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Edição 1 782 - 18 de dezembro de 2002
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Roberto Pompeu de Toledo

Um legendário quarteto e sua contribuição

O que Otto, Paulo Mendes Campos,
Pellegrino e Sabino fizeram pela
literatura, por Minas
e pelo Rio

Quando o Gordo, da dupla "o Gordo e o Magro", morreu, Paulo Mendes Campos escreveu que se sentia feliz por não lhe caber a tarefa mais ingrata do dia: "levar ao Magro a notícia da morte do Gordo". Quando Otto Lara Resende morreu, em dezembro de 1992 – faz agora dez anos –, feliz de quem estivesse livre de tarefa igualmente ingrata: levar a Fernando Sabino a notícia da morte do Otto. Antes morrera Hélio Pellegrino, mas para chorá-lo ainda havia os outros três – Sabino, Otto e Paulo Mendes Campos. Em seguida morreu Paulo Mendes Campos – e, vá lá, ainda sobravam, para consolar-se mutuamente, Otto e Sabino. Quando Otto morreu, Sabino ficou só. "Os quatro mineiros" ou os "quatro mineiros do Apocalipse", para citar dois dos muitos epítetos que o quarteto inspirou, não formavam mais um quarteto de quatro. Eram um quarteto de um.

Hélio Pellegrino, Otto, Paulo Mendes Campos e Sabino formam o mais famoso bloco, ou conjunto, ou grupo, ou turma, da literatura brasileira. Como nas famosas formações do futebol (Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe), o nome de um puxa o do outro. Quartetos existem em música – quartetos vocais, quartetos de corda... Em literatura, menos. Às vezes mencionam-se duplas – Mário e Oswald de Andrade, por exemplo. Eis uma dupla dessintonizada: eram brigados. Já os quatro mineiros não constituem um quarteto só por serem os quatro escritores, da mesma geração e da mesma terra. Uniu-os uma amizade estreita, íntima, carnal, que começou na infância em alguns casos (Pellegrino e Sabino), no máximo na adolescência em outros (Sabino e Paulo Mendes Campos) e atravessou a vida. Agora, o "sobrevivente" Sabino lança um livro (Cartas na Mesa, Editora Record) em que reúne a correspondência que enviou aos outros três. Ao mesmo tempo, o Instituto Moreira Salles abre ao público, organizado e classificado, o arquivo literário de Otto Lara Resende. O quarteto, e a amizade que o uniu, começa a passar para a história.

Devem-se aos quatro mineiros contribuições que ultrapassam o que pretendiam na vida. Apesar da beleza trágica de O Braço Direito, de Otto Lara Resende, e do importante testemunho de uma geração que é O Encontro Marcado, de Fernando Sabino, nenhum deles escreveu um grande livro. No entanto, nem Guimarães Rosa, que escreveu um grande livro, exerceu tanta atração e tanta influência sobre os jovens, lá pelos anos 60. Pelo muito que escreviam nos jornais e revistas, assim como pelo muito que agitavam no mundo literário e pelo muito que se falava deles, criaram uma aura de charme em torno da literatura que despertou entusiasmos e estimulou vocações. Isso vale em especial para Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino, que, com o capixaba Rubem Braga, formavam um imbatível trio de cronistas na revista campeã de vendas da época, Manchete.

O quarteto, entre muitas outras coisas que fez em comum, trocou Belo Horizonte pelo Rio de Janeiro – e, tanto quanto tinham sido marcados pela mineirice, agora seriam tocados pela carioquice. O resultado é que nunca se viram cariocas mais mineiros, nem mineiros mais cariocas. Daí decorre outro legado do grupo: sua contribuição para a consolidação da idéia que se tem de Minas, assim como da que se tem do Rio de Janeiro. Não que tenham inventado Minas. Quem inventou Minas foi Carlos Drummond de Andrade. E inventou-a, numa experiência que coincide com a do quarteto, justamente ao perdê-la ("Minas não há mais", escreveu; e ainda: "Itabira é apenas uma fotografia na parede"). Também não inventaram o Rio de Janeiro. Quem o inventou foi Noel Rosa. E se não foi Noel foi alguém do mesmo naipe, e da mesma época. (Com certeza não foi Machado de Assis. O Rio de Machado não era carioca. Até a palavra "carioca" não constava de seu vocabulário. Carioca, para ele, era "fluminense".)

Se ao leitor soa estranha esta conversa de "inventar" Minas e "inventar" o Rio, considere o seguinte: que era uma pedra, antes de ser chamada "pedra"? Ou, para ser mais poético: que era a aurora, antes de ser chamada "aurora"? Nem a pedra era pedra, nem a aurora, por mais que raiasse, era aurora, porque, não havendo palavra para nomeá-las, não tinham lugar no repertório de conceitos que habita a mente. Igualmente, o espírito de uma cidade, como o Rio, ou o de uma província, como Minas, podem até ser anteriores ao poeta ou ao cronista que os capta, mas, enquanto não ocorre esse momento de resgate da escuridão, que é a verbalização, é como se não existissem. Para abreviar esta papagaiada toda, e tornar as coisas mais claras: lá a Bahia existiria, sem Jorge Amado e Dorival Caymmi? Nem o leitor que com mais reservas vem acompanhando o tortuoso desenvolvimento destas linhas duvidará que a Bahia é obra a quatro mãos do autor de Gabriela e do compositor de O que É que a Baiana Tem?. Pois ao quarteto de que Fernando Sabino é o sobrevivente se deve boa parte do fato de Minas ser Minas mesmo, daquele jeito que só Minas, assim como o Rio revestir-se de um carioquismo que só o Rio e mais lugar algum.

   
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