Edição 1 624 -17/11/1999

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O triângulo fugidio

Os países que fizeram o casamento
entre a democracia política
e
a economia de mercado alcançaram
um estado de tranqüilidade sistêmica

Há um triângulo fugidio – liberdade política, eficiência econômica e eqüidade social – cujo atingimento é uma espécie de pisgah (visão da terra prometida) de qualquer sociedade organizada. É antiga e desapontadora a busca humana, no decorrer dos séculos, por um formato político e social capaz da difícil conciliação entre tais objetivos.

No fim deste milênio, parece que, depois de variados e frustrantes experimentos, estamos convergindo para o "capitalismo democrático", como o sistema mais capaz de englobar os três componentes do triângulo fugidio. Os países que fizeram o casamento entre a democracia política e a economia de mercado alcançaram, por assim dizer, um estado de "tranqüilidade sistêmica". As disputas remanescentes são quanto a personalidades, programas e métodos de rodízio de liderança, porém não quanto às vigas mestras do sistema.

Essa é essencialmente a situação da América do Norte (Estados Unidos e Canadá), da União Européia, da Australásia e do Japão. Há liberdade política, o sistema econômico é razoavelmente eficiente e o padrão de vida alto, sem graves bolsões de miséria.

Afligidos por "intranqüilidade sistêmica" são os países ex-comunistas, desiludidos com o fracasso do marxismo-leninismo, que não lhes trouxe nem liberdade política nem eficiência econômica, limitando-se a uma distribuição eqüitativa da pobreza. Às vezes nem isso, porque se estabelece uma clivagem entre a nomenclatura privilegiada e o proletariado conformista.

Na África, a situação é de geral "intranqüilidade sistêmica", não sendo atingido consistentemente nenhum dos desempenhos necessários à configuração de democracias capitalistas.

A América Latina está em posição intermediária. A democracia política parece estar solidamente implantada na maioria dos países, mas aparecem de vez em quando tendências continuístas e postulam-se mudanças constitucionais, para retardar o rodízio de lideranças. É baixo o grau de eficiência econômica, pois nenhum país do bloco transpôs o nível de 10.000 dólares de renda real per capita por ano e persistem inaceitáveis bolsões de pobreza. Estamos longe, portanto, de entrar no estágio da tranqüilidade sistêmica.

Resta saber quais as chances de o "capitalismo democrático" ser o formato político-social vitorioso no próximo milênio. Essa vitória foi talvez prematuramente proclamada por Francis Fukuyama ao anunciar, após a queda do Muro de Berlim, "o fim da História". Ou seja, o fim da longa busca da humanidade por um sistema político dotado de dois predicados: "sustentabilidade" e "universabilidade".

 
Ilustração Alê Setti

Descartado o socialismo marxista como solução fracassada, e reinterpretadas as social-democracias européias como meras variantes do capitalismo ocidental (figurando a palavra "social" como barretada à utopia socialista), inexistem alternativas que exibam aqueles dois predicados. O capitalismo democrático é sustentável porque não se baseia na opressão, e sim na persuasão; e é "universalizável" porque tem suficiente flexibilidade para se adaptar a várias facetas culturais. Sistemas alternativos, como o nacionalismo desenvolvimentista, não são por definição universalizáveis. E, com o Estado-nação renunciando cada vez mais, por meio de pactos regionais, como a União Européia, as três características "nacionais" – moeda própria, independência fiscal e Exército autônomo –, o nacionalismo não é uma alternativa promissora. A ressurgência recente é a do "etnicismo", que visa assegurar maior grau de identidade a blocos lingüísticos, religiosos ou raciais dentro do Estado-nação, aceitando, entretanto, a globalização econômica e financeira. O fundamentalismo islâmico, por sua vez, tem pouca compatibilidade com a democracia (é a rigor uma ditadura clerical) e é pouco conducente à eficiência econômica, em vista de suas restrições medievais aos mecanismos de juros e créditos.

Uma coisa interessante a notar é que o grande conflito ideológico da guerra fria entre o capitalismo e o comunismo foi a rigor uma guerra civil do Ocidente. Ambas as doutrinas provêm da mesma fonte filosófica: o progressismo iluminista e a Revolução Industrial. Talvez tenha razão o politicólogo Samuel Huntington ao dizer que os conflitos do futuro não serão mais entre seitas do pensamento ocidental, e sim entre civilizações, como a chinesa, a islâmica e a ocidental, separadas por falhas tectônicas.

Roberto Campos, economista e diplomata,
foi deputado federal, senador e ministro do Planejamento