Os esplendores de
Espanha e nós
Liderança moral eis uma virtude
com que eles
puderam contar. Enquanto isso, por estas bandas...
El Greco e Velázquez, estrelas da exposição
Esplendores de Espanha, em cartaz no Museu Nacional
de Belas Artes, no Rio, não esgotam o rol de prodígios
do gênio espanhol enviado ao Brasil na semana passada.
Com eles veio um personagem que, embora em outro ramo de
atividade, merece figurar no mesmo elenco o rei Juan
Carlos I.
Nos 25 anos de reinado que Juan Carlos completará
em novembro, a Espanha viveu renascimento comparável
ao da época dos artistas representados na mostra.
O PIB cresceu de 40 bilhões de dólares para
550 bilhões. O país atrasado, ainda meio camponês,
identificado com os fundões da Europa, virou uma
atualizada democracia, inventiva como a arquitetura de Barcelona,
inquieta como um filme de Almodóvar. E não
se diga que o papel do rei foi menor. Juan Carlos constituiu-se
no garante da democracia, num país onde à
tragédia da Guerra Civil (1936-1939) se seguiu longa
ditadura (1939-1975). Encarnou, e encarna ainda, a unidade,
num país revolvido pelo conflito entre Catalunha
e Castela, País Basco e o resto. Facilitou, com seu
conhecimento do mundo, dos idiomas e seu talento para a
diplomacia, a abertura para o exterior, num país
antes fechado sobre si mesmo. E exerceu bem essas funções,
sobretudo porque não falhou no papel que mais se
exigia dele: o de líder moral.
Líder moral, liderança moral: isso é
coisa de que se fale, hoje em dia? Alguns acharão
essa conversa com cheiro de velharia. A outros, soará
a sermão e sacristia. Pelo menos no Brasil, e pelo
menos na política, não se usa muito invocar
um conceito como o de "liderança moral". Honestidade,
sim, é um clamor da sociedade, mas liderança
moral não se confunde com honestidade. A honestidade
é um seu pressuposto, mas a liderança moral
vai além. Nos Estados Unidos, ao contrário,
o conceito faz parte do debate político. Ali é
comum colocar na balança a avaliação
moral, quando se fala nas qualidades de um líder.
Isso inclui sua capacidade de, como costumam dizer os americanos,
"inspirar", vale dizer: dar exemplo e fixar padrões
de exigência para seus liderados.
No Brasil, o conceito de liderança moral, ou o
hábito de incluir a superioridade moral entre as
virtudes das pessoas, é mais natural fora da política
do que dentro. Fala-se que Barbosa Lima Sobrinho é
a reserva moral da nação, ou que Fernanda
Montenegro é a reserva moral do teatro, como há
muito não se fala de um político. Costuma-se,
com mais freqüência, medir as qualidades morais
de um técnico de futebol, ou do capitão do
time, para exercer a liderança inerente aos respectivos
cargos, do que do líder partidário. Talvez
se evite a palavra "moral" pela contaminação
com "moralismo". Ou então será pela percepção
de que a política não tem mesmo jeito. Moral,
em definitivo, não é com ela.
O rei Juan Carlos adequou-se à perfeição
aos papéis de símbolo e de árbitro
que se esperavam dele porque soube manter o esquadro moral.
Pode-se argumentar que contou com a condescendência
da mídia espanhola quanto a sua vida particular,
como não contam, por exemplo, dos tablóides
londrinos, os membros da família real britânica.
Pode-se argumentar também que a instituição
da monarquia, tal qual é concebida hoje na Europa,
em que a condição primeira é excluir
o monarca das misérias do dia-a-dia e do corpo-a-corpo
da política, ajuda muito. Resta que tais anteparos
só têm utilidade para alguém à
altura de servir-se deles. Juan Carlos contribuiu, e decisivamente,
para dois milagres: o do desenvolvimento espanhol das últimas
décadas e o da reposição da monarquia,
dois séculos depois da Revolução Francesa,
entre as instituições que ainda podem ser
úteis. Já no Brasil...
No Brasil, o presidente Fernando Henrique Cardoso, pelo
passado e pelas qualidades pessoais, estava credenciado
como poucos a dar conteúdo moral ao exercício
da Presidência, mas essa oportunidade, ao que parece,
e apesar de sua honestidade pessoal, está irremediavelmente
perdida. Poucas coisas são irremediáveis,
no governo FHC como na vida. A política econômica
que hoje lhe rende o inferno das sondagens de opinião
pode ser amanhã o pedestal onde assentará
sua glória. A lentidão nas decisões,
as vacilações e as ambigüidades pelas
quais hoje é criticado amanhã poderão
ser tomadas por sabedoria.
Já a possibilidade de afirmar uma liderança
moral foi quebrada talvez no momento em que condescendeu
com o festival de é-dando-que-se-recebe que antecedeu
a emenda da reeleição. Ou talvez tivesse se
trincado ainda antes, diante de certos imperativos da ampla
aliança formada a seu redor. Agora vem à tona
o fato estarrecedor de que, na sala ao lado, tinha um auxiliar
que mantinha amizade íntima com um, e se exauria
ao telefone com outro, dos protagonistas de um escabroso
escândalo de desvio de dinheiro público. Não
há liderança moral que resista quando, com
tanta freqüência, os escândalos batem à
porta. Sim, neste caso a perda talvez seja irremediável.