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Roberto
Pompeu de Toledo
Um
legendário quarteto e sua contribuição
O
que Otto, Paulo Mendes Campos,
Pellegrino e Sabino fizeram pela
literatura, por Minas e
pelo Rio
Quando o Gordo, da dupla "o Gordo e o Magro", morreu, Paulo Mendes Campos
escreveu que se sentia feliz por não lhe caber a tarefa mais ingrata
do dia: "levar ao Magro a notícia da morte do Gordo". Quando Otto
Lara Resende morreu, em dezembro de 1992 faz agora dez anos ,
feliz de quem estivesse livre de tarefa igualmente ingrata: levar a Fernando
Sabino a notícia da morte do Otto. Antes morrera Hélio Pellegrino,
mas para chorá-lo ainda havia os outros três Sabino,
Otto e Paulo Mendes Campos. Em seguida morreu Paulo Mendes Campos
e, vá lá, ainda sobravam, para consolar-se mutuamente, Otto
e Sabino. Quando Otto morreu, Sabino ficou só. "Os quatro mineiros"
ou os "quatro mineiros do Apocalipse", para citar dois dos muitos epítetos
que o quarteto inspirou, não formavam mais um quarteto de quatro.
Eram um quarteto de um.
Hélio Pellegrino, Otto, Paulo Mendes Campos e Sabino formam o mais
famoso bloco, ou conjunto, ou grupo, ou turma, da literatura brasileira.
Como nas famosas formações do futebol (Dorval, Mengálvio,
Coutinho, Pelé e Pepe), o nome de um puxa o do outro. Quartetos
existem em música quartetos vocais, quartetos de corda...
Em literatura, menos. Às vezes mencionam-se duplas Mário
e Oswald de Andrade, por exemplo. Eis uma dupla dessintonizada: eram brigados.
Já os quatro mineiros não constituem um quarteto só
por serem os quatro escritores, da mesma geração e da mesma
terra. Uniu-os uma amizade estreita, íntima, carnal, que começou
na infância em alguns casos (Pellegrino e Sabino), no máximo
na adolescência em outros (Sabino e Paulo Mendes Campos) e atravessou
a vida. Agora, o "sobrevivente" Sabino lança um livro (Cartas
na Mesa, Editora Record) em que reúne a correspondência
que enviou aos outros três. Ao mesmo tempo, o Instituto Moreira
Salles abre ao público, organizado e classificado, o arquivo literário
de Otto Lara Resende. O quarteto, e a amizade que o uniu, começa
a passar para a história.
Devem-se aos quatro mineiros contribuições que ultrapassam
o que pretendiam na vida. Apesar da beleza trágica de O Braço
Direito, de Otto Lara Resende, e do importante testemunho de uma geração
que é O Encontro Marcado, de Fernando Sabino, nenhum deles
escreveu um grande livro. No entanto, nem Guimarães Rosa, que escreveu
um grande livro, exerceu tanta atração e tanta influência
sobre os jovens, lá pelos anos 60. Pelo muito que escreviam nos
jornais e revistas, assim como pelo muito que agitavam no mundo literário
e pelo muito que se falava deles, criaram uma aura de charme em torno
da literatura que despertou entusiasmos e estimulou vocações.
Isso vale em especial para Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino, que,
com o capixaba Rubem Braga, formavam um imbatível trio de cronistas
na revista campeã de vendas da época, Manchete.
O quarteto, entre muitas outras coisas que fez em comum, trocou Belo Horizonte
pelo Rio de Janeiro e, tanto quanto tinham sido marcados pela mineirice,
agora seriam tocados pela carioquice. O resultado é que nunca se
viram cariocas mais mineiros, nem mineiros mais cariocas. Daí decorre
outro legado do grupo: sua contribuição para a consolidação
da idéia que se tem de Minas, assim como da que se tem do Rio de
Janeiro. Não que tenham inventado Minas. Quem inventou Minas foi
Carlos Drummond de Andrade. E inventou-a, numa experiência que coincide
com a do quarteto, justamente ao perdê-la ("Minas não há
mais", escreveu; e ainda: "Itabira é apenas uma fotografia na parede").
Também não inventaram o Rio de Janeiro. Quem o inventou
foi Noel Rosa. E se não foi Noel foi alguém do mesmo naipe,
e da mesma época. (Com certeza não foi Machado de Assis.
O Rio de Machado não era carioca. Até a palavra "carioca"
não constava de seu vocabulário. Carioca, para ele, era
"fluminense".)
Se ao leitor soa estranha esta conversa de "inventar" Minas e "inventar"
o Rio, considere o seguinte: que era uma pedra, antes de ser chamada "pedra"?
Ou, para ser mais poético: que era a aurora, antes de ser chamada
"aurora"? Nem a pedra era pedra, nem a aurora, por mais que raiasse, era
aurora, porque, não havendo palavra para nomeá-las, não
tinham lugar no repertório de conceitos que habita a mente. Igualmente,
o espírito de uma cidade, como o Rio, ou o de uma província,
como Minas, podem até ser anteriores ao poeta ou ao cronista que
os capta, mas, enquanto não ocorre esse momento de resgate da escuridão,
que é a verbalização, é como se não
existissem. Para abreviar esta papagaiada toda, e tornar as coisas mais
claras: lá a Bahia existiria, sem Jorge Amado e Dorival Caymmi?
Nem o leitor que com mais reservas vem acompanhando o tortuoso desenvolvimento
destas linhas duvidará que a Bahia é obra a quatro mãos
do autor de Gabriela e do compositor de O que É que a
Baiana Tem?. Pois ao quarteto de que Fernando Sabino é o sobrevivente
se deve boa parte do fato de Minas ser Minas mesmo, daquele jeito que
só Minas, assim como o Rio revestir-se de um carioquismo que só
o Rio e mais lugar algum.
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