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Europa
A coroa sobrevive
Sem poder político, monarquias européias
chegam ao fim do século XX em boa saúde
Reis e rainhas, príncipes e princesas,
barões, duques e toda a escala nobiliárquica
criada na Europa há séculos poderiam estar encerrados
nos livros e imobilizados em pinturas. Monarquia, na acepção
literal do governo exercido por uma só pessoa, é
uma idéia que só sobrevive em um ou outro país
do mundo, como a Arábia Saudita. Na Europa, faz muito
tempo, tornou-se um princípio inconcebível.
No entanto, é no Velho Continente que as famílias
reais parecem mais inabaláveis, protegidas pelas Constituições
nacionais que são obrigadas a obedecer. A convivência
de monarcas com sistemas democráticos, uma saudável,
ou pelo menos inofensiva, contradição engendrada
pela História, resistiu ao século XX e deve
adentrar o terceiro milênio em boa saúde.
É bem verdade que, para alguns nobres ingleses, a
brincadeira está perto do fim. Na tentativa de adequar
o quadro político do país aos novos tempos,
o primeiro-ministro inglês, Tony Blair, conseguiu tirar
da grande maioria da nobreza hereditária o direito
de fazer parte da Câmara dos Lordes, a câmara
alta do Parlamento. Foi a maior derrota dos cidadãos
de sangue azul desde que tiveram reduzido seu poder de rejeitar
leis em 1911, numa queda-de-braço com a Câmara
dos Comuns, aquela que tem membros eleitos pelo povo e realmente
exerce o poder de legislar. Dos atuais 1.166
lordes, 633 herdaram o título dos antepassados. Destes,
apenas 92 manterão assentos na nova Câmara dos
Lordes, durante a transição para algo que poderá
até vir a ser um Senado. Os remanescentes foram escolhidos
em uma votação interna. Os pares vitalícios,
aqueles que recebem o título e a cadeira por indicação
do governo, continuam na Casa.
Doce vingança Enquanto muitos nobres remoem
a perda de poder, a rainha Elizabeth II saboreia um voto de
aprovação. Do outro lado do mundo, os australianos
decidiram, no último dia 6, mantê-la como chefe
de Estado, posto honorífico que ela também
ocupa em mais de uma dezena de outras ex-colônias. Não
foi dessa vez que o incipiente movimento republicano inglês
pôde capitalizar uma derrota da família Windsor
na terra dos cangurus. No mesmo dia do plebiscito australiano,
a rainha cumpria seu papel cerimonial e entregava o troféu
aos campeões do mundial de rúgbi, no País
de Gales. Por ironia, a seleção vencedora foi
a da Austrália. O sorriso da soberana, durante a cerimônia,
traía alívio e uma doce vingança. Feitas
as contas, ser membro ou não da Comunidade Britânica
(Commonwealth) não traz grandes vantagens a país
algum. Embora as ex-colônias teoricamente contem com
cooperação tecnológica e científica
da Inglaterra, o guarda-chuva empunhado pela rainha agrupa
países ricos como o Canadá e miseráveis
como Camarões, democracias legítimas e uma monarquia
absolutista como a do Brunei. O que interessa é manter
a coroa como símbolo, e a rainha venceu mais um desafio.
A família real e os lordes ingleses representam um
dos grupos sociais mais conservadores e fora de moda do mundo.
Todo ano, como fará nesta semana, a rainha abre os
trabalhos do Parlamento com a coroa na cabeça, pronunciando
um discurso escrito não por ela, mas pelo governo.
"A monarquia é evidentemente antiquada, mas o problema
é o que fazer com ela", afirma o professor John Guy,
da Universidade de St. Andrews, na Escócia. Esse é
o eterno dilema dos ingleses. A realeza está tão
arraigada na estrutura política e social que eliminá-la
da noite para o dia seria atentar contra a própria
unidade nacional.
Amores plebeus Para o historiador Alan Sked, da
London School of Economics, a chave da sobrevivência
da monarquia está, paradoxalmente, no seu afastamento
completo do poder político. Essa separação
começou a ser moldada no século XIV, quando
surgiram as duas Câmaras parlamentares, a dos comuns
e a dos lordes. Mas o rei manteve a supremacia até
1689. Naquele ano, durante uma grave crise de sucessão,
uma lei definiu o Parlamento como autoridade máxima.
O poder político foi gradativamente transferido para
as mãos do povo, sem que fosse preciso decapitar o
monarca, como fizeram os franceses no século XVIII,
abrindo uma nova era para o planeta. A Inglaterra lançou
os alicerces e a França ergueu o monumento da democracia,
na forma como se espalharia pelo mundo.
Respeitosamente dispensada de quaisquer afazeres administrativos,
a realeza britânica passou a se dedicar mais ao papel
de referência social, principalmente a partir do celebrado
reinado da rainha Vitória, o mais longo da história
do país de 1837 a 1901. Se mandava pouco em casa,
a rainha coroada aos 18 anos simbolizava, na virada do século,
o poder do império britânico, em sua maior extensão.
No âmbito doméstico, Vitória se aproximou
da população como modelo de conduta. Um modelo
rígido, sem dúvida, mas com face humana. A monarquia
inglesa se ombrearia com a mortalidade plebéia quando
um herdeiro do trono sucumbiu a uma paixão incontrolável.
Eduardo VIII, futuro duque de Windsor, nem foi coroado. Após
poucos meses de reinado, abdicou em 1936 para casar-se com
Wallis Simpson, uma americana duas vezes divorciada que, seis
décadas atrás, nunca seria aceita como rainha.
Os dramas do casamento entre o príncipe Charles e a
princesa Diana resumiram de vez o papel da realeza a criadora
de contos de fadas, nem sempre com finais felizes. A morte
de Diana fez girar de novo a roda da fortuna. De início,
provocou ira contra a família real. Num segundo momento,
renovou o interesse pelo trono, criando nos filhos da princesa
novos modelos de comportamento.
Outras famílias reais cumprem propósitos semelhantes
de fornecer espetáculo. O principado de Mônaco,
que mal chega a ser um país, há décadas
alimenta o imaginário mundial. Lá, o mundo de
sonhos se amalgamou de tal forma aos resquícios de
nobreza que Grace Kelly, uma atriz de Hollywood talhada por
natureza para os papéis inalcançáveis,
se tornou a esposa do monarca. Mal representado pelos filhos
de Grace com o príncipe Rainier o solteirão
Albert e as instáveis princesas Caroline e Stéphanie
, Mônaco corre o sério risco de não
sobreviver às próximas décadas.
Promessa de campanha Produzir assunto para a mesa
de refeições e dividir as afeições
dos súditos talvez não sejam justificativas
suficientes para os 13 milhões de dólares gastos
anualmente na Inglaterra somente com funcionários da
corte e compromissos oficiais. Mas a existência de um
monarca é vista por muitos como base da democracia
do país. Essa aparente incoerência encontra eco
em outras monarquias européias, como a espanhola. O
exílio imposto pela ditadura de Francisco Franco aproximou
a família real dos anseios pela volta dos direitos
democráticos. A coroação do rei Juan
Carlos, em 1975, após a morte de Franco, foi a pedra
fundamental para o início de uma era de liberdade na
Espanha. Na Holanda e na Noruega, invadidas pelos alemães
durante a II Guerra, os monarcas foram símbolos da
resistência ao nazismo e chegaram ao final do conflito
nos braços do povo.
Tony Blair alcançou uma importante vitória
com o fim do direito de voto da maioria dos lordes afinal,
essa era uma de suas principais promessas de campanha. Mas
também criou um problema. Se a necessidade de acabar
com privilégios herdados de pai para filho era ponto
pacífico, ninguém, aparentemente nem o primeiro-ministro,
sabe ao certo qual deve ser o futuro das instituições
na Inglaterra, um país tão acostumado a se adaptar
com suavidade aos ventos históricos que nem sequer
tem uma Constituição redigida formalmente. Para
horror dos que vêem nas atitudes de Blair os indícios
de uma desestruturação nacional, ele permitiu,
e até incentivou, que Escócia e País
de Gales voltassem, neste ano, pela primeira vez desde 1707,
a eleger Parlamentos autônomos.
Paralelamente à perda de poder, as monarquias enfrentam
o processo de unificação da Europa. Numa possível
federação continental, elas poderão ser
os últimos bastiões de especificidade nacional.
Se isso acontecer, permanecerão em seus castelos, dividindo
o tempo entre caridade, poses para fotos e acenos aos súditos.
Uma coisa é certa: na Europa do próximo século
não haverá lugar para barões ou marqueses
com poder político e dividendos econômicos. Quanto
a reis e rainhas, tudo vai depender do bolso do contribuinte.
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