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"Discuto economia com Lula e discutirei com todos os seus ministros. Tenho a vantagem de ser um curinga nessa história" |
Sem ter o nome incluído em nenhuma lista de ministeriáveis, Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, encontra-se no centro do poder. Amigo dileto e espécie de assistente espiritual de Luiz Inácio Lula da Silva há 22 anos, o escritor e frei dominicano recusa o título de guru do presidente eleito, mas admite ter com ele uma relação que o autoriza a oferecer ao petista de reprimendas a conselhos que não se limitam à área social, sua especialidade. Frei Betto afirma que dá e continuará dando conselhos de economia a Lula prática que agora pretende estender também à equipe do presidente eleito. "Falarei com todos os seus ministros", diz. Em entrevista a VEJA, o religioso criticou o presidente George W. Bush, o FMI, a Alca e o neoliberalismo. E falou sobre a fé e as tentações que a rondam.
Veja
Do ponto de vista religioso, como é o presidente eleito?
Frei Betto
Existem duas coisas que o Lula faz questão de tratar com muita
discrição: sua família e sua fé. Ele gosta
muito de orar. Todas as vezes em que o convidei para participar de uma
oração ou de uma celebração, ele nunca se
recusou. É devoto de São Francisco de Assis, de quem tem
várias imagens em casa, e, na intimidade, faz sempre o sinal-da-cruz
antes das refeições.
Veja
O senhor disse que gostaria de morar no Palácio da Alvorada,
como uma espécie de conselheiro espiritual do presidente e da primeira-dama...
Frei Betto Essa
notícia é falsa, e fiquei muito irritado com ela. Não
tenho nenhuma veleidade de querer morar em palácio e minha intimidade
com a família prescinde disso. Mas desde 1980 é assim. Sempre
houve tentativas de obstruir minha relação com o Lula. Inveja
e ciúme são sentimentos humanos. Mas acho ofensivo e desrespeitoso
quando dizem que sou guru do presidente. Ele não precisa de guru.
Somos amigos fraternos. Minha relação com ele é de
quem elogia, de quem critica, e vice-versa. Muitas vezes eu pego no pé
dele.
Veja
O senhor discute assuntos econômicos com ele também?
Frei Betto
Muito. E discutirei com todos os seus ministros. Eu tenho a vantagem de
ser um curinga nessa história. Não tenho ambições
políticas nem mesmo sou filiado ao PT.
Veja
O senhor já gritou "Fora FMI". Como vê a relação
do novo governo com o Fundo?
Frei Betto
Pelo que conheço da história do FMI, onde ele plantou sua
semente deixou um deserto de infertilidade social. Espero que, pela primeira
vez, não seja assim. Acho inevitável que o país cumpra
seus acordos, mas temo que o FMI não perceba que, agora, seu papel
é o de um parceiro, e não o de um gerenciador das ações
econômicas do governo.
Veja
O senhor já disse que a Alca é uma tentativa de
anexação dos Estados Unidos. Continua pensando assim?
Frei Betto
Nos moldes em que está, a Alca é, sim, a meu ver, uma tentativa
de anexação dos países da América Latina à
órbita da Casa Branca. A diferença é que, quando
disse isso, não havia nenhuma abertura para discutir alterações
no projeto. Felizmente, a conjuntura muda, e a minha avaliação
dela também. Hoje, sou a favor de uma renegociação
em que se consiga retirar todo o ranço imperialista e colonialista
que existe na proposta atual, até para que não aconteça
com a América Latina o que aconteceu com o México, depois
do Nafta.
Veja
Mas o México virou o oitavo exportador do mundo, tem
um dos menores índices de desemprego da América Latina e
o maior PIB, atualmente.
Frei Betto
O México pode ter melhorado seus índices econômicos,
mas não melhorou seus índices sociais. Eu me recuso a avaliar
o crescimento de um país por seus índices econômicos.
E o Nafta aumentou barbaramente a dependência do país em
relação aos Estados Unidos.
Veja
O senhor acredita que o Brasil possa sobreviver sem os Estados
Unidos?
Frei Betto
Não acredito. Mas também não acredito que devamos
nos ajoelhar diante do império da águia. Os Estados Unidos
têm de aprender que o mundo não é o quintal deles.
Acho que custa ao presidente Bush, a quem, em minhas palestras, eu chamo
de Búfalo Bush, entender aquilo que o profeta Isaías já
disse há 2.600 anos: "Só existirá
paz como filha da justiça". Eu não quero achar que isso
que está aí seja definitivo e que eu não possa mais
sonhar nem ter utopias porque as saídas talvez não estejam
tão próximas. Como cristão e conhecedor da história
da humanidade, posso dizer que os problemas que existiam naquela época
são mais ou menos os mesmos que temos agora. Durante séculos,
acreditou-se, por exemplo, que a escravidão era um fato consumado.
Mas a utopia nunca deixou de permear a história. Eu quero ajudar
a criar essa cultura que hoje é chamada de utópica. O neoliberalismo,
a partir do momento em que produziu a mercantilização do
planeta, fechou as portas da utopia.
Veja
Como assim?
Frei Betto O
neoliberalismo inverte a equação da economia clássica
que é pessoa-mercadoria-pessoa: eu, Betto, visto esta roupa para
facilitar a minha sociabilidade. Nessa situação, você
tem, nas duas pontas, a pessoa. Hoje, a equação mudou: é
mercadoria-pessoa-mercadoria. Se eu chego em sua casa de ônibus,
tenho um valor Z. Se eu chego de BMW, tenho um valor A. Eu sou a mesma
pessoa, mas a mercadoria que me reveste é que me imprime mais ou
menos valor. Um caso mais extremo: o jovem que, na companhia do irmão
e da namorada dele, ajudou a matar os pais da menina e, no dia seguinte,
comprou uma moto. Na cabeça dele, ter a moto, agregar a si esse
valor, é mais importante que a vida daquelas pessoas.
Veja
O senhor não está atribuindo ao neoliberalismo poderes
que ele não tem? Transformando-o numa espécie de entidade
do mal?
Frei Betto
Ele vira uma entidade do mal à medida que só tem um objetivo
obsessivo, que é o de ampliar o consumismo. Ou seja, tudo é
o mercado. É como se o mercado morasse num palácio, no alto
de uma montanha, tivesse o telefone de alguns comentaristas econômicos
e ligasse todas as manhãs, dizendo: "Hoje não estou de bom
humor". Ou então: "Hoje acordei bem". É essa cultura consumista
que, do ponto de vista filosófico, eu qualifico de neoliberal.
O neoliberalismo não é só um fenômento econômico.
É uma filosofia de vida. E a TV aberta contribui para disseminar
essa filosofia.
Veja
Por quê?
Frei Betto
A TV é uma concessão pública cedida a certas famílias
que, até onde eu sei, não revertem nenhuma porcentagem da
fortuna que arrecadam com a publicidade aos cofres públicos. E
nem o Estado, dada a concessão, se preocupa em manter um mínimo
de controle de qualidade sobre ela. O contribuinte brasileiro deve ter
acesso a um mecanismo que possibilite esse controle. A questão
é: queremos fazer dos nossos filhos cidadãos e a TV quer
fazer deles consumistas.
Veja
Como funcionaria esse mecanismo?
Frei Betto Temos
de exigir um código de ética da parte dos anunciantes e
das emissoras. Se você perguntasse a minha avó se uma relação
sexual deve ser mostrada ao vivo na TV, ela certamente ficaria muito escandalizada.
Hoje, a representação disso não só é
muito comum na TV como você assiste às pessoas falando o
tempo todo da intimidade. Eu acho que isso é um desserviço
à educação, à civilização, à
ética e aos valores. Da mesma forma que um produto, para ser lançado
no mercado, passa por uma série de entrevistas com consumidores
em potencial, penso que esse tipo de programa também deveria passar
por uma consulta a um grupo representativo da sociedade, que diria se
aquilo fere ou não os princípios de uma sociedade que nós
queremos construir. O Estado, que é o dono da televisão,
participaria desse grupo como mediador.
Veja
Poderão chamar a isso de censura.
Frei Betto
Aos que chamarem isso de censura, eu direi que, então, sejam coerentes
e não eduquem seus filhos, não ensinem a eles o que são
valores e o que é ética. Deixem que eles façam o
que bem entenderem. Se você for coerente e fizer isso, eu vou admitir
que você não concorde com o que chamo de controle de qualidade,
e não de censura.
Veja
É verdade que foi o senhor quem levou o papa a Cuba?
Frei Betto
Não foi bem assim. Durante doze anos, assessorei vários
governos socialistas em suas relações com a Igreja, na qualidade
de um religioso que entende bem o mundo do marxismo e que acreditava que
poderia haver uma relação harmoniosa entre a Igreja e o
Estado. Quando conheci Fidel Castro, em 1980, junto com o Lula, tivemos
uma conversa que começou às 2 da madrugada e terminou às
6 da manhã. Fiz a ele duas perguntas que o deixaram em estado de
perplexidade.
Veja
Quais foram?
Frei Betto
Perguntei: "Comandante, qual a relação do governo cubano
com a Igreja Católica em Cuba? E, antes que o senhor responda,
quero dizer que vejo três hipóteses para ela. A primeira:
de hostilidade, o que seria ótimo para a Casa Branca, porque confirma
que o socialismo é incompatível com a religião. A
segunda: de cooptação, que seria a negação
da modernidade, uma vez que o respeito às duas instituições
é uma conquista da modernidade. A terceira: de indiferença,
o que seria também ótimo para os cubanos que são
contra a revolução, porque eles têm a Igreja como
trincheira de sua postura contra-revolucionária". Ele disse: "Eu
nunca havia pensado nisso, você tem razão". E me pediu que
o ajudasse a melhorar a relação de Cuba com a Igreja Católica
o que acabou acontecendo e favorecendo a visita do papa.
Veja
E a segunda pergunta?
Frei Betto Disse
a ele: "Por que o partido e o Estado cubano são confessionais?".
Ele levou um susto: "Como confessionais?". Eu disse: "Sim, comandante,
a partir do momento em que o Estado é oficialmente ateu, ele é
confessional. Porque a confessionalidade não está apenas
na profissão da fé em Deus, mas na negação
dela também. E a conquista da modernidade é que o Estado
e o partido sejam laicos". Poucos anos depois, ele mudou a Constituição,
e hoje o Estado cubano é laico.
Veja
Então o senhor ajudou a mudar a Constituição de
Cuba?
Frei Betto
Mudei a Constituição e o estatuto do partido comunista cubano
também. Hoje um cristão pode pertencer aos quadros do partido.
Veja
Como frade dominicano, o senhor fez votos de pobreza e de castidade.
No aspecto material, impõe-se algum tipo de restrição?
Frei Betto
Voto de pobreza não é assim: "Eu não vou ter nada".
Significa, sobretudo, que meu compromisso de vida tem de ser sempre com
os mais pobres. Tenho o direito de ter tudo aquilo que é útil
para o meu trabalho, por exemplo. Também gosto de comer bem, tomo
meu vinho... Mas sei fazer isso com moderação, tanto que
não engordo.
Veja
E a tentação do sexo, do amor?
Frei Betto
Vi muitos padres constituir família porque primeiro se ligaram
a uma mulher, e não porque primeiro chegaram à conclusão
de que seu lugar não era a vida religiosa. Tenho certeza de que
muitos deles, se pudessem, dariam marcha a ré. Eu me sinto muito
feliz nos dominicanos, muito feliz como religioso. A vida tem mil possibilidades.
A gente tem de abraçar algumas e renunciar a outras.
Veja
Mas o senhor já sentiu medo de sucumbir a essas tentações?
Frei Betto
Nunca houve nada que me abalasse. Mas também tem o seguinte: eu
não brinco com as tentações.
Veja
Como assim?
Frei Betto
Não dou margem para certas coisas... Às vezes, não
por uma intenção de enamoramento, mas por uma intenção
de cuidado, há mulheres que, sabendo que a gente é solteiro,
celibatário, querem administrar a vida da gente... Eu tenho muito
cuidado com isso, não permito essas aproximações.
Sou cauteloso.
Veja
O poder o atrai?
Frei Betto
O poder, tal como é entendido hoje, é uma perversa maneira
de se comparar a Deus. E seduz porque reduz a distância entre o
desejável e o possível. No meu caso, talvez pela minha espiritualidade
e pela minha experiência na prisão, desenvolvi um grande
despojamento diante da vida. Então, minha ambição
não é de ter poder, mas de servir. Depois, tenho um talento
que independe de emprego, que é a minha escrita. Sou um autor brasileiro
muito traduzido no exterior e só não vendo mais porque me
recuso a atender a convites para aparecer na televisão.
Veja
Por que o senhor os recusa?
Frei Betto
O principal motivo é que, se aceitasse todos os convites que me
fazem, poderia virar alvo de um grande assédio público.
E, talvez por saber quão vaidoso sou interiormente, evito coisas
que possam alimentar essa tentação. Sou feito de barro e
sopro como todo mundo.
Veja
Em suas palestras, o senhor costuma dizer que acredita na existência
de vida inteligente fora da Terra. Com base em que o senhor afirma isso?
Frei Betto
Acredito piamente. Não só acredito como vi duas vezes discos
voadores. A primeira vez, eu estava saindo da feira com minha mãe,
em Belo Horizonte, e vi um disco na forma de um pastel luminoso cobrir
um posto de gasolina. Minha mãe viu e eu vi. A segunda vez foi
aos 13 anos, também em Belo Horizonte, no centro da cidade, e eu
vi um aglomerado de pessoas olhando para o céu, e lá tinha
um disco preto parado e, de repente, o disco passou a subir, subir, até
sumir. Somos um planeta periférico situado em uma dos 100 bilhões
de galáxias que existem no Universo. Não posso imaginar
que, tendo sido semeadas tantas estrelas, apenas num pequeno planeta a
vida tenha vingado.
Veja
Mas foi esse planeta periférico que Cristo escolheu para vir...
Frei Betto
Não sei como, mas o mistério da salvação deve
ter se dado também em outros planetas.
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