Edição 1 645 -19/4/2000

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Terror chocho

Polanski tropeça no gênero do
qual já foi um expoente

Isabela Boscov

Divulgação
Johnny Depp: às voltas com o demônio
em O Último Portal


O que não falta a Roman Polanski é intimidade com o trágico e o sinistro. Polonês de origem judaica, ele se safou de ser morto pelos nazistas, mas perdeu a mãe. Em 1969, sua mulher, a atriz Sharon Tate, que estava grávida, foi assassinada pelo maníaco Charles Manson. Poucos anos depois, Polanski foi proibido de pisar nos Estados Unidos, acusado de fazer sexo com uma menina de 13 anos. Sempre foi celebrado também como o diretor de filmes tensos e aterradores, como O Bebê de Rosemary e O Inquilino — o último verdadeiramente notável de sua carreira. É alarmante constatar que faz 24 anos que ele foi lançado. No território do horror, restou a Polanski tentar imitar a si próprio, como demonstra O Último Portal (The Ninth Gate, França/Espanha/Estados Unidos, 1999), que estréia nesta sexta-feira em circuito nacional. Os ingredientes de praxe estão todos lá. O ator Johnny Depp interpreta Dean Corso, um especialista em livros raros. Um milionário o contrata para autenticar um volume que, diz-se, é capaz de conjurar o capeta. Pessoas estranhas surgem à volta de Dean, como a figura vivida por Emmanuelle Seigner, mulher do diretor. Outras tantas morrem. Tudo frio e mecânico, sem alma. O diretor é um caso raro de artista que perdeu a inspiração ao ganhar uma musa. Enquanto não parar de fazer filmes para exibir as curvas da mulher, Polanski não vai meter medo em ninguém.