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Sociedade
Gays no poder
Cada vez mais homossexuais saem
do armário na política européia
Eduardo Salgado, de Londres
Rasgar a fantasia parece ser a palavra de ordem na política
européia. Cada vez mais homossexuais que assumiram ou foram
forçados a assumir sua condição preenchem cargos
num campo antes proibido: a política. O que há poucas
décadas provocava revolta e em alguns lugares poderia ser
punido até com pena de prisão, hoje está longe
de significar o fim da carreira. Ao contrário, muitos até
se beneficiam dessa condição. O deputado socialista
espanhol Miguel Iceta foi eleito no mês passado para o Parlamento
catalão apenas cinco dias depois de revelar publicamente
ser homossexual. A coligação da qual fazia parte recebeu
50% a mais de votos em relação à eleição
anterior. Como explicar isso num país tão católico
como a Espanha? "Desde a democratização da Espanha
nos anos 70, muita coisa mudou", disse Iceta a VEJA. "Concluí
que já não havia o menor risco de eu me prejudicar
revelando minha opção sexual." Joan Subirats, professor
de ciência política da Universidade Autônoma
de Barcelona, concorda que paira no ar uma nova mentalidade. "O
interessante é que a reação não foi
de escândalo", observa. "Pelo contrário, foi positiva.
Acho que mais gente vai sair do armário de agora em diante."
"Políticos europeus com carreiras consolidadas, não
necessariamente ligados a grupos gays, estão falando mais
abertamente sobre suas preferências sexuais, e o público
tem respondido de forma muito clara: não é isso que
importa, e sim sua honestidade", avalia Peter Clarke, professor
de história da Universidade de Cambridge, na Inglaterra.
Mesmo no campo dos conservadores ingleses, o assunto já perdeu
o poder deletério. Michael Portillo, ex-ministro de Margaret
Thatcher e uma das estrelas da ala direita do Partido Conservador,
foi escolhido pela agremiação para concorrer a uma
vaga na Câmara dos Comuns mesmo depois de ter revelado que
manteve relações homossexuais nos tempos de universitário.
Não foi exatamente uma confissão espontânea.
O assunto estava para ser trombeteado pela implacável imprensa
sensacionalista inglesa. "No passado, havia todo um mistério,
um pacto para manter a vida dos políticos homossexuais fora
do alcance do público. O que nós estamos testemunhando
agora é o fim dessa hipocrisia", diz o professor Peter Clarke.
Na Inglaterra, onde só em 1967 o homossexualismo deixou
de ser crime, o assunto vem sendo discutido à exaustão
desde a posse do primeiro-ministro trabalhista Tony Blair, há
dois anos e meio. Para passar uma imagem de moderno e pluralista,
Blair caprichou na composição do ministério,
com lugar para cinco mulheres, um cego e um homossexual assumido,
Chris Smith, responsável pela pasta da Cultura. Esta última
escolha provocou pouco mais que alguns comentários maldosos
aqui e ali. As reações não foram tão
discretas quando começaram a pipocar na imprensa revelações
ou insinuações sobre a conduta sexual de outros integrantes
do ministério. A primeira baixa foi a do ministro para o
País de Gales, Ron Davies, flagrado por jornalistas depois
de assaltado por um garoto de programa em uma conhecida zona de
prostituição masculina de Londres. Acabou sem a carteira,
o carro, o celular e o cargo no governo. Renunciou. O escândalo
serviu para mostrar que há um limite claro na tolerância:
admitir-se homossexual é uma coisa cada vez mais aceitável.
Ser flagrado como gay continua a ser potencialmente escandaloso.
Depois do vexame de Davies, foi a vez de Peter Mandelson, o todo-poderoso
ministro da Indústria e Comércio, ter sua vida íntima escarafunchada
por um colunista. Mais tarde, revelou-se que, em visita oficial
ao Rio de Janeiro em julho do ano passado, ele aproveitou para encontrar
um namorado e excursionar pelas boates gays. Mandelson também deixou
o governo, mas por causa de um escândalo envolvendo a concessão
de empréstimos públicos a juros camaradas para a compra de uma casa
no chique bairro londrino de Notting Hill. Outro ministro, Nick
Brown, da Agricultura, declarou publicamente sua homossexualidade
depois de chantageado por um semanário que ameaçava divulgar fofocas
contadas por um ex-namorado. Ele continua até hoje no ministério.
Todas essas revelações, que no passado provocariam uma crise de
proporções gigantescas, não causaram mais que pequenos arranhões
na popularidade do governo Blair.
Depois de alguns meses na geladeira, Mandelson foi reconduzido ao
gabinete no mês passado, como ministro para a Irlanda do Norte,
sem maiores resistências.
A liberalidade na política se estende a outros campos. Na semana
passada, o ministro da Defesa da Inglaterra, Geoff Hoon, anunciou
que as Forças Armadas vão adotar um código de conduta para homossexuais,
antes discriminados. Em setembro, o Tribunal Europeu de Direitos
Humanos, na Holanda, já havia decidido que gays e lésbicas não podem
ser expulsos das Forças Armadas. Os homossexuais franceses também
comemoram sua vitória com a aprovação, no mês passado, do Pacto
Civil de Solidariedade, a nova lei que reconhece a união não formal
entre pessoas do mesmo sexo. Com isso, casais gays terão direito
de fazer declarações de renda conjuntas, colocar o parceiro como
dependente no plano de saúde e deixar herança para o companheiro.
Desde a legalização desse tipo de união pela pioneira Dinamarca,
em 1989, outros sete países europeus já adotaram leis semelhantes
ou receberam veredictos favoráveis na Justiça. A vitória mais recente
foi a decisão, tomada há duas semanas pelo Supremo Tribunal inglês,
de que casais homossexuais que tenham uma relação estável devem
ser considerados uma família. Os militantes dos direitos dos homossexuais
vêem na repercussão dos casos de gente famosa que sai do armário
algum lucro para a vida dos anônimos. "Hoje é muito mais fácil
para um jovem se revelar à família e aos amigos", festeja David
Allison, um dos coordenadores do grupo OutRage!, que milita pelos
direitos homossexuais e tem sede em Londres.
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