Minha ilha da fantasia
Pepe Casals
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Costumo falar muito sobre Veneza em minha coluna. Pelo menos
uma vez a cada dois meses. Dou-me perfeitamente conta de
que é o assunto que menos interessa aos leitores
de VEJA. Nada mais distante dos problemas brasileiros do
que uma ilhota fedida e lamacenta perdida no Mar Adriático.
Mas não se trata de esnobismo. Essa insistência
tem um fundamento. Escolhi morar em Veneza porque a cidade
me pareceu impermeável à contemporaneidade.
Enquanto o mundo vai se tornando sempre mais parecido, Veneza
resta imutável, imersa em seu esgoto secular. Cheguei
a escrever um textinho a esse respeito, que um amigo meu,
Tiziano Scarpa, decidiu anexar ao seu guia de Veneza, recentemente
publicado pela editora Feltrinelli. No textinho, defendo
a tese de que Veneza põe em xeque a fé no
progresso humano, pois nenhuma inovação consegue
se firmar por aqui. É uma Paquetá bizantina.
De vez em quando, aparece um empreendedor disposto a investir
fortunas para tirar a cidade do marasmo, mas, felizmente,
ele logo vai à falência. Veneza é como
aquelas seitas americanas em que as pessoas ainda andam
de carroça e recusam-se a vacinar as crianças.
Todos os escritores que visitaram Veneza tentaram escrever
algo sobre ela. É um daqueles temas obrigatórios.
Nenhum escritor consegue escapar. Alguns tiveram uma péssima
impressão da cidade, como Goethe, que reclamou da
imundície de suas ruas, ou Mark Twain, que debochou
das gôndolas, dos "grosseiros" mosaicos de São
Marcos e das "pesadas" telas de Veronese e Tintoretto no
Palácio Ducal. Outros, como Proust e Thomas Mann,
preferiram associá-la, respectivamente, à
vida e à morte. Outros ficaram tão encantados
que resolveram transferir-se para cá, como Browning,
Henry James, Hemingway e Brodski. Byron sempre passava nadando
debaixo da minha janela. D'Annunzio também. Ezra
Pound morava logo ali na esquina. Num ponto, porém,
todos os escritores se assemelham: eles enxergam Veneza
como um universo à parte, destacado do resto do mundo,
uma ilha fantástica, alegórica, paradigmática,
um laboratório, uma experiência única.
É mais ou menos o que eu faço. A minha Veneza
é uma abstração. Não tem o menor
vínculo com a realidade. É um contraponto,
um espaço mental, um instrumento que serve apenas
para observar o resto da humanidade. Finjo que Veneza é
diferente dos outros lugares, uma espécie de aldeia
de Asterix que resiste ao império absoluto, um refúgio
incontaminado em que o presente simplesmente não
entra. E, se entra, assume um aspecto grotesco, ridículo,
improvável. Claro que tudo isso é mentira.
Veneza é idêntica às outras cidades:
a TV só fala do programa Big Brother, as livrarias
vendem às pencas o último livro de Harry Potter,
os decoradores distribuem pelas casas velas e almofadas
douradas rigorosamente feng shui e a Bienal de Arquitetura
está repleta de jardins zen. Mas prefiro viver na
mentira de que nem tudo é necessariamente assim,
de que sempre vai existir uma ilhota fedorenta que olha
o mundo exterior com desconfiança e desdém.