Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 705 - 20 de junho de 2001
Brasil Jader

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Sumário
Brasil
 

Brasil
 

Jader: Além dos títulos, o senador se enrola em telefonemas
Anthony garotinho embola a corrida pela Presidência
A conta secreta do ex-prefeito de São Paulo
O documento oculto sobre o Dossiê Cayman
Coleção espetacular é colocada à venda no Rio de Janeiro
O contrato milionário entre a Ambev e a CBF

Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos


colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas

Para usar
VEJA Recomenda
Literatura brasileira
Os mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Busca detalhada
Arquivo 1997-2001
Busca somente texto 96|97|98|99|00|01


Crie seu grupo




 

Entre ligações e títulos

Semana ruim para Jader: a negociata
de títulos agrários está confirmada – e
dois extratos telefônicos mostram a
relação do senador com o maior
fraudador da Sudam

Malu Gaspar e Alexandre Oltramari


Mauricio Camargo/Obritonews
Clique nas imagens para vê-las ampliadas

Jader Barbalho, entre títulos da dívida agrária cancelados devido à descoberta de uma fraude e extratos telefônicos mostrando as ligações entre o senador e o empresário José Osmar Borges, acusado de desviar 133 milhões de reais da extinta Sudam: os contatos eram feitos por meio do celular de uma terceira pessoa ou de um aparelho num quarto do Hotel Hilton em Belém do Pará

O senador Jader Barbalho, presidente do Congresso Nacional, jamais contou tudo sobre sua relação com José Osmar Borges, dono de seis empresas, três CPFs e acusado de desviar 133 milhões de reais da extinta Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam). Às vésperas de sua eleição à presidência do Senado, Jader afirmou que conhecia Osmar Borges "havia muitos anos", assim como conhecia outros "inúmeros empresários da Sudam". Ou seja: não tinha com ele nenhuma relação especial. Dois meses depois, descobriu-se que havia, sim, uma relação especial: Jader fora sócio de Osmar Borges numa fazenda no Pará, entre 1996 e 1998. O senador disse então que, na época da sociedade, não sabia que o empresário estava enrolado com fraudes na Sudam. "Eu teria de ser vidente", afirmou. Na mesma ocasião, Jader informou que, depois de desfazer a sociedade na fazenda, em janeiro de 1998, manteve alguns contatos com Osmar Borges. Coisa sem importância. "Após minha eleição no Senado, ele me mandou uma fita de vídeo com seus empreendimentos", disse. E nada mais.

Agora, descobriu-se que sua relação com o fraudador é muito mais próxima do que o senador admitiu. VEJA teve acesso a dois extratos telefônicos de Osmar Borges. Eles mostram as ligações do empresário durante três meses de 1999 e em outubro e novembro de 2000 – bem depois de janeiro de 1998, data em que foi desfeita a sociedade na fazenda no Pará. Nesses cinco meses, Osmar Borges fez dezoito ligações para o senador: há cinco telefonemas para a casa de Jader em Brasília, outros três para a casa de Jader em Belém e mais dez chamadas para o celular do senador. São sempre conversas rápidas. A mais longa, feita para o telefone da casa de Jader em Belém, durou três minutos e 47 segundos. Nos mesmos extratos, está registrado que o senador também ligou para o celular de Osmar Borges. Foram dois telefonemas, ambos em maio de 1999 – exatamente o período em que começaram a vir a público as tramóias do empresário na Sudam. Os contatos entre ambos eram feitos só através de números privados. Não há uma única ligação para números públicos do senador – como seu escritório político em Belém ou seu gabinete de senador em Brasília.

 
Claudio Rossi
Claudio Rossi
O ex-banqueiro Serafim de Moraes e a mulher, Vera Campos, em sua casa em São Paulo e o recibo de depósito de 700 milhões de cruzados novos (hoje, 3,4 milhões de reais) em favor de Pedrosa da Silva, com a devida autenticação mecânica: a versão do casal foi confirmada. Os dois, de fato, compraram títulos da dívida agrária de Pedrosa da Silva e realmente os entregaram a um fundo de pensão, a Portus. Os dois, porém, afirmam apenas que viram o senador Jader Barbalho no saguão do hotel onde a negociação foi feita, mas não sabem dizer se o cheque foi parar nas mãos dele

Outro dado curioso é que, na aparência, Osmar Borges tentava ocultar o rastro de suas ligações para o senador. Um dos extratos telefônicos a que VEJA teve acesso é do celular do empresário, mas o número está em nome de seu irmão, Carlos Cesar Borges. Quem examina o extrato fica supondo que Carlos Borges ligava para o senador – mas, na verdade, era o próprio Osmar Borges. O ex-policial federal Alberto Koury, por exemplo, confirma essa hipótese. Ele recebeu nove ligações desse celular e ligou para esse número sete vezes – mas garante que só conhece Carlos Borges "de vista". "É que o Carlão trabalha com o Osmar Borges. Do Osmar Borges, sim, eu recebia ligações", diz Alberto Koury, ele próprio enrolado com fraudes na Sudam. O outro extrato a que VEJA teve acesso traz ligações que Osmar Borges fez, em outubro e novembro de 2000, de um apartamento no Hotel Hilton, em Belém, onde o empresário se hospedava com freqüência. A dúvida é: por que Osmar Borges e Jader não se falavam por telefones comuns? Por que só por meio do celular de uma terceira pessoa e do aparelho de quarto de hotel?

Testa-de-ferro – É difícil imaginar que Osmar Borges precisasse fazer tantos contatos, e ainda por cima para as duas casas e para o celular de Jader, só para combinar a remessa de um vídeo de seus empreendimentos ao senador. Pode ser até que Jader recebesse tantas ligações do empresário apenas para falar de amenidades ou dos bons tempos em que foram sócios numa fazenda. O problema é que o senador poderia ter dito isso logo no início. Poderia ter dito que era amigo de Osmar Borges, que fora seu sócio e que, mesmo depois de descoberto seu envolvimento com fraudes na Sudam, seguiu fiel à amizade. Mas, como sempre quis passar a impressão de que nunca teve relações próximas com Osmar Borges, o próprio senador produz a impressão de que mentiu sem parar. Os procuradores do Ministério Público que investigam as fraudes na Sudam já trabalham com uma suspeita cabeluda: a de que Osmar Borges possa ter atuado como testa-de-ferro do senador. É uma suspeita cabeluda porque Osmar Borges, além de ser acusado de desviar 133 milhões de reais da Sudam, foi pilhado mandando 110 milhões de reais para o exterior. Ninguém sabe o destino do dinheiro.

Em vez de esclarecer, o senador prefere confundir. Em 16 de abril passado, por exemplo, subiu à tribuna do Senado para falar da sociedade com Osmar Borges na fazenda. Falou, falou e prometeu entregar as declarações de imposto de renda de sua mulher e da fazenda, mostrando que o negócio fora regular. Passados dois meses, os documentos até hoje não apareceram. Na semana passada, Jader voltou à tribuna, pela terceira vez, desde que assumiu a presidência do Senado, em fevereiro passado, para defender-se de acusações. Desta vez, a suspeita é que se tenha beneficiado da venda de títulos da dívida agrária fajutos quando era ministro da Reforma Agrária. De novo, Jader falou, falou e não convenceu seus pares. Os compradores dos títulos – o banqueiro Serafim Rodrigues de Moraes e sua mulher, Vera Arantes Campos – contam que, quando repassaram o dinheiro ao vendedor dos papéis, Vicente de Paula Pedrosa da Silva, avistaram no local, o saguão do Hotel Hilton em São Paulo, o então ministro Jader Barbalho. O fato de estar presente no hotel onde Pedrosa da Silva aplicava um golpe não é suficiente para comprometer Jader. Mas as explicações, em vez de ajudar, só atrapalham.

Pedrosa da Silva, por exemplo, garantiu que jamais vendera TDAs ao casal. Na semana passada, Vera Campos provou que o negócio foi feito. Ela assinou dois cheques, ambos do antigo banco Bamerindus. Um, de número 863685, no valor de 50 milhões de cruzados, que equivalem hoje a 275 000 reais. Era um sinal, dado em 28 de novembro de 1988. O outro cheque, que sacramentou o negócio, saiu de um talão anterior, tinha o número 863665 e valor de 700 milhões de cruzados, ou 3,4 milhões de reais em valores atuais. Mais do que isso: Vera mostrou o recibo do depósito de 700 milhões de cruzados que fez em favor de Pedrosa da Silva. Também ficou confirmada a versão de que o casal, ao comprar os TDAs, usou os papéis num negócio com a Portus, fundo de pensão da extinta Portobrás. Em junho de 1997, um juiz federal até expediu um mandado de segurança para que a Portus não fosse prejudicada pelos títulos falsos, pois os comprara de boa-fé – o que acaba por comprovar que a operação realmente foi realizada.

Recordista em TDAs – Há outro dado complicador. O casal conta que, antes de Pedrosa da Silva, foi procurado por Henrique Santiago. "Ele saiu de Belém e veio a São Paulo nos oferecer um negócio grande de TDAs, mas não deixaram ele vender tudo o que queria", diz o ex-banqueiro Serafim de Moraes. O ex-banqueiro, que já simpatizara com o tal Henrique Santiago, concordou em comprar os TDAs que o moço tinha em mãos. Era um quantia ínfima. "Era tudo o que ele tinha, acho que resolveu vender para pagar pelo menos as passagens de avião de volta", diz Serafim. O que o casal não sabia é que Henrique Santiago era homem de Jader Barbalho. Ele trabalhava como chefe de cadastro numa repartição do Ministério da Reforma Agrária, em Belém, e chegou a ter participação na desapropriação da fazenda de Pedrosa da Silva – que, aliás, era uma terra falsa, razão pela qual os TDAs acabaram sendo cancelados pelo governo. A presença de um afilhado de Jader Barbalho no negócio é mais um indício de que o senador pode ter tomado conhecimento da operação fraudulenta.

Agora, resta saber se o dinheiro que Pedrosa da Silva embolsou chegou a pousar em alguma conta bancária ligada ao senador Jader Barbalho. Só o rastreamento do dinheiro poderá confirmar ou descartar a suspeita. O fato é que não é a primeira vez que o senador aparece enrolado com negócios ilícitos com TDAs, herança da época em que foi ministro da Reforma Agrária do governo Sarney, entre setembro de 1987 e julho de 1988. E Jader tinha um gosto especial por esses títulos. Em menos de um ano à frente do Ministério da Reforma Agrária, ele foi responsável por 73% dos TDAs emitidos até hoje desde a criação desses papéis, em 1964. Com uma máquina tão generosa na emissão de títulos, muitas foram as fraudes. Em 1987, por exemplo, aconteceu um caso muito semelhante ao protagonizado por Pedrosa da Silva. A mecânica é idêntica: são emitidos títulos fajutos, os títulos são vendidos para algum incauto e depois cancelados. Assim, os cofres públicos não perdem dinheiro, mas os mentores do golpe saem com os bolsos recheados.

No golpe de 1987, o governo desapropriou a Fazenda Nova Canaã, de 49 000 hectares, em Mato Grosso. O proprietário foi indenizado com TDAs, emitidos em tempo recorde: apenas dois dias. Um funcionário que se encarregou da tarefa, Ivan da Silva Mello, em depoimento à Polícia Federal, contou que a ordem de urgência veio do próprio ministro Jader Barbalho. Curiosamente, o advogado dos proprietários da Nova Canaã já estava de posse dos TDAs antes mesmo de o Diário Oficial da União publicar a autorização para que os títulos fossem pagos. Como se vê, foi um negócio a jato, realizado dentro do ministério de Jader. Oito meses depois, os títulos foram cancelados porque a desapropriação fora irregular. De lá para cá, todas as investigações sobre este caso foram caindo uma a uma, ano após ano. O procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, achou que Jader Barbalho devia ser excluído do rol dos investigados. Resultado: mais uma pizza na República.

 
Veja também
Dos arquivos de VEJA
  Pizza é aqui, ó - 23/5/01
  Jader caiu no caldeirão da Sudam - 25/4/01
  Está mais difícil do que antes - 21/3/01
  Está tudo debaixo do tapete - 14/3/01
  Desfalque no banco - 7/3/01
  O senador de 30 milhões - 25/10/00

 

 
 
   
  voltar
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS