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Edição 1 718 - 19 de setembro de 2001
Entrevista: IAN O. LESSER

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O novo terrorismo

Especialista americano em atentados
diz que o estilo dos seqüestros mudou
e nem o Brasil agora está imune

Eduardo Salgado

Às 9h43 da manhã de terça-feira passada, o americano Ian O. Lesser, um consultor para temas de combate ao terrorismo, encontrava-se no centro de Washington. Caso estivesse trabalhando na sala que ocupa na Rand, uma renomada instituição de pesquisa sem fins lucrativos que presta serviço para a CIA e para o Departamento de Estado americano, ele teria visto, de sua janela, o Pentágono pegando fogo, alvo de um ataque terrorista. Dono de um diploma de doutorado em relações internacionais pela Universidade de Oxford, Lesser fez parte da equipe de planejamento de políticas de segurança internacional do Departamento de Estado durante o governo de Bill Clinton. Nesse período, foi responsável pelos países mediterrâneos e participou do processo de paz do Oriente Médio. Criada em 1948, a Rand amealhou vasta experiência em questões de estratégia internacional, bem como em foguetes e satélites, a começar pela demanda do primeiro cliente que teve, a Força Aérea Americana. O co-autor do livro Contra-Ataque ao Novo Terrorismo (Countering the New Terrorism), publicado há dois anos, diz que não temeu por sua vida quando notou a movimentação de ambulâncias. Mas, nova-iorquino, ficou chocado mesmo foi quando viu as cenas dos aviões colidindo com o World Trade Center. "É difícil olhar Manhattan de longe e não ver mais as duas torres", afirmou a VEJA na entrevista que segue.

Veja – O Brasil está livre de ataques terroristas?
Lesser – Não. O terrorismo é global. O país de vocês não é o local mais provável, mas continua sendo um alvo possível. Não podemos esquecer o ataque terrorista ao centro da comunidade judaica em Buenos Aires, no começo dos anos 90. Aquela ação foi provavelmente organizada pelo Hezbollah, do Líbano. Hoje vivemos num mundo muito mais globalizado. Todos nós estamos expostos ao perigo. Ninguém está livre do risco.

Veja – O senhor esperava um ato terrorista da magnitude que se viu nos Estados Unidos, contra o World Trade Center e o Pentágono?
Lesser – Não. Ninguém esperava. Como especialista, obviamente imaginava que em teoria algo assim poderia acontecer. Os responsáveis por essa área no governo também trabalhavam com essa possibilidade. Pensávamos em algo mais destrutivo, como ataques com armas atômicas. Fomos todos pegos de surpresa.

Veja – Esses foram os piores ataques terroristas da história da humanidade?
Lesser – É bastante possível. Certamente foram os mais dramáticos e letais da história moderna do terrorismo. A escala dos ataques foi catastrófica, mas não é comparável a um ataque nuclear de pequena escala numa área urbana.

Veja – O governo americano falhou?
Lesser – Essa é uma das ironias desses ataques. O governo tomou várias providências nos últimos anos. Tanto em termos de tentar entender os riscos do terrorismo e adotar medidas para combatê-los quanto de preparar operações de salvamento, que por sinal foram ótimas. É claro que não se conseguiu prever nem prevenir esses ataques. Há mais ironias nesses episódios. Os terroristas seqüestraram aviões. Governos de várias partes do mundo começaram a tomar medidas para evitar esse tipo de ação há trinta anos. Elas foram uma resposta aos seqüestros da década de 70. Como se viu, as máquinas de raios X e todo o sistema de segurança dos aeroportos se revelaram extremamente vulneráveis, apesar de todos os esforços. Essa falha foi a peça-chave no plano dos terroristas. Alguém poderia dizer que o problema é a ausência de sistemas de defesa contra aeronaves em prédios de Nova York e Washington. Mas a verdade é que os seqüestradores conseguiram controlar os aviões.

Veja – Os ataques a Nova York e a Washington são exemplos do que os especialistas chamam de novo terrorismo?
Lesser – Exatamente. Na época do velho terrorismo, havia grupos conhecidos com propostas políticas bem definidas. Geralmente assumiam seus atos. Os países que os patrocinavam não costumavam esconder o fato da comunidade internacional. Os grupos que melhor traduziram esse modelo foram o IRA, em sua época áurea, a Frente Popular para Libertação da Palestina, as Brigadas Vermelhas, organizações ativas nas décadas de 70 e 80. Hoje, a situação é completamente diferente. Existem várias formas de terrorismo. Ainda temos exemplos do velho terrorismo, como o ETA, na Espanha, e facções radicais do IRA, da Irlanda do Norte. Mas também temos o novo terrorismo. E os ataques a Washington e a Nova York são típicos: enorme número de vítimas fatais, alvos simbólicos, ataques suicidas e demora em assumir a autoria.

Veja – Os objetivos são os mesmos de antes ou também ocorreu uma mudança?
Lesser – Há muita diferença com relação a eles. Provavelmente, esses ataques não têm um objetivo político preciso. É mais uma motivação contra o sistema. Nada a ver com a independência de um país ou com a intenção de fazer uma chantagem política específica. É uma expressão de fúria. Por isso, a tática usada e as conseqüências são diferentes.

Veja – É mais difícil combater o terrorismo hoje?
Lesser – Muito mais. É complicado conseguir informações. Era mais fácil monitorar grupos estabelecidos e países patrocinadores. As táticas eram mais ou menos as mesmas: a bomba e as armas. Agora temos muito mais causas, gente, grupos de todas as partes e patrocinadores mais discretos. Tudo isso torna extremamente difícil o trabalho das pessoas responsáveis pelas ações de contraterrorismo.

Veja – Essa nova tendência é basicamente motivada por grupos religiosos fanáticos?
Lesser – Eles foram responsáveis por boa parte dos atos que relacionamos com esse novo terrorismo. Mas é importante ressaltar que não são apenas grupos islâmicos. Tivemos o exemplo do culto japonês do gás sarin, de extremistas hindus e de grupos de praticamente todas as religiões. Temíamos muito a ação de cultos e seitas no ano passado por causa da virada do milênio, o que felizmente não aconteceu. O termo terrorismo religioso é bem amplo. É certo que um número grande de islâmicos ao redor do mundo nutre ódio pelos Estados Unidos. Isso interage com todo o debate antiglobalização. O World Trade Center pode ser um alvo simbólico para fanáticos contrários à globalização. Dito isso, é verdade que as características dos ataques são de grupos religiosos.

Veja – Desta vez, houve repercussão imediata e planetária via televisão, com grande parte dos desdobramentos acompanhada instantaneamente por milhões e milhões de pessoas. Isso muda alguma coisa?

Lesser – Nos últimos anos, o número de ataques diminuiu e o de mortes aumentou. O velho terrorismo calibrava muito bem suas ações e o nível de violência. Queria espalhar o terror e chamar a atenção, mas não chocar a ponto de provocar uma reação muito forte na opinião pública. Não queria perder o apoio de seus simpatizantes. Muitas vezes eram apenas assassinatos de presidentes ou gente ligada ao governo. O novo terrorismo é mais indiscriminado, mais visível e busca a destruição de alvos simbólicos. Por isso, é mais letal. Há também a questão da inovação. Os terroristas estão mais espertos em termos táticos. À medida que os órgãos de segurança fazem melhor seu trabalho, diminuindo a probabilidade de atos tradicionais, os terroristas procuram ações mais exóticas. Os ataques aos Estados Unidos dão a impressão de ter sido feitos para maximizar a cobertura da mídia. Estou apenas especulando, mas o timing foi incrível. As câmaras estavam todas lá. Ainda não sabemos se eles esperavam a queda das torres do World Trade Center. Há dúvidas técnicas sobre isso. Talvez quisessem fazer algo espetacular e não contavam com a queda.

Veja – Qual deve ser o papel da imprensa nessa hora?
Lesser – Os terroristas cometem essas loucuras para chamar a atenção da mídia. Mas a imprensa não tem escolha. O que poderia fazer? Coisas como essas são históricas. A sede de informações e análises foi enorme em todo o mundo. Nos tempos do velho terrorismo, era diferente. Quando havia chantagem envolvida, era possível culpar a imprensa por noticiar em alguns casos. Os ataques aos Estados Unidos foram espetaculares. Não havia como escondê-los. Há uma exceção. Entendo o mau humor de agentes secretos e pessoas ligadas aos serviços de informação com alguns vazamentos para a imprensa. Não podemos discutir métodos e fontes. Isso poderia diminuir nosso poder de prevenir ataques no futuro.

Veja – Os ataques, resultantes de seqüestros de aviões comerciais, feitos em estilo aparentemente convencional, de acordo com as poucas informações disponíveis no primeiro momento, não poderiam ter sido evitados?
Lesser – Sim, mas esse exercício de raciocínio é irrelevante agora, depois que tudo aconteceu. O serviço de segurança dos aeroportos poderia ter sido mais severo, as informações do serviço secreto poderiam ter sido mais específicas, o pessoal do controle de tráfego aéreo poderia ter descoberto que havia algo errado logo em seguida, mas precisamos prestar atenção em uma coisa mais importante. A questão não é como prevenir um ato isolado, mas como deter o terrorismo.

Veja – É possível acabar com o terrorismo?
Lesser – A expectativa das pessoas é que as ações de contraterrorismo sejam perfeitas. Isso é impossível. Terrorismo é comparável ao crime. Podemos reduzir o índice de assaltos, mas não acabar de vez com eles.

Veja – O sucesso dos ataques ao Pentágono e ao World Trade Center, do ponto de vista pragmático, irá motivar outros atentados?
Lesser – Temo que o risco de que isso aconteça exista. Precisamos nos preocupar com essa possibilidade.

Veja – Quais são os grupos terroristas de motivação religiosa mais perigosos do mundo hoje?
Lesser – Essa questão é muito complexa. Na verdade, não sabemos. Conhecemos as redes, mas elas não nos dizem muito. São grupos sem definição, de indivíduos, de pequenas células, até com free lancers. Mudam continuamente.

Veja – O milionário Osama bin Laden pode ser considerado o terrorista mais perigoso do planeta?
Lesser – É possível que sim. Mas não podemos esquecer que estamos tratando de redes. O nome de Bin Laden pode até estar no centro da rede, mas não é só ele. Acabar com Bin Laden poderá ser bom, mas não resolverá o problema do terrorismo.

Veja – Poucas horas depois dos ataques a Nova York e a Washington, ficou claro que o mundo não seria mais o mesmo, embora haja muita divergência sobre o rumo que tudo isso tomará. Em sua opinião, quais serão as principais alterações nas áreas de política internacional e de segurança, particularmente em que isso poderá afetar a vida do cidadão comum?
Lesser – As mudanças serão dramáticas e em vários níveis. Medidas técnicas serão tomadas. Haverá mais segurança em aeronaves, em prédios e em instituições visadas por terroristas. A maior mudança, e que afetará nossa vida no longo prazo, é a forma como pensamos em segurança. Não apenas nos Estados Unidos, mas em todas as partes do mundo. Em termos de política internacional, os Estados Unidos deverão modificar sua estratégia no Oriente Médio e sua relação com países ligados a grupos terroristas. Espero que comecemos a pensar nas causas do terrorismo contra os Estados Unidos, de onde vem esse ódio. Coisas que começam hoje e explodem daqui a décadas. Washington passará a medir muito bem o grau de cooperação de outros países na luta contra o terrorismo. Isso será um dos critérios centrais da política americana. Os Estados Unidos não correm muitos riscos externos no atual cenário internacional. Houve muita discussão sobre quanto o país era vulnerável a ataques internos. O que aconteceu muda completamente tudo isso.

Veja – Não é uma contradição o governo americano falar tanto na criação de um escudo antimíssil enquanto os Estados Unidos estão vulneráveis a ataques tecnologicamente mais banais?
Lesser –
Não. O problema central é o mesmo: a defesa do território nacional. É possível que algumas prioridades mudem. Mais atenção a ataques não convencionais, como o que vimos, e menos para o escudo antimíssil. Não tenho dúvida de que a defesa receberá mais recursos no futuro. O apoio da comunidade internacional também será maior. É crucial montar uma rede internacional de combate ao terrorismo. Esse não é um problema apenas americano. Na verdade, é provável que a ação preventiva se intensifique nos Estados Unidos, levando os terroristas para outras regiões.


 
 
   
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