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Edição 1 782 - 18 de dezembro de 2002
Diogo Mainardi

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O novo rei do Congo

"Além de maracatu, a festa da posse
contará com outros espetáculos
folclóricos. O PT gosta de folclore.
Mussolini também gostava. E Hitler.
E Stalin. Folclore é
coisa de regimes
nacionalistas e totalitários"

Um dos coordenadores do PT disse que "a festa da posse terá a cara do governo Lula". Para saber o que irá acontecer nos próximos quatro anos, portanto, é muito mais útil estudar a origem do maracatu do que descobrir o nome do presidente do Banco Central. O PT teima com esse negócio de maracatu. Em seu programa de cultura, cita-o como exemplo daquilo que o novo governo saberá incentivar. Um incentivo que já se manifestará na festa da posse, com um espetáculo de maracatu na Esplanada dos Ministérios, saudando a passagem, em carro aberto, do glorioso presidente Lula. Como eu nunca tive a menor idéia do que fosse maracatu, achei melhor me informar.

Aparentemente, trata-se de uma dança pernambucana. Acompanhada de batuque. Copiei a letra de um tradicional maracatu: "Nagô Nagô / Nossa Rainha já se coroou / Nagô Nagô / A boneca é de seda / Seda e madeira". Ignoro o que seja essa boneca de seda e madeira. Quanto à rainha, representa a rainha do Congo. De fato, o maracatu é uma homenagem dos ex-escravos aos reis do Congo. Durante a festa, um caboclo se veste de rei, uma cabocla se veste de rainha, outros caboclos se vestem de legionários romanos (?), e todos eles saem pulando alegremente pelas ruas de Olinda. Deve ser muito bonito. Do ponto de vista histórico, porém, é o contrário do que o PT postula. O PT sempre falou em reforçar a cultura nacional, resistindo bravamente ao colonialismo americano. Os reis do Congo, que dominavam parte dos atuais Congo e Angola, comportaram-se de maneira oposta: no fim do século XV, assim que entraram em contato com os colonizadores portugueses, decidiram macaquear a cultura alienígena, convertendo-se imediatamente ao catolicismo e adotando nomes exóticos, como Afonso I. A partir daquele momento, dedicaram-se a um lucrativo comércio de escravos, capturando-os nas tribos vizinhas e vendendo-os aos brancos em troca de bens de luxo.

Além de maracatu, a festa da posse contará com outros espetáculos folclóricos. O PT gosta de folclore. Mussolini também gostava. E Hitler. E Stalin. Folclore é coisa de regimes nacionalistas e totalitários. Até hoje funciona assim. O líder carismático da extrema direita austríaca, Joerg Haider, sempre aparece nas festas populares de seu país tomando cerveja com trajes típicos. De certa forma, é o que fará Lula, transformando a festa da posse num grande desfile de maracatu. No maracatu, ex-escravos se fantasiam de rei e rainha do Congo. Em Brasília, o ex-operário Lula calçará seus sapatos J. Jacometti, fabricados em Franca especialmente para ele, com couro de cabra por fora e couro de carneiro por dentro, e desfilará pela Esplanada dos Ministérios num imperial Rolls-Royce conversível, aplaudido por centenas de milhares de pessoas, muitas das quais interessadas num dos 18.500 cargos de confiança do governo federal. Personalidades políticas do mundo inteiro prometem participar do evento, transmitido ao vivo por um pool de emissoras de TV. Com a apoteose de um show de música caipira. O governo do PT terá a cara de um desfile de maracatu. Eu já estou fantasiado de legionário romano. Pronto para saudar Lula, o novo rei do Congo.

 
 
   
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