Toda a miséria do mundo
"Os fluxos migratórios internacionais
não vão diminuir.
Legais ou ilegais, eles constituem, como foi o caso
no último quartel do século XIX, um dos
componentes da globalização"
Ilustração Ale Setti
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O noticiário sobre os fluxos de imigração
clandestina toma às vezes um tom burlesco. Como agora,
quando se descobriu um novo modo de entrada ilegal de imigrantes
na fronteira MéxicoEstados Unidos. Em 4 de
julho, aproveitando as festas do Independence Day, um grupo
de mexicanos disfarçados em ciclistas que disputavam
uma competição com capacete, número
nas costas, roupa colorida e tudo o mais passou na
fronteira aberta por guardas americanos simpatizantes do
esporte. Os coitados foram presos mais adiante, em Corpus
Christi (Texas), onde confessaram que as bicicletas de corrida
com dez marchas e o resto do equipamento eram fornecidos,
por alto preço, pelas quadrilhas de contrabandistas
de imigrantes.
Trezentos mil mexicanos migram anualmente, de um jeito
ou de outro, para os Estados Unidos. Em vista disso, Vicente
Fox, o presidente eleito do México, declarou que
o problema se resolveria com a instauração,
daqui a dez anos, de uma fronteira aberta entre os dois
países. Segundo ele, a solução deu
certo na Europa, onde, "25 anos atrás, a migração
de espanhóis para a Alemanha era tão importante
quanto a de mexicanos para os EUA atualmente". Ora, ao contrário
do que parece pensar o futuro presidente mexicano, essa
medida só deslocaria a barreira a ser ultrapassada
mais para o sul, para a Guatemala, visto que o território
mexicano é também via de passagem de outras
redes inclusive brasileiras de migração
clandestina para os Estados Unidos. A União Européia
debate-se com este problema: o desaparecimento das fronteiras
internas aumentou a pressão dos imigrantes na periferia
da região. As tensões mais graves localizam-se
na Alemanha, alvo do tráfico de imigrantes vindos
da Europa Central, e na Espanha, entrada preferencial dos
migrantes ilegais do Marrocos e da África negra.
Para José Maria Aznar, primeiro-ministro espanhol,
essa imigração constitui o "problema número
1 do começo do século XXI".
O drama vivido por milhares de pessoas de todas as raças
tomou dimensão atroz no mês passado, quando
a polícia britânica descobriu, no estacionamento
do porto de Dover, 58 chineses mortos asfixiados na caçamba
fechada de um caminhão. As reportagens da imprensa
européia revelaram a extensão do tráfico
de imigrantes clandestinos transportados por redes da máfia
chinesa, entre as quais a tríade das "Cabeças
de Serpente", e seus cúmplices europeus. Gente trazida
do Extremo Oriente até a Inglaterra e tratada como
gado, sofrendo todo tipo de humilhação, de
chantagem, de violência. O tráfico de migrantes
em direção aos Estados Unidos e à Europa
Ocidental virou um grande negócio, formando quadrilhas
internacionais que tiram mais lucro dessa atividade, muito
mais abrangente, do que do tráfico de drogas.
O problema já transparece no Brasil pelos dois
lados. No lado da emigração, nas redes que
exploram os brasileiros que viajam e trabalham ilegalmente
nos Estados Unidos e em vários países europeus.
No lado da imigração, com os traficantes e
patrões boçais que se aproveitam dos asiáticos
e hispano-americanos entrados ilegalmente em nosso país.
De fato, desde o começo do Plano Real, com a moeda
brasileira sobrevalorizada, aumentou o afluxo de migrantes
dos países vizinhos. Hoje, só na Grande São
Paulo vivem 200.000 bolivianos,
muitos deles imigrantes ilegais, conforme dados de alguns
especialistas.
Uma coisa é certa: os fluxos migratórios
internacionais não vão diminuir. Legais ou
ilegais, eles constituem, como foi o caso no último
quartel do século XIX, um dos componentes da globalização.
Confrontado com a situação bizarra de lidar
com os dois lados do problema, o Brasil ganharia grande
autoridade diplomática se tratasse com dignidade
os imigrantes ilegais. Respeitar os bolivianos que trabalham
ilegalmente na Grande São Paulo daria força
para defender os brasileiros que trabalham clandestinamente
na Grande Nova York.
Luiz Felipe de Alencastro
é historiador
(lfa@workmail.com)