Quando
menos é melhor
Ilustração
Pepe Casals
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Todo mundo já comentou as cifras do IBGE sobre o desempenho
socioeconômico do Brasil na última década.
O dado mais evidente é que o Nordeste continua lá
atrás. O motivo desse atraso é o excesso de
representatividade. Como se sabe, os nordestinos elegem, proporcionalmente,
mais parlamentares do que os habitantes dos Estados mais ricos.
Isso significa que, quanto maior é o poder político
que eles têm, maior a miséria. Basta pensar que,
dos três Estados mais miseráveis do país,
dois tiveram presidentes em tempos recentes, Alagoas e Maranhão.
Só o coitado do Piauí ficou de fora. Se o Nordeste
diminuir espontaneamente seu número de parlamentares,
terá alguma chance concreta de diminuir a desnutrição,
o analfabetismo, a mortalidade infantil.
Esse discurso, aliás, pode ser estendido a todas
as esferas da vida nacional. Somos incapazes de lidar com
os grandes números, com a fartura, com a abundância.
Quanto mais, pior. Como foi que afundaram a CPI da corrupção?
Criando mais três CPIs. Outro exemplo: os gastos com
a polícia crescem todos os anos, mas a taxa de criminalidade,
ao invés de cair, aumenta, graças à
zelosa contribuição dos próprios policiais.
Com o café acontece a mesma coisa: o governo compra
sem parar; o preço, porém, continua a despencar
no mercado mundial. E a reforma agrária? Quanto mais
assentamentos conseguem fazer, mais assíduas se tornam
as invasões de terra do MST. Do mesmo modo, concedem-se
bilhões e bilhões de reais à indústria
da área de informática e o resultado é
um atraso cada vez maior nesse setor. Instalamos a maior
plataforma petrolífera do planeta? Ela afunda. Construímos
a maior usina hidrelétrica do universo? Toca-nos
racionar energia.
O campo da cultura não está imune a essa lógica
perversa. Cresce a concorrência entre os canais de
TV, mas a qualidade dos programas, se possível, piora
a cada dia que passa. Os cineastas brasileiros enchem a
barriga com subsídios de maneira inversamente proporcional
ao interesse dos espectadores por seus filmes. Nossas editoras
aumentam os títulos publicados, mas as tiragens ficam
sempre menores. Agora o Museu Guggenheim decidiu expandir
suas atividades no Brasil. Vai abrir não um, mas
quatro museus. Em pujantes centros internacionais de arte
contemporânea, como Rio de Janeiro, Curitiba, Salvador
e Recife. Não sei como pretendem ocupar tantos espaços.
Espero que tragam muita gente de fora. Do nosso lado, temos
artistas para preencher, no máximo, uns 40 metros
quadrados. A multiplicação dos museus será
danosa para a nossa arte, pois revelará a exigüidade
do talento nacional. Sugiro que façam como no museu
hebraico de Berlim: um imenso edifício vazio, cheio
de escadas, corredores e salas desertas, que mostrem, com
o seu silêncio atônito, a aridez de nossa cultura.
Menos museus, portanto. Essa é a saída para
tudo no Brasil: diminuir, subtrair, eliminar. Menos governo,
menos idéias, menos fábricas, menos prédios,
menos batucada, menos ênfase, menos torcida. Quanto
menos, melhor. Deveria ser o nosso lema. Deveria substituir
"Ordem e Progresso" na bandeira verde e amarela.