: há cinco telefonemas para a casa de Jader em Brasília,
outros três para a casa de Jader em Belém e mais dez chamadas
para o celular do senador. São sempre conversas rápidas.
A mais longa, feita para o telefone da casa de Jader em Belém,
durou três minutos e 47 segundos. Nos mesmos extratos, está
registrado que o senador também ligou para o celular de Osmar Borges.
Foram dois telefonemas, ambos em maio de 1999 exatamente o período
em que começaram a vir a público as tramóias do empresário
na Sudam. Os contatos entre ambos eram feitos só através
de números privados. Não há uma única ligação
para números públicos do senador como seu escritório
político em Belém ou seu gabinete de senador em Brasília.
Claudio Rossi
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Claudio Rossi
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| O
ex-banqueiro Serafim de Moraes e a mulher, Vera Campos, em sua casa
em São Paulo e o recibo de depósito de 700 milhões
de cruzados novos (hoje, 3,4 milhões de reais) em favor de
Pedrosa da Silva, com a devida autenticação mecânica:
a versão do casal foi confirmada. Os dois, de fato, compraram
títulos da dívida agrária de Pedrosa da Silva
e realmente os entregaram a um fundo de pensão, a Portus. Os
dois, porém, afirmam apenas que viram o senador Jader Barbalho
no saguão do hotel onde a negociação foi feita,
mas não sabem dizer se o cheque foi parar nas mãos dele |
Outro dado
curioso é que, na aparência, Osmar Borges tentava ocultar
o rastro de suas ligações para o senador. Um dos extratos
telefônicos a que VEJA teve acesso é do celular do empresário,
mas o número está em nome de seu irmão, Carlos Cesar
Borges. Quem examina o extrato fica supondo que Carlos Borges ligava para
o senador mas, na verdade, era o próprio Osmar Borges. O
ex-policial federal Alberto Koury, por exemplo, confirma essa hipótese.
Ele recebeu nove ligações desse celular e ligou para esse
número sete vezes mas garante que só conhece Carlos
Borges "de vista". "É que o Carlão trabalha com o Osmar
Borges. Do Osmar Borges, sim, eu recebia ligações", diz
Alberto Koury, ele próprio enrolado com fraudes na Sudam. O outro
extrato a que VEJA teve acesso traz ligações que Osmar Borges
fez, em outubro e novembro de 2000, de um apartamento no Hotel Hilton,
em Belém, onde o empresário se hospedava com freqüência.
A dúvida é: por que Osmar Borges e Jader não se falavam
por telefones comuns? Por que só por meio do celular de uma terceira
pessoa e do aparelho de quarto de hotel?
Testa-de-ferro
É difícil imaginar que Osmar Borges precisasse
fazer tantos contatos, e ainda por cima para as duas casas e para o celular
de Jader, só para combinar a remessa de um vídeo de seus
empreendimentos ao senador. Pode ser até que Jader recebesse tantas
ligações do empresário apenas para falar de amenidades
ou dos bons tempos em que foram sócios numa fazenda. O problema
é que o senador poderia ter dito isso logo no início. Poderia
ter dito que era amigo de Osmar Borges, que fora seu sócio e que,
mesmo depois de descoberto seu envolvimento com fraudes na Sudam, seguiu
fiel à amizade. Mas, como sempre quis passar a impressão
de que nunca teve relações próximas com Osmar Borges,
o próprio senador produz a impressão de que mentiu sem parar.
Os procuradores do Ministério Público que investigam as
fraudes na Sudam já trabalham com uma suspeita cabeluda: a de que
Osmar Borges possa ter atuado como testa-de-ferro do senador. É
uma suspeita cabeluda porque Osmar Borges, além de ser acusado
de desviar 133 milhões de reais da Sudam, foi pilhado mandando
110 milhões de reais para o exterior. Ninguém sabe o destino
do dinheiro.
Em vez de
esclarecer, o senador prefere confundir. Em 16 de abril passado, por exemplo,
subiu à tribuna do Senado para falar da sociedade com Osmar Borges
na fazenda. Falou, falou e prometeu entregar as declarações
de imposto de renda de sua mulher e da fazenda, mostrando que o negócio
fora regular. Passados dois meses, os documentos até hoje não
apareceram. Na semana passada, Jader voltou à tribuna, pela terceira
vez, desde que assumiu a presidência do Senado, em fevereiro passado,
para defender-se de acusações. Desta vez, a suspeita é
que se tenha beneficiado da venda de títulos da dívida agrária
fajutos quando era ministro da Reforma Agrária. De novo, Jader
falou, falou e não convenceu seus pares. Os compradores dos títulos
o banqueiro Serafim Rodrigues de Moraes e sua mulher, Vera Arantes
Campos contam que, quando repassaram o dinheiro ao vendedor dos
papéis, Vicente de Paula Pedrosa da Silva, avistaram no local,
o saguão do Hotel Hilton em São Paulo, o então ministro
Jader Barbalho. O fato de estar presente no hotel onde Pedrosa da Silva
aplicava um golpe não é suficiente para comprometer Jader.
Mas as explicações, em vez de ajudar, só atrapalham.
Pedrosa
da Silva, por exemplo, garantiu que jamais vendera TDAs ao casal. Na semana
passada, Vera Campos provou que o negócio foi feito. Ela assinou
dois cheques, ambos do antigo banco Bamerindus. Um, de número 863685,
no valor de 50 milhões de cruzados, que equivalem hoje a 275 000
reais. Era um sinal, dado em 28 de novembro de 1988. O outro cheque, que
sacramentou o negócio, saiu de um talão anterior, tinha
o número 863665 e valor de 700 milhões de cruzados, ou 3,4
milhões de reais em valores atuais. Mais do que isso: Vera mostrou
o recibo do depósito de 700 milhões de cruzados que fez
em favor de Pedrosa da Silva. Também ficou confirmada a versão
de que o casal, ao comprar os TDAs, usou os papéis num negócio
com a Portus, fundo de pensão da extinta Portobrás. Em junho
de 1997, um juiz federal até expediu um mandado de segurança
para que a Portus não fosse prejudicada pelos títulos falsos,
pois os comprara de boa-fé o que acaba por comprovar que
a operação realmente foi realizada.
Recordista
em TDAs Há outro dado complicador. O casal conta que,
antes de Pedrosa da Silva, foi procurado por Henrique Santiago. "Ele saiu
de Belém e veio a São Paulo nos oferecer um negócio
grande de TDAs, mas não deixaram ele vender tudo o que queria",
diz o ex-banqueiro Serafim de Moraes. O ex-banqueiro, que já simpatizara
com o tal Henrique Santiago, concordou em comprar os TDAs que o moço
tinha em mãos. Era um quantia ínfima. "Era tudo o que ele
tinha, acho que resolveu vender para pagar pelo menos as passagens de
avião de volta", diz Serafim. O que o casal não sabia é
que Henrique Santiago era homem de Jader Barbalho. Ele trabalhava como
chefe de cadastro numa repartição do Ministério da
Reforma Agrária, em Belém, e chegou a ter participação
na desapropriação da fazenda de Pedrosa da Silva
que, aliás, era uma terra falsa, razão pela qual os TDAs
acabaram sendo cancelados pelo governo. A presença de um afilhado
de Jader Barbalho no negócio é mais um indício de
que o senador pode ter tomado conhecimento da operação fraudulenta.
Agora, resta
saber se o dinheiro que Pedrosa da Silva embolsou chegou a pousar em alguma
conta bancária ligada ao senador Jader Barbalho. Só o rastreamento
do dinheiro poderá confirmar ou descartar a suspeita. O fato é
que não é a primeira vez que o senador aparece enrolado
com negócios ilícitos com TDAs, herança da época
em que foi ministro da Reforma Agrária do governo Sarney, entre
setembro de 1987 e julho de 1988. E Jader tinha um gosto especial por
esses títulos. Em menos de um ano à frente do Ministério
da Reforma Agrária, ele foi responsável por 73% dos TDAs
emitidos até hoje desde a criação desses papéis,
em 1964. Com uma máquina tão generosa na emissão
de títulos, muitas foram as fraudes. Em 1987, por exemplo, aconteceu
um caso muito semelhante ao protagonizado por Pedrosa da Silva. A mecânica
é idêntica: são emitidos títulos fajutos, os
títulos são vendidos para algum incauto e depois cancelados.
Assim, os cofres públicos não perdem dinheiro, mas os mentores
do golpe saem com os bolsos recheados.
No golpe
de 1987, o governo desapropriou a Fazenda Nova Canaã, de 49 000
hectares, em Mato Grosso. O proprietário foi indenizado com TDAs,
emitidos em tempo recorde: apenas dois dias. Um funcionário que
se encarregou da tarefa, Ivan da Silva Mello, em depoimento à Polícia
Federal, contou que a ordem de urgência veio do próprio ministro
Jader Barbalho. Curiosamente, o advogado dos proprietários da Nova
Canaã já estava de posse dos TDAs antes mesmo de o Diário
Oficial da União publicar a autorização para
que os títulos fossem pagos. Como se vê, foi um negócio
a jato, realizado dentro do ministério de Jader. Oito meses depois,
os títulos foram cancelados porque a desapropriação
fora irregular. De lá para cá, todas as investigações
sobre este caso foram caindo uma a uma, ano após ano. O procurador-geral
da República, Geraldo Brindeiro, achou que Jader Barbalho devia
ser excluído do rol dos investigados. Resultado: mais uma pizza
na República.

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