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O triângulo fugidio
Os países que fizeram
o casamento
entre a democracia política
e a economia de mercado alcançaram
um estado de tranqüilidade sistêmica
Há um triângulo fugidio
liberdade política, eficiência econômica
e eqüidade social cujo atingimento é uma
espécie de pisgah (visão da terra prometida)
de qualquer sociedade organizada. É antiga e desapontadora
a busca humana, no decorrer dos séculos, por um formato
político e social capaz da difícil conciliação
entre tais objetivos.
No fim deste milênio, parece que, depois de variados
e frustrantes experimentos, estamos convergindo para o "capitalismo
democrático", como o sistema mais capaz de englobar
os três componentes do triângulo fugidio. Os países
que fizeram o casamento entre a democracia política
e a economia de mercado alcançaram, por assim dizer,
um estado de "tranqüilidade sistêmica". As disputas
remanescentes são quanto a personalidades, programas
e métodos de rodízio de liderança, porém
não quanto às vigas mestras do sistema.
Essa é essencialmente a situação da
América do Norte (Estados Unidos e Canadá),
da União Européia, da Australásia e do
Japão. Há liberdade política, o sistema
econômico é razoavelmente eficiente e o padrão
de vida alto, sem graves bolsões de miséria.
Afligidos por "intranqüilidade sistêmica" são
os países ex-comunistas, desiludidos com o fracasso
do marxismo-leninismo, que não lhes trouxe nem liberdade
política nem eficiência econômica, limitando-se
a uma distribuição eqüitativa da pobreza.
Às vezes nem isso, porque se estabelece uma clivagem
entre a nomenclatura privilegiada e o proletariado conformista.
Na África, a situação é de geral
"intranqüilidade sistêmica", não sendo atingido
consistentemente nenhum dos desempenhos necessários
à configuração de democracias capitalistas.
A América Latina está em posição
intermediária. A democracia política parece
estar solidamente implantada na maioria dos países,
mas aparecem de vez em quando tendências continuístas
e postulam-se mudanças constitucionais, para retardar
o rodízio de lideranças. É baixo o grau
de eficiência econômica, pois nenhum país
do bloco transpôs o nível de 10.000
dólares de renda real per capita por ano e persistem
inaceitáveis bolsões de pobreza. Estamos longe,
portanto, de entrar no estágio da tranqüilidade
sistêmica.
Resta saber quais as chances de o "capitalismo democrático"
ser o formato político-social vitorioso no próximo
milênio. Essa vitória foi talvez prematuramente
proclamada por Francis Fukuyama ao anunciar, após a
queda do Muro de Berlim, "o fim da História". Ou seja,
o fim da longa busca da humanidade por um sistema político
dotado de dois predicados: "sustentabilidade" e "universabilidade".
Ilustração Alê Setti
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Descartado o socialismo marxista como solução
fracassada, e reinterpretadas as social-democracias européias
como meras variantes do capitalismo ocidental (figurando a
palavra "social" como barretada à utopia socialista),
inexistem alternativas que exibam aqueles dois predicados.
O capitalismo democrático é sustentável
porque não se baseia na opressão, e sim na persuasão;
e é "universalizável" porque tem suficiente
flexibilidade para se adaptar a várias facetas culturais.
Sistemas alternativos, como o nacionalismo desenvolvimentista,
não são por definição universalizáveis.
E, com o Estado-nação renunciando cada vez mais,
por meio de pactos regionais, como a União Européia,
as três características "nacionais" moeda
própria, independência fiscal e Exército
autônomo , o nacionalismo não é
uma alternativa promissora. A ressurgência recente é
a do "etnicismo", que visa assegurar maior grau de identidade
a blocos lingüísticos, religiosos ou raciais dentro
do Estado-nação, aceitando, entretanto, a globalização
econômica e financeira. O fundamentalismo islâmico,
por sua vez, tem pouca compatibilidade com a democracia (é
a rigor uma ditadura clerical) e é pouco conducente
à eficiência econômica, em vista de suas
restrições medievais aos mecanismos de juros
e créditos.
Uma coisa interessante a notar é que o grande conflito
ideológico da guerra fria entre o capitalismo e o comunismo
foi a rigor uma guerra civil do Ocidente. Ambas as doutrinas
provêm da mesma fonte filosófica: o progressismo
iluminista e a Revolução Industrial. Talvez
tenha razão o politicólogo Samuel Huntington
ao dizer que os conflitos do futuro não serão
mais entre seitas do pensamento ocidental, e sim entre civilizações,
como a chinesa, a islâmica e a ocidental, separadas
por falhas tectônicas.
Roberto Campos, economista
e diplomata,
foi deputado federal, senador e ministro do Planejamento
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