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Justiça
na mira
Surgem indícios de que o
narcotráfico se infiltrou até
nos tribunais superiores do país
Policarpo
Junior
Walter Alves/O Popular/AE
 |
| Em
Goiânia, policiais da Operação Diamante |
No
submundo do crime, o pior que se pode esperar é o momento em que
quadrilhas organizadas conseguem se infiltrar no aparelho estatal. Suspeita-se
que isso tenha acontecido no Espírito Santo, razão pela
qual o governo federal despachou para Vitória uma equipe encarregada
de examinar a situação do Estado. Existe a mesma desconfiança
no caso do Distrito Federal, onde caudalosas investigações
sugerem que uma máfia de grilagem de terra cravou uma estaca de
influência no governo local. Na semana passada, veio a público
um dado mais assustador: a suspeita de que narcotraficantes tenham conexões
em tribunais superiores de Brasília. No início da semana,
uma investigação da Polícia Federal, que durou três
anos, trouxe indícios de que o deputado Pinheiro Landim (PMDB-CE)
funcionava como corretor-chefe dos traficantes junto à Justiça,
cobrando por decisões que tiravam traficantes da prisão.
Seu interlocutor no Judiciário, diz a investigação,
era o desembargador Eustáquio Nunes Silveira, do Tribunal Regional
Federal (TRF), em Brasília, que, de acordo com o relatório
do Ministério Público, era responsável pela "articulação
dos atos de corrupção tendentes a beneficiar membros da
organização criminosa".
Dias depois, apareceram novas revelações ainda mais preocupantes.
O relatório, que está sendo mantido sob sigilo, informa
que outras personalidades graúdas do Judiciário podem estar
envolvidas no esquema. Uma delas é o ministro Vicente Leal, do
Superior Tribunal de Justiça (STJ). A outra é o desembargador
Fernando Tourinho Neto, do TRF, tribunal do qual já foi até
presidente. Ambos são apontados como autores de decisões
que beneficiaram traficantes. Decisões que, segundo a polícia,
foram previamente negociadas com os criminosos pelo deputado Pinheiro
Landim. O relatório foi enviado ao Supremo Tribunal Federal
a mais alta corte do país, encarregada agora de destrinchar o caso.
Se os indícios surgidos até agora forem comprovados, estará
criada uma situação terrivelmente inédita: será
a primeira vez na história que o crime organizado terá se
infiltrado nas esferas mais importantes do Poder Judiciário do
país, num escandaloso escambo de decisões destinadas a beneficiar
traficantes. "Se confirmadas, essas acusações configuram
um grave precedente. É preciso agir com rigor, o que o governo
está fazendo, antes que o narcotráfico contamine as instituições,
como aconteceu em outros países", diz o ministro da Justiça,
Paulo de Tarso Ribeiro. A Colômbia é um exemplo dessa ameaça.
Ali, o narcotráfico só se tornou um negócio gigante
ao se infiltrar no Estado.
A investigação que colheu esses indícios foi iniciada
há três anos com a chamada Operação Diamante.
O trabalho começou a desmantelar uma das maiores quadrilhas de
traficantes de drogas do país, com a prisão de 23 pessoas
na semana passada e a apreensão de aviões, carros, documentos
e dinheiro. No curso da investigação, com mais de 400 horas
de gravações de conversas telefônicas, grampeadas
com autorização judicial, apareceram os primeiros indícios
de que os traficantes saíam da cadeia sem precisar cavar um túnel.
Saíam pela porta da frente, por decisão da Justiça,
e pagavam caro em alguns casos, calculam os investigadores, o preço
podia chegar até a 1 milhão de reais. Sob escuta, os traficantes
conversavam entre si e, com freqüência, com o deputado Pinheiro
Landim. São conversas tão comprometedoras que, no relatório
sigiloso, os investigadores chegam a classificar o parlamentar "como membro
da organização criminosa responsável por estabelecer
o elo com o Poder Judiciário". Estão anexados ao relatório
diversos diálogos entre o deputado e o traficante Leonardo Dias
Mendonça, considerado o maior do país e preso na semana
passada.
Ana Araújo
 |
| Landim:
além dos tempos em que parlamentar só traficava influência
|
Em
alguns trechos dos telefonemas, a negociação é explícita.
No fim do ano passado, o traficante telefona ao deputado e reclama que
a ação um pedido de habeas-corpus estava demorando
demais. Com prisão decretada pela Justiça do Maranhão,
Leonardo Dias Mendonça era acusado de tráfico de cocaína.
Landim responde que a demora decorria da burocracia e pede calma ao traficante.
Em outro, o traficante não se dá por satisfeito e se mostra
preocupado, pois já adiantara o pagamento. É informado de
que o momento certo para entrar com a ação na Justiça
é janeiro o mês de um tal "reprodutor". O que se queria
dizer com isso só seria compreendido depois. Em janeiro, durante
o recesso judicial, o desembargador Fernando Tourinho Neto, então
presidente do Tribunal Regional Federal, relatou um pedido de habeas-corpus
em favor do traficante. A polícia suspeita que o codinome "reprodutor"
seja uma referência a "Tourinho", sobrenome do magistrado.
No Superior Tribunal de Justiça aconteceu uma história parecida.
O traficante também conseguiu revogar um pedido de prisão,
mas, antes de emitida a decisão, o deputado Pinheiro Landim antecipa
o que iria acontecer. Numa conversa monitorada, o criminoso, de novo,
se mostra irritado. Diz que "já mandou dois cinco zero" e, ao que
parecia, ia perder o que pagou, porque o voto do ministro-relator do caso
tinha sido contrário à revogação. Pinheiro
Landim procura tranqüilizar o traficante: "Quem faz, acompanha e
decide". Em outras conversas, o traficante é informado de que está
tudo certo com o "Carequinha", numa referência, suspeita a polícia,
à pronunciada calva do ministro Vicente Leal. O relator do processo,
ministro Fontes de Alencar, foi contrário à concessão
do habeas-corpus. Na seqüência do julgamento, o ministro Vicente
Leal pediu vistas do processo e defendeu a revogação da
prisão, tese que acabou vitoriosa. Em outro caso envolvendo o traficante,
Vicente Leal foi o único ministro do STJ a votar a favor do criminoso.
O relatório que mostra a infiltração do narcotráfico
no Judiciário tem mais de 3.000 páginas e está com
o procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro. Ele vai decidir
se pede novas investigações contra o deputado, o ministro
e os dois desembargadores ou se já oferece denúncia. Há,
entre as transcrições, uma conversa curiosa, reveladora
do estágio de inversão de valores provocada pela promiscuidade
entre autoridades e bandidos. Preso em Goiânia, o traficante Orlando
Marques dos Santos foi procurado pelo grupo que vendia decisões
judiciais. Ficou tão indignado com o preço cobrado para
conseguir a liberdade que desabafou com outro traficante: "Existe uma
máfia em Brasília". Marques ficou conhecido pelo hábito
de deixar a prisão para passear nos fins de semana em seu avião
particular na companhia do diretor do presídio. Na sexta-feira
passada, os suspeitos se manifestaram, negando envolvimento com o tráfico.
Em nota oficial, o desembargador Eustáquio Nunes Silveira diz que
nunca julgou nenhum processo de interesse do traficante Leonardo Dias
Mendonça.
Também em nota oficial, o desembargador Tourinho Neto disse que
"esse fato me é totalmente estranho, causando-me repulsa e indignação".
Ele esclarece, ainda, que o habeas-corpus concedido em favor do traficante
Leonardo Dias Mendonça, do qual era relator, foi aprovado por unanimidade
pelo tribunal. Vicente Leal, também através de uma nota,
afirma que recebe em seu gabinete todos os que o procuram. "O bom senso
indica que ninguém está livre de mentiras de lobistas, que
usam o nome alheio para vender seus serviços. Brasília é
a arena dos lobistas inescrupulosos", diz ele. Procurado por VEJA, o deputado
Pinheiro Landim, o único dos suspeitos cuja voz aparece nos telefonemas
grampeados pela polícia, não quis se manifestar. Nas conversas
de Landim, ouve-se até a discussão sobre valores. E, quando
o assunto é dinheiro, os traficantes são econômicos,
mas apenas nas palavras. Limitam-se a falar no envio de "dois cinco zero"
e, em outra ocasião, quando se discutia o destino de uma ação
no STJ, falam em "quatro zero zero". Em termos monetários, a polícia,
até agora, encontrou na casa do motorista do deputado Pinheiro
Landim, que já está preso, 150.000 reais em dinheiro
ou, no dialeto da quadrilha, "um cinco zero".
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