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A campanha eletrônica teve grande audiência nos primeiros
dias e mexeu muito com as intenções de voto. Mas não
produziu, ainda, consolidação de posições.
Só Lula tem posição mais firme, embora ela não
autorize, hoje, imaginar que ele esteja à beira de uma vitória
no primeiro turno.
Um dado importante, pouco considerado nas análises das intenções de voto para presidente, são as menções espontâneas. O destaque é para o resultado estimulado, que lista os candidatos. Na espontânea, mede-se o grau de fixação do nome preferido na memória das pessoas. Indica melhor a proporção real de indecisos, em torno de 40%, e quanto das preferências é firme, a ponto de prescindir da apresentação do nome do candidato para que o entrevistado o aponte como opção.
As menções espontâneas captadas pelo instituto Datafolha dão Lula com 29%, Serra com 11%, Ciro com 10% e Garotinho com 7%. O Ibope não difere muito: Lula 30%, Serra 12%, Ciro 11%, Garotinho 7%. E mesmo essa manifestação espontânea é volátil. Ciro, por exemplo, chegou a ter 18%.
O número de indecisos está caindo devagar. Como os programas eleitorais já perderam audiência pelo Datafolha, ela caiu pela metade , as intenções de voto talvez só definam a trajetória decisiva do primeiro turno na reta final, quando aumentar, novamente, o interesse pela propaganda eleitoral. Certamente, esses indecisos não reproduzirão as preferências já registradas pela pesquisa. Ao contrário, serão determinantes do resultado final.
Quando se examinam as pesquisas, o que se vê é que há dois campos definidos de preferência eleitoral. Um dominado por Lula, no qual predomina absolutamente seu eleitorado fiel. Outro até agora disputado por Serra e Ciro, no qual se concentra o eleitor que elegeu Fernando Henrique ou que não vê em Lula uma opção aceitável.
Tanto o alto grau de indecisão quanto essa "embolação" entre Serra e Ciro revelam campanhas indiferenciadas. A não ser pelos confrontos pessoais, as agendas dos candidatos se tornaram tão parecidas que a opinião pública gravita entre eles, incapaz de escolher entre plataformas políticas, na aparência, iguais.
Mas não são iguais. Lula, Serra e Ciro expressam recortes distintos do universo político, da trama de interesses presentes na sociedade brasileira e da matriz de forças políticas nela ativas. Mas optaram por promover uma tal convergência de idéias que as diferenças programáticas entre eles estão embaçadas e as fronteiras entre situação e oposição, sistema e anti-sistema, quase invisíveis. Todos se apresentam como paladinos da geração de empregos, decididos comandantes federais da luta contra o crime organizado, determinados redutores da vulnerabilidade externa do país, criando condições para a queda dos juros.
Essa similitude de agendas faz a campanha resvalar para o confronto pessoal. De verdade, cada um faria um governo distinto e assentado em uma correlação de forças diferente. São alternativas reais. Mas não estão se retratando dessa forma para o eleitor.
Parte dessa indiferenciação se deve ao fato de que a agenda dos candidatos é montada interativamente, com forte participação da opinião pública via pesquisas de opinião e atitudes e da mídia. Todas as pesquisas e o grosso do noticiário nacional indicam, de fato, desemprego e segurança pública como os principais problemas do país. Parte da convergência é para esconder algumas posições mesmo.
Os candidatos não estão levando em conta o que a maioria considera patrimônio intocável: a estabilidade, monetária e política, e a governabilidade. Os ataques recentes de aliados de Ciro Gomes à democracia desrespeitam o sacrifício republicano de várias gerações de brasileiros para que reconquistássemos as liberdades cívicas. Lula deveria lembrar-se mais dos generais-presidentes como usurpadores da cadeira presidencial que ele tanto anseia e não tanto pela política de privilégios à indústria nacional que implantaram. Afinal, é só porque temos democracia que todos podem apresentar-se desabridamente ao povo como postulantes à Presidência. Serra deveria abrigar melhor em sua propaganda as conquistas recentes e defendê-las da desvalorização em campanha. É natural que a oposição desvalorize o que já foi alcançado. Mas, se nada valeu, não há por que não eleger aquele que sempre foi contra tudo isso que está aí.
Suspeito que boa parte do Brasil ande esperando que os candidatos lhe mostrem suas verdadeiras caras para definir em qual delas votar.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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