Edição 1 624 -17/11/1999

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Europa

A coroa sobrevive

Sem poder político, monarquias européias
chegam ao fim do século XX em boa saúde

Reis e rainhas, príncipes e princesas, barões, duques e toda a escala nobiliárquica criada na Europa há séculos poderiam estar encerrados nos livros e imobilizados em pinturas. Monarquia, na acepção literal do governo exercido por uma só pessoa, é uma idéia que só sobrevive em um ou outro país do mundo, como a Arábia Saudita. Na Europa, faz muito tempo, tornou-se um princípio inconcebível. No entanto, é no Velho Continente que as famílias reais parecem mais inabaláveis, protegidas pelas Constituições nacionais que são obrigadas a obedecer. A convivência de monarcas com sistemas democráticos, uma saudável, ou pelo menos inofensiva, contradição engendrada pela História, resistiu ao século XX e deve adentrar o terceiro milênio em boa saúde.

É bem verdade que, para alguns nobres ingleses, a brincadeira está perto do fim. Na tentativa de adequar o quadro político do país aos novos tempos, o primeiro-ministro inglês, Tony Blair, conseguiu tirar da grande maioria da nobreza hereditária o direito de fazer parte da Câmara dos Lordes, a câmara alta do Parlamento. Foi a maior derrota dos cidadãos de sangue azul desde que tiveram reduzido seu poder de rejeitar leis em 1911, numa queda-de-braço com a Câmara dos Comuns, aquela que tem membros eleitos pelo povo e realmente exerce o poder de legislar. Dos atuais 1.166 lordes, 633 herdaram o título dos antepassados. Destes, apenas 92 manterão assentos na nova Câmara dos Lordes, durante a transição para algo que poderá até vir a ser um Senado. Os remanescentes foram escolhidos em uma votação interna. Os pares vitalícios, aqueles que recebem o título e a cadeira por indicação do governo, continuam na Casa.

Doce vingança – Enquanto muitos nobres remoem a perda de poder, a rainha Elizabeth II saboreia um voto de aprovação. Do outro lado do mundo, os australianos decidiram, no último dia 6, mantê-la como chefe de Estado, posto – honorífico – que ela também ocupa em mais de uma dezena de outras ex-colônias. Não foi dessa vez que o incipiente movimento republicano inglês pôde capitalizar uma derrota da família Windsor na terra dos cangurus. No mesmo dia do plebiscito australiano, a rainha cumpria seu papel cerimonial e entregava o troféu aos campeões do mundial de rúgbi, no País de Gales. Por ironia, a seleção vencedora foi a da Austrália. O sorriso da soberana, durante a cerimônia, traía alívio e uma doce vingança. Feitas as contas, ser membro ou não da Comunidade Britânica (Commonwealth) não traz grandes vantagens a país algum. Embora as ex-colônias teoricamente contem com cooperação tecnológica e científica da Inglaterra, o guarda-chuva empunhado pela rainha agrupa países ricos como o Canadá e miseráveis como Camarões, democracias legítimas e uma monarquia absolutista como a do Brunei. O que interessa é manter a coroa como símbolo, e a rainha venceu mais um desafio.

A família real e os lordes ingleses representam um dos grupos sociais mais conservadores e fora de moda do mundo. Todo ano, como fará nesta semana, a rainha abre os trabalhos do Parlamento com a coroa na cabeça, pronunciando um discurso escrito não por ela, mas pelo governo. "A monarquia é evidentemente antiquada, mas o problema é o que fazer com ela", afirma o professor John Guy, da Universidade de St. Andrews, na Escócia. Esse é o eterno dilema dos ingleses. A realeza está tão arraigada na estrutura política e social que eliminá-la da noite para o dia seria atentar contra a própria unidade nacional.

Amores plebeus – Para o historiador Alan Sked, da London School of Economics, a chave da sobrevivência da monarquia está, paradoxalmente, no seu afastamento completo do poder político. Essa separação começou a ser moldada no século XIV, quando surgiram as duas Câmaras parlamentares, a dos comuns e a dos lordes. Mas o rei manteve a supremacia até 1689. Naquele ano, durante uma grave crise de sucessão, uma lei definiu o Parlamento como autoridade máxima. O poder político foi gradativamente transferido para as mãos do povo, sem que fosse preciso decapitar o monarca, como fizeram os franceses no século XVIII, abrindo uma nova era para o planeta. A Inglaterra lançou os alicerces e a França ergueu o monumento da democracia, na forma como se espalharia pelo mundo.

Respeitosamente dispensada de quaisquer afazeres administrativos, a realeza britânica passou a se dedicar mais ao papel de referência social, principalmente a partir do celebrado reinado da rainha Vitória, o mais longo da história do país – de 1837 a 1901. Se mandava pouco em casa, a rainha coroada aos 18 anos simbolizava, na virada do século, o poder do império britânico, em sua maior extensão. No âmbito doméstico, Vitória se aproximou da população como modelo de conduta. Um modelo rígido, sem dúvida, mas com face humana. A monarquia inglesa se ombrearia com a mortalidade plebéia quando um herdeiro do trono sucumbiu a uma paixão incontrolável. Eduardo VIII, futuro duque de Windsor, nem foi coroado. Após poucos meses de reinado, abdicou em 1936 para casar-se com Wallis Simpson, uma americana duas vezes divorciada que, seis décadas atrás, nunca seria aceita como rainha. Os dramas do casamento entre o príncipe Charles e a princesa Diana resumiram de vez o papel da realeza a criadora de contos de fadas, nem sempre com finais felizes. A morte de Diana fez girar de novo a roda da fortuna. De início, provocou ira contra a família real. Num segundo momento, renovou o interesse pelo trono, criando nos filhos da princesa novos modelos de comportamento.

Outras famílias reais cumprem propósitos semelhantes de fornecer espetáculo. O principado de Mônaco, que mal chega a ser um país, há décadas alimenta o imaginário mundial. Lá, o mundo de sonhos se amalgamou de tal forma aos resquícios de nobreza que Grace Kelly, uma atriz de Hollywood talhada por natureza para os papéis inalcançáveis, se tornou a esposa do monarca. Mal representado pelos filhos de Grace com o príncipe Rainier – o solteirão Albert e as instáveis princesas Caroline e Stéphanie – , Mônaco corre o sério risco de não sobreviver às próximas décadas.

Promessa de campanha – Produzir assunto para a mesa de refeições e dividir as afeições dos súditos talvez não sejam justificativas suficientes para os 13 milhões de dólares gastos anualmente na Inglaterra somente com funcionários da corte e compromissos oficiais. Mas a existência de um monarca é vista por muitos como base da democracia do país. Essa aparente incoerência encontra eco em outras monarquias européias, como a espanhola. O exílio imposto pela ditadura de Francisco Franco aproximou a família real dos anseios pela volta dos direitos democráticos. A coroação do rei Juan Carlos, em 1975, após a morte de Franco, foi a pedra fundamental para o início de uma era de liberdade na Espanha. Na Holanda e na Noruega, invadidas pelos alemães durante a II Guerra, os monarcas foram símbolos da resistência ao nazismo e chegaram ao final do conflito nos braços do povo.

Tony Blair alcançou uma importante vitória com o fim do direito de voto da maioria dos lordes – afinal, essa era uma de suas principais promessas de campanha. Mas também criou um problema. Se a necessidade de acabar com privilégios herdados de pai para filho era ponto pacífico, ninguém, aparentemente nem o primeiro-ministro, sabe ao certo qual deve ser o futuro das instituições na Inglaterra, um país tão acostumado a se adaptar com suavidade aos ventos históricos que nem sequer tem uma Constituição redigida formalmente. Para horror dos que vêem nas atitudes de Blair os indícios de uma desestruturação nacional, ele permitiu, e até incentivou, que Escócia e País de Gales voltassem, neste ano, pela primeira vez desde 1707, a eleger Parlamentos autônomos.

Paralelamente à perda de poder, as monarquias enfrentam o processo de unificação da Europa. Numa possível federação continental, elas poderão ser os últimos bastiões de especificidade nacional. Se isso acontecer, permanecerão em seus castelos, dividindo o tempo entre caridade, poses para fotos e acenos aos súditos. Uma coisa é certa: na Europa do próximo século não haverá lugar para barões ou marqueses com poder político e dividendos econômicos. Quanto a reis e rainhas, tudo vai depender do bolso do contribuinte.