Edição 1 658 - 19/7/2000

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Geral
Economia e negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Colunas
Luiz Felipe de Alencastro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
Veja recomenda
Os mais vendidos

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


Minha ilha da fantasia


Pepe Casals


Costumo falar muito sobre Veneza em minha coluna. Pelo menos uma vez a cada dois meses. Dou-me perfeitamente conta de que é o assunto que menos interessa aos leitores de VEJA. Nada mais distante dos problemas brasileiros do que uma ilhota fedida e lamacenta perdida no Mar Adriático. Mas não se trata de esnobismo. Essa insistência tem um fundamento. Escolhi morar em Veneza porque a cidade me pareceu impermeável à contemporaneidade. Enquanto o mundo vai se tornando sempre mais parecido, Veneza resta imutável, imersa em seu esgoto secular. Cheguei a escrever um textinho a esse respeito, que um amigo meu, Tiziano Scarpa, decidiu anexar ao seu guia de Veneza, recentemente publicado pela editora Feltrinelli. No textinho, defendo a tese de que Veneza põe em xeque a fé no progresso humano, pois nenhuma inovação consegue se firmar por aqui. É uma Paquetá bizantina. De vez em quando, aparece um empreendedor disposto a investir fortunas para tirar a cidade do marasmo, mas, felizmente, ele logo vai à falência. Veneza é como aquelas seitas americanas em que as pessoas ainda andam de carroça e recusam-se a vacinar as crianças.

Todos os escritores que visitaram Veneza tentaram escrever algo sobre ela. É um daqueles temas obrigatórios. Nenhum escritor consegue escapar. Alguns tiveram uma péssima impressão da cidade, como Goethe, que reclamou da imundície de suas ruas, ou Mark Twain, que debochou das gôndolas, dos "grosseiros" mosaicos de São Marcos e das "pesadas" telas de Veronese e Tintoretto no Palácio Ducal. Outros, como Proust e Thomas Mann, preferiram associá-la, respectivamente, à vida e à morte. Outros ficaram tão encantados que resolveram transferir-se para cá, como Browning, Henry James, Hemingway e Brodski. Byron sempre passava nadando debaixo da minha janela. D'Annunzio também. Ezra Pound morava logo ali na esquina. Num ponto, porém, todos os escritores se assemelham: eles enxergam Veneza como um universo à parte, destacado do resto do mundo, uma ilha fantástica, alegórica, paradigmática, um laboratório, uma experiência única.

É mais ou menos o que eu faço. A minha Veneza é uma abstração. Não tem o menor vínculo com a realidade. É um contraponto, um espaço mental, um instrumento que serve apenas para observar o resto da humanidade. Finjo que Veneza é diferente dos outros lugares, uma espécie de aldeia de Asterix que resiste ao império absoluto, um refúgio incontaminado em que o presente simplesmente não entra. E, se entra, assume um aspecto grotesco, ridículo, improvável. Claro que tudo isso é mentira. Veneza é idêntica às outras cidades: a TV só fala do programa Big Brother, as livrarias vendem às pencas o último livro de Harry Potter, os decoradores distribuem pelas casas velas e almofadas douradas rigorosamente feng shui e a Bienal de Arquitetura está repleta de jardins zen. Mas prefiro viver na mentira de que nem tudo é necessariamente assim, de que sempre vai existir uma ilhota fedorenta que olha o mundo exterior com desconfiança e desdém.