Edição 1 624 -17/11/1999

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República Checa

Os eternos párias

Criação de um gueto para ciganos mostra perigo
do racismo no coração da Europa

Uma mera briga de vizinhos serviu para expor uma faceta sombria e pouco conhecida da República Checa. De um lado, 37 famílias de ciganos, amontoadas em dois blocos de um maltratado conjunto habitacional. Do outro, três famílias checas, que reclamavam do barulho e da sujeira dos vizinhos. Para acabar com a disputa, a prefeitura da cidade de Usti nad Labem, perto da fronteira com a Alemanha, decidiu construir um muro, com 2 metros de altura e 60 metros de comprimento, isolando os ciganos do restante da comunidade. De nada adiantou o protesto de associações de defesa dos direitos humanos, de governos da União Européia e do próprio presidente do país, Vaclav Havel. O muro foi mesmo erguido no mês passado, reacendendo a fogueira de um conflito potencialmente explosivo: a perseguição aos ciganos em vários países do ex-bloco soviético.

 

Os ciganos são uma parcela importante na população de várias nações européias (veja quadro). Em nenhuma delas levam vida fácil. São discriminados nos empregos, a ponto de, em algumas áreas, o índice de desemprego entre eles chegar a 90%. Rejeitadas nas escolas comuns, crianças ciganas ficam sem estudo ou acabam em colégios para alunos deficientes. Na Romênia, são ciganas três de cada quatro crianças recolhidas aos orfanatos. A República Checa se destaca pela virulência da hostilidade, inesperada em um país que aspira a ser membro da União Européia. Nos oito primeiros meses deste ano, 1.045 famílias de ciganos checos bateram às fronteiras de Inglaterra, Canadá e Alemanha em busca de asilo, o dobro do ano passado. Elas fogem das medidas de segregação adotadas pelas autoridades nas pequenas cidades, como o muro de Usti nad Labem, e das agressões físicas desfechadas por grupos nacionalistas e por seus próprios vizinhos checos.

Em maior ou menor grau, a situação se repete em outros países da Europa Oriental pós-comunista, que concentram a maioria dos mais de 6 milhões de ciganos no continente. Dos 40.000 que viviam em Kosovo antes do ataque da Otan contra a Iugoslávia, entre março e junho deste ano, restam menos de 800. Foram expulsos pela violência dos albaneses étnicos, que os acusam de colaboração com os sérvios. Não é uma situação inteiramente nova. Até meados do século passado, ciganos ainda eram vendidos como escravos em alguns países dos Bálcãs. Durante a II Guerra, pelo menos 1 milhão deles foram chacinados pelos nazistas. Só que, ao contrário dos judeus e outras vítimas, nenhum cigano foi convocado a testemunhar no Tribunal de Nuremberg.