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Gustavo
Franco
O
pior emprego
do mundo
"O
alto funcionário público, normalmente,
coleciona desafetos em razão do contingente
de descontentes e desatendidos. Se ele é
popular, alguma coisa está errada"
Ilustração Ale Setti
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As posses festivas, com ares de entrega de prêmio, merecendo destaque
na imprensa, podem dar uma impressão errada aos novos ministros,
secretários e dirigentes de empresas públicas. Terminadas
as homenagens verifica-se que as condições de trabalho são
precárias, o salário é ruim com as exceções
de praxe, difíceis de explicar e a carga de trabalho, massacrante.
Quem passou pelo serviço público sabe que são mínimos
o tempo e o desprendimento para o sujeito pensar em novas e criativas
maneiras de reinventar o Brasil. A rotina compõe-se de incêndios
e desastres. Joga-se na retranca na maior parte do tempo, e, quando se
tem a iniciativa, nunca é possível agradar de forma unânime.
De vinte decisões diárias, dezoito são respostas
negativas porque não há dinheiro. O alto funcionário
público, normalmente, coleciona desafetos em razão do contingente
de descontentes e desatendidos. Se ele é popular, alguma coisa
está errada.
De muitas maneiras, o emprego de alto funcionário público
é um sacerdócio, porém pior, pois é exercido
sob os olhares atentos da imprensa. O cidadão comum, tornado autoridade,
transforma-se, do dia para a noite, numa espécie de âncora
de noticiário. Não deve gaguejar, improvisar nem correr
riscos em temas polêmicos. Não pode mais andar sem camisa
no calçadão, dançar nas festas, tomar umas e outras,
xingar o motorista do carro que lhe dá uma fechada nem escapar
dos chatos alugadores nos aeroportos. Cedo se aprende que tudo na pessoa
pública é deliberado e que sua identidade é totalmente
artificial e preparada para os fotógrafos. Não é
falsidade, mas precaução. A patrulha é imensa e impiedosa.
O sujeito definitivamente não pode tomar um gole de um Borgonha
de 5.000 dólares, oferecido por um amigo. Receber presentes, com
efeito, está a um passo da vilania: qual o valor máximo
a partir do qual entramos no terreno da corrupção?
Muitas estatais reúnem sua diretoria, no fim do ano, para estabelecer
o valor máximo de um presente de Natal. Já vi casos em que
era permitida a garrafa de uísque, mas não a de doze anos,
presente que teria de ser devolvido. Se essa fosse a distância entre
a corrupção e a virtude, dizia um burocrata amigo, estaríamos
perdidos.
O alto funcionário não pode chegar a Brasília com
uma mala Louis Vuitton, pois sempre haverá um engraçadinho
a dizer que o adereço é incompatível com a função,
nem ficar parado na rua com a mala, pois os fotógrafos vão
trazer uma criança carente para posar a seu lado de mão
estendida. Como reagir? Doar a mala para o Comunidade Solidária,
aliás, para o Fome Zero? Fingir-se indiferente ou indignado?
São tantas as armadilhas que o sujeito não pensa no que
é razoável, no vestir, usar e falar, mas sim no que o pior
tipo de gente vai dizer. A malícia é uma indústria
colossal, tal como revelada pelo consumo de notinhas venenosas. A vítima
se acostuma a ler apenas os piores veículos exclusivamente para
ver o tipo de lama que lhe atiram a cada dia. É difícil
aferir o tempo desperdiçado na defesa dessas ferroadas. A irritação
acaba instigando as pessoas a atacar de volta, sempre imaginando o beneficiado
pela intriga, para o regozijo da indústria da fofoca.
O alto funcionário vai contrariar interesses, e parlamentares representam
interesses, e por causa disso vão desancá-lo da tribuna,
ou vão requerer CPIs ou auditorias do Tribunal de Contas. O alto
funcionário vai ser processado, não uma mas várias
vezes, pois infelizmente o Judiciário não consegue filtrar
a litigância de má-fé, vale dizer, as ações
de motivação unicamente política, ou com o propósito
de denegrir. O funcionário logo aprende a sentir-se processado
continuamente, e compulsivamente guarda tudo, cópias de todos os
papéis, despachos, pareceres, notas, e não diz nada, nem
assina coisa alguma sem consultar um procurador.
Para quem genuinamente ama o Brasil, e quer melhorar as coisas, tudo isso
acaba perdendo importância. Mas o fato é que, como país,
não devíamos tratar tão mal as pessoas nas funções
públicas.
Gustavo Franco
é economista da PUC-RJ e
ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com
- www.gfranco.com.br)
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