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República
Checa
Os eternos párias
Criação de um gueto para ciganos
mostra perigo
do racismo no coração da Europa
Uma mera briga de vizinhos serviu para expor uma faceta sombria
e pouco conhecida da República Checa. De um lado, 37
famílias de ciganos, amontoadas em dois blocos de um
maltratado conjunto habitacional. Do outro, três famílias
checas, que reclamavam do barulho e da sujeira dos vizinhos.
Para acabar com a disputa, a prefeitura da cidade de Usti
nad Labem, perto da fronteira com a Alemanha, decidiu construir
um muro, com 2 metros de altura e 60 metros de comprimento,
isolando os ciganos do restante da comunidade. De nada adiantou
o protesto de associações de defesa dos direitos
humanos, de governos da União Européia e do
próprio presidente do país, Vaclav Havel. O
muro foi mesmo erguido no mês passado, reacendendo a
fogueira de um conflito potencialmente explosivo: a perseguição
aos ciganos em vários países do ex-bloco soviético.
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Os ciganos são uma parcela importante na população
de várias nações européias (veja
quadro). Em nenhuma delas levam vida fácil. São
discriminados nos empregos, a ponto de, em algumas áreas,
o índice de desemprego entre eles chegar a 90%. Rejeitadas
nas escolas comuns, crianças ciganas ficam sem estudo
ou acabam em colégios para alunos deficientes. Na Romênia,
são ciganas três de cada quatro crianças
recolhidas aos orfanatos. A República Checa se destaca
pela virulência da hostilidade, inesperada em um país
que aspira a ser membro da União Européia. Nos
oito primeiros meses deste ano, 1.045
famílias de ciganos checos bateram às fronteiras
de Inglaterra, Canadá e Alemanha em busca de asilo,
o dobro do ano passado. Elas fogem das medidas de segregação
adotadas pelas autoridades nas pequenas cidades, como o muro
de Usti nad Labem, e das agressões físicas desfechadas
por grupos nacionalistas e por seus próprios vizinhos
checos.
Em maior ou menor grau, a situação se repete
em outros países da Europa Oriental pós-comunista,
que concentram a maioria dos mais de 6 milhões de ciganos
no continente. Dos 40.000 que viviam
em Kosovo antes do ataque da Otan contra a Iugoslávia,
entre março e junho deste ano, restam menos de 800.
Foram expulsos pela violência dos albaneses étnicos,
que os acusam de colaboração com os sérvios.
Não é uma situação inteiramente
nova. Até meados do século passado, ciganos
ainda eram vendidos como escravos em alguns países
dos Bálcãs. Durante a II Guerra, pelo menos
1 milhão deles foram chacinados pelos nazistas. Só
que, ao contrário dos judeus e outras vítimas,
nenhum cigano foi convocado a testemunhar no Tribunal de Nuremberg.
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