Edição 1 624 -17/11/1999

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Diplomacia

Este é o homem

Depois de um ano e quatro meses, Senado
americano aprova embaixador para o Brasil

Vladimir Netto, de Brasília

Harrington,
o aprovado:
amigo de Clinton

Enfim terminou a novela. Depois de um ano e quatro meses, os Estados Unidos definiram seu novo embaixador no Brasil. Seu nome é Anthony Stephen Harrington, advogado de 58 anos e amigo de Bill Clinton. A indicação foi aprovada na última quarta-feira pelo Senado americano, numa noite de alívio para o presidente, que conseguiu preencher vagas em nada menos que treze embaixadas. As indicações eram bloqueadas pelas picuinhas de Jesse Helms, o republicano ultraconservador que preside a Comissão de Relações Exteriores, conhecido como "senador não". Helms atrasou o processo e atazanou tanto os escolhidos anteriores, Brian Atwood e Lee Godfrey, que eles desistiram.

Harrington não recebeu sérias objeções da oposição, apesar de suas históricas relações com o Partido Democrata. Foi assessor jurídico do partido de Clinton nos anos 80 e um dos caciques de sua primeira campanha para presidente, em 1992. Em dezembro de 1997, ele deu a Clinton um presente que se tornaria conhecido mundialmente: "Buddy", o cão labrador que destronou "Socks", o gato da primeira-família, e se tornou o melhor amigo do presidente durante a confusão causada pelo caso com Monica Lewinsky. O novo embaixador é sócio da Hogan & Harston, a maior e mais tradicional das grandes firmas de advocacia de Washington, com 600 funcionários e escritórios em onze cidades ao redor do planeta. Telecomunicações são a especialidade de Harrington, que já assessorou várias empresas do setor em processo de fusão. Ele é também sócio-fundador da Telecom USA, uma operadora de longa distância, depois absorvida pela multinacional americana MCI WorldCom. Deve estar aí a razão de sua escolha. Um dos pontos de atrito atuais entre Estados Unidos e Brasil é a cobrança de 1 bilhão de reais em impostos devidos pela Embratel, comprada pela mesma MCI. A multinacional americana argumenta que não se responsabiliza por pendências anteriores à transação.

Harrington nunca esteve no Brasil. Mas, pelo menos diante dos senadores americanos, ele e sua mulher, Hope, com quem tem dois filhos, mostraram-se cheios de entusiasmo. É um bom atributo para quem terá tantos nós a desatar na nova função. Ele deve retomar a antiga chiadeira do governo americano contra a pirataria praticada no Brasil com produtos de informática e audiovisual. Há ainda a questão das drogas, que voltou à ordem do dia com o entrelaçamento do tráfico com a guerrilha de esquerda na Colômbia. Mais nos bastidores do que em público, os governos americano e brasileiro já mergulharam em contendas sobre a melhor forma de combater o narcotráfico na Amazônia. Os Estados Unidos sempre esperaram uma atuação mais agressiva do Brasil. Até chegaram a lançar, como balão-de-ensaio, a hipótese de uma intervenção militar na Colômbia, provocando uma reação nada animadora do governo brasileiro.

Escaldado pelo exemplo do último embaixador americano no Brasil, Melvyn Levitsky, um proverbial boquirroto, Harrington até agora tem sido, apropriadamente, diplomático. Ao falar no Senado sobre corrupção, tomou o cuidado de não dizer nada que pudesse causar rusgas com os futuros anfitriões brasileiros. Em 1997, um relatório americano definiu a corrupção no Brasil como "endêmica". O novo representante saiu pela tangente e disse que ela é só "persistente". Um sinal de vocação para o jeitinho brasileiro.