Edição 1 658 - 19/7/2000

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Os esplendores de
Espanha e nós

Liderança moral – eis uma virtude com que eles
puderam contar. Enquanto isso, por estas bandas...

El Greco e Velázquez, estrelas da exposição Esplendores de Espanha, em cartaz no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio, não esgotam o rol de prodígios do gênio espanhol enviado ao Brasil na semana passada. Com eles veio um personagem que, embora em outro ramo de atividade, merece figurar no mesmo elenco – o rei Juan Carlos I.

Nos 25 anos de reinado que Juan Carlos completará em novembro, a Espanha viveu renascimento comparável ao da época dos artistas representados na mostra. O PIB cresceu de 40 bilhões de dólares para 550 bilhões. O país atrasado, ainda meio camponês, identificado com os fundões da Europa, virou uma atualizada democracia, inventiva como a arquitetura de Barcelona, inquieta como um filme de Almodóvar. E não se diga que o papel do rei foi menor. Juan Carlos constituiu-se no garante da democracia, num país onde à tragédia da Guerra Civil (1936-1939) se seguiu longa ditadura (1939-1975). Encarnou, e encarna ainda, a unidade, num país revolvido pelo conflito entre Catalunha e Castela, País Basco e o resto. Facilitou, com seu conhecimento do mundo, dos idiomas e seu talento para a diplomacia, a abertura para o exterior, num país antes fechado sobre si mesmo. E exerceu bem essas funções, sobretudo porque não falhou no papel que mais se exigia dele: o de líder moral.

Líder moral, liderança moral: isso é coisa de que se fale, hoje em dia? Alguns acharão essa conversa com cheiro de velharia. A outros, soará a sermão e sacristia. Pelo menos no Brasil, e pelo menos na política, não se usa muito invocar um conceito como o de "liderança moral". Honestidade, sim, é um clamor da sociedade, mas liderança moral não se confunde com honestidade. A honestidade é um seu pressuposto, mas a liderança moral vai além. Nos Estados Unidos, ao contrário, o conceito faz parte do debate político. Ali é comum colocar na balança a avaliação moral, quando se fala nas qualidades de um líder. Isso inclui sua capacidade de, como costumam dizer os americanos, "inspirar", vale dizer: dar exemplo e fixar padrões de exigência para seus liderados.

No Brasil, o conceito de liderança moral, ou o hábito de incluir a superioridade moral entre as virtudes das pessoas, é mais natural fora da política do que dentro. Fala-se que Barbosa Lima Sobrinho é a reserva moral da nação, ou que Fernanda Montenegro é a reserva moral do teatro, como há muito não se fala de um político. Costuma-se, com mais freqüência, medir as qualidades morais de um técnico de futebol, ou do capitão do time, para exercer a liderança inerente aos respectivos cargos, do que do líder partidário. Talvez se evite a palavra "moral" pela contaminação com "moralismo". Ou então será pela percepção de que a política não tem mesmo jeito. Moral, em definitivo, não é com ela.

O rei Juan Carlos adequou-se à perfeição aos papéis de símbolo e de árbitro que se esperavam dele porque soube manter o esquadro moral. Pode-se argumentar que contou com a condescendência da mídia espanhola quanto a sua vida particular, como não contam, por exemplo, dos tablóides londrinos, os membros da família real britânica. Pode-se argumentar também que a instituição da monarquia, tal qual é concebida hoje na Europa, em que a condição primeira é excluir o monarca das misérias do dia-a-dia e do corpo-a-corpo da política, ajuda muito. Resta que tais anteparos só têm utilidade para alguém à altura de servir-se deles. Juan Carlos contribuiu, e decisivamente, para dois milagres: o do desenvolvimento espanhol das últimas décadas e o da reposição da monarquia, dois séculos depois da Revolução Francesa, entre as instituições que ainda podem ser úteis. Já no Brasil...

No Brasil, o presidente Fernando Henrique Cardoso, pelo passado e pelas qualidades pessoais, estava credenciado como poucos a dar conteúdo moral ao exercício da Presidência, mas essa oportunidade, ao que parece, e apesar de sua honestidade pessoal, está irremediavelmente perdida. Poucas coisas são irremediáveis, no governo FHC como na vida. A política econômica que hoje lhe rende o inferno das sondagens de opinião pode ser amanhã o pedestal onde assentará sua glória. A lentidão nas decisões, as vacilações e as ambigüidades pelas quais hoje é criticado amanhã poderão ser tomadas por sabedoria.

Já a possibilidade de afirmar uma liderança moral foi quebrada talvez no momento em que condescendeu com o festival de é-dando-que-se-recebe que antecedeu a emenda da reeleição. Ou talvez tivesse se trincado ainda antes, diante de certos imperativos da ampla aliança formada a seu redor. Agora vem à tona o fato estarrecedor de que, na sala ao lado, tinha um auxiliar que mantinha amizade íntima com um, e se exauria ao telefone com outro, dos protagonistas de um escabroso escândalo de desvio de dinheiro público. Não há liderança moral que resista quando, com tanta freqüência, os escândalos batem à porta. Sim, neste caso a perda talvez seja irremediável.