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Edição 1 756 - 19 de junho de 2002
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Claudio de Moura Castro

A educação invisível

"Quem sabe não estamos subestimando
o real nível de educação de nosso povo?"


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Pela teoria do capital humano, a educação é o mais importante fator para explicar por que alguns países crescem e outros não. E, em sociedades modernas, o conhecimento tem papel cada vez mais importante.

Ilustração Ale Setti


Mas, no Brasil, dá um nó. Temos estatísticas educativas parecidas com as do Paraguai e as da Bolívia e piores que as do Peru, países bem mais pobres que o nosso. Como terá sido possível distanciar-se deles com o pífio desempenho mostrado por nossas estatísticas de educação? Será que a teoria do capital humano está errada? Ou são os números?

O Brasil gasta cerca de 5% do PIB com educação (pela definição da OECD), um pouquinho acima da média mundial. Mas falta uma peça no quebra-cabeça. Segundo o banco Credit Suisse, na verdade, quando incluímos os gastos privados, o total chega a 9% do PIB (90 bilhões de reais).

Mas cadê os outros 4%? Fora da escola acadêmica, não existem estatísticas confiáveis, é um mosaico de informações desencontradas sobre o que acontece nas empresas e por todos os lados. E quem sabe o gasto não será ainda mais que 9%?

As empresas treinam, mas ninguém sabe quantos. Nem elas próprias contabilizam ou fazem estatísticas. As universidades corporativas se multiplicam e há milhares de centros de treinamento. As consultoras vendem treinamento às empresas. As universidades públicas e privadas, também. Os vendedores de equipamento capacitam os funcionários de seus clientes. Juntando tudo, é uma conta de muitos bilhões, que permite treinar milhões de alunos.

Fala-se em 300.000 estudantes de MBA, curso que legalmente não existe. Fazendo especialização em variados assuntos, deve haver ainda mais. Grande parte das universidades possui mais alunos em extensão que em cursos regulares. Nos cursinhos pré-vestibulares, é provável que haja pelo menos 1 milhão.

Há o ensino a distância, indo das velhas escolas por correspondência, com centenas de milhares, ao e-learning, que se multiplica como o mosquito da dengue, facilmente matriculando 1 milhão de alunos. Existem mais ou menos 400.000 nos telecursos de empresas e ONGs. Temos dois canais de televisão exclusivamente dedicados à educação. Uma pesquisa de audiência mostrou que entre 6 e 7 milhões de pessoas haviam assistido ao telecurso na semana anterior sem intenção alguma de fazer o exame supletivo. Duzentas mil se inscreveram na primeira apresentação da novela educativa Aprender a Empreender, do Sebrae. Os jornaleiros estão cheios de revistas, livros, apostilas e CDs que ensinam a fazer coisas ou a preparar-se para concursos.

Existem hoje 30 milhões de voluntários no Brasil. Mais da metade pode estar em programas de educação. A filantropia brasileira já gasta mais de 5 bilhões. Se cautelosamente supusermos que 50% desse valor é gasto em programas de educação, é mais um naco grande de recursos não contemplados pelo Credit Suisse.

Os governos federal, estaduais e municipais (além das secretarias de Educação) contratam cursos de quase tudo. Os professores fazem milhares deles por ano. O Planfor – financiado pelo Fundo de Amparo ao Trabalhador – capacita anualmente mais de 300.000 pessoas.

Há o setor informal de educação e treinamento. Um passeio pelo centro das grandes cidades, olhando para os sobrados, vai mostrar um número extraordinário de cursos que ensinam computação, inglês (além dos 800.000 matriculados em programas de grifes conhecidas), secretariado, preparação para concursos e outros assuntos. Faz algum tempo, a Unesco contou de 2.000 a 3.000 em cada capital latino-americana. Perante a lei, isso não existe nem entra nas estatísticas.

Pelo censo, há 60 milhões de brasileiros estudando no sistema formal. Mas o que foi citado acima soma muitos milhões a esse número. A formação continuada, pregada pela Unesco, realmente existe, só que meio clandestina. Trata-se de algo invisível e não contabilizado, em parte, remendando um ensino acadêmico ainda muito deficiente. Não é o ideal. Seria melhor não precisar dessa cacofonia de esforços. Mas essa miríade de iniciativas é uma forma de compensar as fraquezas de nossa escola. Quem sabe não estamos subestimando o real nível de educação de nosso povo?

 

Claudio de Moura Castro é economista
(claudiomc@attglobal.net)


 
 
   
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