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Dez anos de liberdade
Uma década depois da queda do Muro de Berlim,
o mundo é mais democrático, próspero e seguro
Marcio Ferrari
O historiador inglês Timothy Garton Ash, convidado a participar,
na semana passada, das comemorações dos dez anos da queda do Muro
de Berlim, finalmente dissipou uma dúvida que o atormentava. O que
fazia o então dirigente máximo da União Soviética, Mikhail Gorbachev,
na noite de 9 de novembro de 1989 enquanto multidões de alemães
alegremente derrubavam o paredão a golpes de picaretas? Resposta
do próprio Gorbachev: "Dormia". Sim, o último imperador
vermelho ressonava enquanto pessoas comuns punham abaixo a fortaleza
mais avançada de seu império. A revelação ilustra a imprevisibilidade
dos acontecimentos que, naqueles dias, se precipitavam com rapidez
estonteante. Uma década depois, pode até parecer que os líderes
mundiais tenham sido acometidos de uma síndrome de distração ou
ingenuidade. Afinal, fazia cinco anos que Gorbachev estava no poder,
conduzindo reformas nos alicerces do totalitarismo comunista e,
novidade ainda maior, sem recorrer a banhos de sangue para eliminar
as forças de oposição. Além disso, dois meses antes, a Hungria havia
removido as barreiras com a Áustria, deixando o caminho aberto ao
êxodo de alemães-orientais para a Europa Ocidental. Mesmo assim,
ninguém previu a queda do muro que simbolizava a divisão do mundo
em dois blocos beligerantes pelo menos, que pudesse cair da noite
para o dia.
Nos Estados Unidos, o presidente George Bush, ao saber da notícia,
conseguiu apenas murmurar uma frase: "Estou muito satisfeito".
Até hoje, é instado a responder por que não fez um pronunciamento
mais condizente com a importância do acontecimento e de seu cargo.
Talvez fosse bom demais para ser verdade. Ou talvez o medo tenha
falado mais alto. Naquela noite, acabava a Guerra Fria e o comunismo
estava sendo varrido do mapa da Europa. Mas os derrotados tinham
armas nucleares e reconhecidos maus bofes. Eram o "império
do mal", no palavreado hollywoodiano do antecessor de Bush,
Ronald Reagan. O momento podia simbolizar o triunfo da liberdade
ou a abertura de um buraco negro nuclear que tragaria todo o planeta.
A primeira alternativa se provou a mais correta. Evidentemente,
isso só se soube depois.
Na terça-feira passada, reunidos na festa em Berlim, Gorbachev,
Bush e o alemão Helmut Kohl todos hoje ex-dirigentes trocaram
lembranças em clima de camaradagem. "Os grandes heróis foram
os povos russo e alemão", disse Gorbachev, numa tentativa de
dividir de forma salomônica o crédito da derrota da ditadura entre
a população das extintas União Soviética e da Alemanha Oriental.
Na verdade, ambos os regimes caíram de podre antes de ser varridos
por qualquer rebelião das massas. Nos 28 anos de existência do Muro
de Berlim, 588 pessoas foram mortas quando tentavam transpô-lo para
fugir do comunismo. Em uma só noite, a medonha barreira se reduzia
a pedacinhos sem que um só tiro fosse disparado. Muito mais do que
os 180 quilômetros de concreto e arame farpado em torno de Berlim
Ocidental veio abaixo. Foi a derrocada de um vasto império, cobrindo
a distância de dez fusos horários, entre a Europa Central e o Extremo
Oriente, um monolito cinzento salpicado de gigantescas estátuas
de Lenin, submetido ao poder de pouquíssimos e a uma idéia única:
de que a propriedade coletiva seria a chave para a felicidade.
O mundo mudou tão radicalmente desde então que a Guerra Fria e
até mesmo Gorbachev parecem lembranças remotas. A ameaça de um holocausto
nuclear acionado por um botão soa como ficção científica. Guerras
travadas por encomenda na Ásia, África e América Central perderam
sentido depois do ocaso da bipolaridade ideológica se eles continuam
a se matar, é por razões puramente domésticas. Se o muro ainda existisse,
a África do Sul e o Oriente Médio não teriam dado passos tão largos
para melhor. Nos países que se livraram dos grilhões comunistas,
pelo menos nos primeiros anos, erguia-se a ilusão de prosperidade
infinita e para todos, embora, ironicamente, a idéia de "para
todos" estivesse sendo sepultada. Nem de longe se concretizaram
os temores de que a Alemanha reunificada, com 82 milhões de habitantes,
implicaria risco aos vizinhos, como no passado. O futuro chegou
a parecer tão brilhante e suave que as expectativas ganharam dimensões
irreais. Num surto de euforia, o pensador americano Francis Fukuyama
chegou a decretar o "fim da História", determinado pela
vitória da democracia e do livre mercado.
Todos sabem que não foi bem assim. O redesenho do mapa da Europa
do Leste (veja quadro) mergulhou a
Iugoslávia num processo de fragmentação sangrento, que perdura sem
vislumbre de desenlace. Abolido o comunismo como ideologia única,
velhas disputas religiosas e étnicas reemergiram. Na Rússia, a privatização
do monstruoso aparato estatal transformou a nomenklatura do Partido
Comunista em máfia criminosa infiltrada em todas as camadas da sociedade,
inclusive, obviamente, nas esferas do poder. O desmonte das estruturas
que contavam, bem ou mal, com escolas e um sistema de saúde acessíveis
a todos , somado ao baixo-astral que prevalece nos centros urbanos
da Rússia, provocou a redução da expectativa de vida (58 anos para
os homens, comparável a países africanos) e o decréscimo da população.
Mesmo assim, não ocorreu o pesadelo que se previa, com a possível
ascensão de novos tiranos, dada a falta de tradição democrática
do país (antes do comunismo, os russos só haviam conhecido a autocracia
czarista). Apesar de todos os percalços, desde o fim da União Soviética,
em 1991, realizam-se eleições livres em todo o território russo,
e a liberdade de expressão nunca foi tão ampla.
As reformas econômicas por si mesmas não podem ser responsabilizadas
pela transformação da Rússia de potência mundial (pela ameaça de
seu arsenal) em país com características de Terceiro Mundo. Outros
países que substituíram o comunismo por agressivas reformas rumo
a economias de mercado, como a Polônia e a Estônia, hoje apresentam
índices de crescimento econômico dos mais altos do mundo. É certo
que, num primeiro momento, a ação dos governos reformistas provocou
crises sérias de impopularidade. Como em quase todos os países do
Leste da Europa as instituições democráticas vieram para ficar,
alguns comunistas, mais ou menos reformados, retornaram ao poder,
apenas para provar que a marcha do tempo não admite recuos. Democraticamente
voltaram a mandar, e democraticamente se foram.
O enriquecimento súbito e homogêneo, é claro, foi uma quimera.
O melhor exemplo é a própria Alemanha, onde a fraternidade inicial
foi sendo substituída por desconfiança. Os alemães-orientais não
raro se sentem enganados: perderam a garantia de emprego e não ganharam
em troca certeza alguma. Os do Ocidente muitas vezes urram ao pensar
que já pagaram, desde a reunificação, em 1990, 12.000
dólares por cabeça em impostos destinados à reconstrução do leste.
Apesar dos 800 bilhões de dólares aplicados na economia da porção
recém-saída do comunismo, o desemprego entre os orientais supera
o dobro do índice entre os ocidentais (17% e 8% em outubro). Os
que viveram sob o comunismo sentem-se freqüentemente inferiorizados
e ainda confusos com a liberdade de escolha e a supressão da tutela
do Estado. É o que os alemães chamam de "muro psicológico".
A revisão histórica também abriu feridas. Os arquivos da Stasi,
a polícia secreta da Alemanha Oriental, recém-abertos, mostram que,
de uma população de 17 milhões de pessoas, 6 milhões estavam fichadas
nos porões do regime. Ou seja, todo mundo vivia sob vigilância.
E os espiões, como revelam os arquivos, eram os simpáticos vizinhos,
o professor da escola dos filhos, e assim por diante. A fronteira
imaginária de que tanto se falou nos anos subseqüentes à abolição
da fronteira geográfica entre as Alemanhas torna-se cada vez mais
tênue. São raros, hoje, no lado oriental, os sinais de precariedade
tecnológica e má qualidade de vida, como as caldeiras a carvão e
os automóveis Trabant, com teto de papelão, motor ruidoso e escapamento
fumacento. De um lado e de outro, contudo, abriu-se um vazio onde
antes havia utopias. Se elas fazem falta, o tempo dirá. Em muitos
sentidos, a História apenas começou.
Era uma vez
a cortina de ferro
A
"cortina de ferro", expressão que o primeiro-ministro
inglês Winston Churchill cunhou em 1946 para definir a fronteira
entre a Europa capitalista e o bloco comunista, era, claro,
metafórica. Mas barreiras de verdade foram erguidas, porque
a população teimava em fugir dos "paraísos operários".
Na década de 80, havia oito países do lado leste. Hoje, desfeito
o império comunista, são 27. A maior ironia cabe à Polônia,
à República Checa e à Hungria: filiaram-se à Otan, a aliança
militar criada para fazer frente ao bloco soviético.
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Os sobreviventes
Uma das criações dos regimes comunistas foi a figura do dissidente.
Vinha a ser qualquer um que fizesse oposição e por isso fosse
reconhecido no exterior. Tentava-se calá-lo por todos os meios,
incluindo a morte. Alguns deles, embora presos e perseguidos,
ganharam notoriedade fora, sobreviveram e tornaram-se políticos
importantes depois do fim do comunismo. Lech Walesa, o sindicalista
que desafiou o Partido Comunista da Polônia durante uma década,
elegeu-se presidente em 1990, submetendo a economia a uma
terapia de choque. O resultado imediato foi a derrota na tentativa
de reeleição. A longo prazo, o pacote de privatizações rendeu
a prosperidade atual. Na Checoslováquia, o dramaturgo Vaclav
Havel conduziu em 1989 a "revolução de veludo",
que derrotou o comunismo, e, no mesmo ano, tornou-se presidente.
Ele mantém o cargo, mas na República Checa, depois que a Eslováquia
se tornou independente. Havel é hoje figura isolada e descontente
com os rumos nacionalistas de seu país. O caso de Natan Sharanski
encerra uma curiosidade. Oposição na União Soviética, tornou-se
político em Israel, onde é ministro do Interior.
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