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Edição 1 782 - 18 de dezembro de 2002
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Gustavo Franco

O pior emprego
do mundo

"O alto funcionário público, normalmente,
coleciona desafetos em razão do contingente
de descontentes e desatendidos. Se ele é
popular, alguma coisa está errada"


Ilustração Ale Setti


As posses festivas, com ares de entrega de prêmio, merecendo destaque na imprensa, podem dar uma impressão errada aos novos ministros, secretários e dirigentes de empresas públicas. Terminadas as homenagens verifica-se que as condições de trabalho são precárias, o salário é ruim – com as exceções de praxe, difíceis de explicar – e a carga de trabalho, massacrante.

Quem passou pelo serviço público sabe que são mínimos o tempo e o desprendimento para o sujeito pensar em novas e criativas maneiras de reinventar o Brasil. A rotina compõe-se de incêndios e desastres. Joga-se na retranca na maior parte do tempo, e, quando se tem a iniciativa, nunca é possível agradar de forma unânime. De vinte decisões diárias, dezoito são respostas negativas porque não há dinheiro. O alto funcionário público, normalmente, coleciona desafetos em razão do contingente de descontentes e desatendidos. Se ele é popular, alguma coisa está errada.

De muitas maneiras, o emprego de alto funcionário público é um sacerdócio, porém pior, pois é exercido sob os olhares atentos da imprensa. O cidadão comum, tornado autoridade, transforma-se, do dia para a noite, numa espécie de âncora de noticiário. Não deve gaguejar, improvisar nem correr riscos em temas polêmicos. Não pode mais andar sem camisa no calçadão, dançar nas festas, tomar umas e outras, xingar o motorista do carro que lhe dá uma fechada nem escapar dos chatos alugadores nos aeroportos. Cedo se aprende que tudo na pessoa pública é deliberado e que sua identidade é totalmente artificial e preparada para os fotógrafos. Não é falsidade, mas precaução. A patrulha é imensa e impiedosa. O sujeito definitivamente não pode tomar um gole de um Borgonha de 5.000 dólares, oferecido por um amigo. Receber presentes, com efeito, está a um passo da vilania: qual o valor máximo a partir do qual entramos no terreno da corrupção?

Muitas estatais reúnem sua diretoria, no fim do ano, para estabelecer o valor máximo de um presente de Natal. Já vi casos em que era permitida a garrafa de uísque, mas não a de doze anos, presente que teria de ser devolvido. Se essa fosse a distância entre a corrupção e a virtude, dizia um burocrata amigo, estaríamos perdidos.

O alto funcionário não pode chegar a Brasília com uma mala Louis Vuitton, pois sempre haverá um engraçadinho a dizer que o adereço é incompatível com a função, nem ficar parado na rua com a mala, pois os fotógrafos vão trazer uma criança carente para posar a seu lado de mão estendida. Como reagir? Doar a mala para o Comunidade Solidária, aliás, para o Fome Zero? Fingir-se indiferente ou indignado?

São tantas as armadilhas que o sujeito não pensa no que é razoável, no vestir, usar e falar, mas sim no que o pior tipo de gente vai dizer. A malícia é uma indústria colossal, tal como revelada pelo consumo de notinhas venenosas. A vítima se acostuma a ler apenas os piores veículos exclusivamente para ver o tipo de lama que lhe atiram a cada dia. É difícil aferir o tempo desperdiçado na defesa dessas ferroadas. A irritação acaba instigando as pessoas a atacar de volta, sempre imaginando o beneficiado pela intriga, para o regozijo da indústria da fofoca.

O alto funcionário vai contrariar interesses, e parlamentares representam interesses, e por causa disso vão desancá-lo da tribuna, ou vão requerer CPIs ou auditorias do Tribunal de Contas. O alto funcionário vai ser processado, não uma mas várias vezes, pois infelizmente o Judiciário não consegue filtrar a litigância de má-fé, vale dizer, as ações de motivação unicamente política, ou com o propósito de denegrir. O funcionário logo aprende a sentir-se processado continuamente, e compulsivamente guarda tudo, cópias de todos os papéis, despachos, pareceres, notas, e não diz nada, nem assina coisa alguma sem consultar um procurador.

Para quem genuinamente ama o Brasil, e quer melhorar as coisas, tudo isso acaba perdendo importância. Mas o fato é que, como país, não devíamos tratar tão mal as pessoas nas funções públicas.


Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e
ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com - www.gfranco.com.br)


 
 
   
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