Edição 1 624 -17/11/1999

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Dez anos de liberdade

Uma década depois da queda do Muro de Berlim,
o mundo é mais democrático, próspero e seguro

Marcio Ferrari

O historiador inglês Timothy Garton Ash, convidado a participar, na semana passada, das comemorações dos dez anos da queda do Muro de Berlim, finalmente dissipou uma dúvida que o atormentava. O que fazia o então dirigente máximo da União Soviética, Mikhail Gorbachev, na noite de 9 de novembro de 1989 enquanto multidões de alemães alegremente derrubavam o paredão a golpes de picaretas? Resposta do próprio Gorbachev: "Dormia". Sim, o último imperador vermelho ressonava enquanto pessoas comuns punham abaixo a fortaleza mais avançada de seu império. A revelação ilustra a imprevisibilidade dos acontecimentos que, naqueles dias, se precipitavam com rapidez estonteante. Uma década depois, pode até parecer que os líderes mundiais tenham sido acometidos de uma síndrome de distração ou ingenuidade. Afinal, fazia cinco anos que Gorbachev estava no poder, conduzindo reformas nos alicerces do totalitarismo comunista e, novidade ainda maior, sem recorrer a banhos de sangue para eliminar as forças de oposição. Além disso, dois meses antes, a Hungria havia removido as barreiras com a Áustria, deixando o caminho aberto ao êxodo de alemães-orientais para a Europa Ocidental. Mesmo assim, ninguém previu a queda do muro que simbolizava a divisão do mundo em dois blocos beligerantes – pelo menos, que pudesse cair da noite para o dia.

Nos Estados Unidos, o presidente George Bush, ao saber da notícia, conseguiu apenas murmurar uma frase: "Estou muito satisfeito". Até hoje, é instado a responder por que não fez um pronunciamento mais condizente com a importância do acontecimento e de seu cargo. Talvez fosse bom demais para ser verdade. Ou talvez o medo tenha falado mais alto. Naquela noite, acabava a Guerra Fria e o comunismo estava sendo varrido do mapa da Europa. Mas os derrotados tinham armas nucleares e reconhecidos maus bofes. Eram o "império do mal", no palavreado hollywoodiano do antecessor de Bush, Ronald Reagan. O momento podia simbolizar o triunfo da liberdade ou a abertura de um buraco negro nuclear que tragaria todo o planeta. A primeira alternativa se provou a mais correta. Evidentemente, isso só se soube depois.

Na terça-feira passada, reunidos na festa em Berlim, Gorbachev, Bush e o alemão Helmut Kohl – todos hoje ex-dirigentes – trocaram lembranças em clima de camaradagem. "Os grandes heróis foram os povos russo e alemão", disse Gorbachev, numa tentativa de dividir de forma salomônica o crédito da derrota da ditadura entre a população das extintas União Soviética e da Alemanha Oriental. Na verdade, ambos os regimes caíram de podre antes de ser varridos por qualquer rebelião das massas. Nos 28 anos de existência do Muro de Berlim, 588 pessoas foram mortas quando tentavam transpô-lo para fugir do comunismo. Em uma só noite, a medonha barreira se reduzia a pedacinhos sem que um só tiro fosse disparado. Muito mais do que os 180 quilômetros de concreto e arame farpado em torno de Berlim Ocidental veio abaixo. Foi a derrocada de um vasto império, cobrindo a distância de dez fusos horários, entre a Europa Central e o Extremo Oriente, um monolito cinzento salpicado de gigantescas estátuas de Lenin, submetido ao poder de pouquíssimos e a uma idéia única: de que a propriedade coletiva seria a chave para a felicidade.

O mundo mudou tão radicalmente desde então que a Guerra Fria e até mesmo Gorbachev parecem lembranças remotas. A ameaça de um holocausto nuclear acionado por um botão soa como ficção científica. Guerras travadas por encomenda na Ásia, África e América Central perderam sentido depois do ocaso da bipolaridade ideológica – se eles continuam a se matar, é por razões puramente domésticas. Se o muro ainda existisse, a África do Sul e o Oriente Médio não teriam dado passos tão largos para melhor. Nos países que se livraram dos grilhões comunistas, pelo menos nos primeiros anos, erguia-se a ilusão de prosperidade infinita e para todos, embora, ironicamente, a idéia de "para todos" estivesse sendo sepultada. Nem de longe se concretizaram os temores de que a Alemanha reunificada, com 82 milhões de habitantes, implicaria risco aos vizinhos, como no passado. O futuro chegou a parecer tão brilhante e suave que as expectativas ganharam dimensões irreais. Num surto de euforia, o pensador americano Francis Fukuyama chegou a decretar o "fim da História", determinado pela vitória da democracia e do livre mercado.

Todos sabem que não foi bem assim. O redesenho do mapa da Europa do Leste (veja quadro) mergulhou a Iugoslávia num processo de fragmentação sangrento, que perdura sem vislumbre de desenlace. Abolido o comunismo como ideologia única, velhas disputas religiosas e étnicas reemergiram. Na Rússia, a privatização do monstruoso aparato estatal transformou a nomenklatura do Partido Comunista em máfia criminosa infiltrada em todas as camadas da sociedade, inclusive, obviamente, nas esferas do poder. O desmonte das estruturas – que contavam, bem ou mal, com escolas e um sistema de saúde acessíveis a todos –, somado ao baixo-astral que prevalece nos centros urbanos da Rússia, provocou a redução da expectativa de vida (58 anos para os homens, comparável a países africanos) e o decréscimo da população. Mesmo assim, não ocorreu o pesadelo que se previa, com a possível ascensão de novos tiranos, dada a falta de tradição democrática do país (antes do comunismo, os russos só haviam conhecido a autocracia czarista). Apesar de todos os percalços, desde o fim da União Soviética, em 1991, realizam-se eleições livres em todo o território russo, e a liberdade de expressão nunca foi tão ampla.

As reformas econômicas por si mesmas não podem ser responsabilizadas pela transformação da Rússia de potência mundial (pela ameaça de seu arsenal) em país com características de Terceiro Mundo. Outros países que substituíram o comunismo por agressivas reformas rumo a economias de mercado, como a Polônia e a Estônia, hoje apresentam índices de crescimento econômico dos mais altos do mundo. É certo que, num primeiro momento, a ação dos governos reformistas provocou crises sérias de impopularidade. Como em quase todos os países do Leste da Europa as instituições democráticas vieram para ficar, alguns comunistas, mais ou menos reformados, retornaram ao poder, apenas para provar que a marcha do tempo não admite recuos. Democraticamente voltaram a mandar, e democraticamente se foram.

O enriquecimento súbito e homogêneo, é claro, foi uma quimera. O melhor exemplo é a própria Alemanha, onde a fraternidade inicial foi sendo substituída por desconfiança. Os alemães-orientais não raro se sentem enganados: perderam a garantia de emprego e não ganharam em troca certeza alguma. Os do Ocidente muitas vezes urram ao pensar que já pagaram, desde a reunificação, em 1990, 12.000 dólares por cabeça em impostos destinados à reconstrução do leste. Apesar dos 800 bilhões de dólares aplicados na economia da porção recém-saída do comunismo, o desemprego entre os orientais supera o dobro do índice entre os ocidentais (17% e 8% em outubro). Os que viveram sob o comunismo sentem-se freqüentemente inferiorizados e ainda confusos com a liberdade de escolha e a supressão da tutela do Estado. É o que os alemães chamam de "muro psicológico". A revisão histórica também abriu feridas. Os arquivos da Stasi, a polícia secreta da Alemanha Oriental, recém-abertos, mostram que, de uma população de 17 milhões de pessoas, 6 milhões estavam fichadas nos porões do regime. Ou seja, todo mundo vivia sob vigilância. E os espiões, como revelam os arquivos, eram os simpáticos vizinhos, o professor da escola dos filhos, e assim por diante. A fronteira imaginária de que tanto se falou nos anos subseqüentes à abolição da fronteira geográfica entre as Alemanhas torna-se cada vez mais tênue. São raros, hoje, no lado oriental, os sinais de precariedade tecnológica e má qualidade de vida, como as caldeiras a carvão e os automóveis Trabant, com teto de papelão, motor ruidoso e escapamento fumacento. De um lado e de outro, contudo, abriu-se um vazio onde antes havia utopias. Se elas fazem falta, o tempo dirá. Em muitos sentidos, a História apenas começou.

 

Era uma vez a cortina de ferro

A "cortina de ferro", expressão que o primeiro-ministro inglês Winston Churchill cunhou em 1946 para definir a fronteira entre a Europa capitalista e o bloco comunista, era, claro, metafórica. Mas barreiras de verdade foram erguidas, porque a população teimava em fugir dos "paraísos operários". Na década de 80, havia oito países do lado leste. Hoje, desfeito o império comunista, são 27. A maior ironia cabe à Polônia, à República Checa e à Hungria: filiaram-se à Otan, a aliança militar criada para fazer frente ao bloco soviético.

 

Os sobreviventes

Uma das criações dos regimes comunistas foi a figura do dissidente. Vinha a ser qualquer um que fizesse oposição e por isso fosse reconhecido no exterior. Tentava-se calá-lo por todos os meios, incluindo a morte. Alguns deles, embora presos e perseguidos, ganharam notoriedade fora, sobreviveram e tornaram-se políticos importantes depois do fim do comunismo. Lech Walesa, o sindicalista que desafiou o Partido Comunista da Polônia durante uma década, elegeu-se presidente em 1990, submetendo a economia a uma terapia de choque. O resultado imediato foi a derrota na tentativa de reeleição. A longo prazo, o pacote de privatizações rendeu a prosperidade atual. Na Checoslováquia, o dramaturgo Vaclav Havel conduziu em 1989 a "revolução de veludo", que derrotou o comunismo, e, no mesmo ano, tornou-se presidente. Ele mantém o cargo, mas na República Checa, depois que a Eslováquia se tornou independente. Havel é hoje figura isolada e descontente com os rumos nacionalistas de seu país. O caso de Natan Sharanski encerra uma curiosidade. Oposição na União Soviética, tornou-se político em Israel, onde é ministro do Interior.