Predadores à solta
O presidente da Control Risks diz que o preço
por morar em grandes cidades é aprender
a conviver com a violência
Leandro Loyola
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"Se a sociedade não
se cuidar, outros criminosos podem se inspirar no assassino
do cinema"
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Antonio Milena
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O americano James Wygand, de 56 anos, é
um dos maiores especialistas em segurança do país.
Morando no Brasil há 34 anos, ele foi presidente local
da Kroll, a empresa americana que rastreou as contas de PC
Farias no exterior, e hoje comanda a concorrente inglesa Control
Risks, uma das maiores companhias do mundo no ramo de investigação
e segurança. A maioria dos serviços de Wygand
consiste em ensinar seus clientes a evitar assaltos e seqüestros.
Nesta entrevista, fala sobre como se prevenir da violência
nas grandes cidades e analisa os motivos e as conseqüências
do crime cometido pelo estudante Mateus da Costa Meira em
um cinema de São Paulo. Ele fala também sobre
a parte de seu trabalho mais intrincada: escarafunchar contas
de grandes corporações e bancos para desvendar
esquemas milionários de fraude e suas conexões
com o crime organizado. A única condição
imposta por Wygand foi contar casos que investigou sem citar
o nome das companhias e das pessoas envolvidas: "Isso eu não
falo nem para a minha família. É para a sua
própria segurança".
Veja Há duas semanas um estudante invadiu
um cinema em São Paulo, abriu fogo contra a platéia
com uma submetralhadora e matou três pessoas. Estamos
diante de uma nova modalidade de crime?
Wygand Esse caso merece atenção
porque é praticamente inédito no Brasil. O crime
aqui sempre tem motivos. Uma chacina ocorre por causa de uma
dívida de drogas, por exemplo. Um crime como o que
ocorreu no cinema assusta porque não tem motivo. Os
moradores de São Paulo não esperam que um louco
entre no cinema e passe fogo em todo mundo, tanto que as pessoas
que estavam lá na hora acharam que aquilo era uma pegadinha,
uma brincadeira inconseqüente. Elas não imaginavam
que poderia se tratar de um louco porque nunca viram isso
acontecer na sua cidade ou mesmo no país. Foi por isso
que demoraram a se jogar no chão para se proteger.
Nos Estados Unidos seria diferente. Em algumas cidades como
Los Angeles, onde as ações desses desequilibrados
já aconteceram outras vezes, as pessoas reagiriam mais
rápido e iriam para o chão ao primeiro estampido.
É uma questão de a sociedade já estar
acostumada a isso. Temos de tomar cuidado, olhar esse crime
com atenção porque ele pode criar um precedente.
Se o Brasil não se cuidar a moda pega, porque outros
desequilibrados podem usar o "sucesso" desse caso como inspiração.
As autoridades precisam estudá-lo para saber se estamos
diante de um fato isolado ou de um fenômeno social.
Esse rapaz deve ser punido, mas a experiência americana
mostra que isso não é suficiente: a maioria
dos criminosos desse tipo foi condenada à morte, o
que não amedrontou outros.
Veja Qual a explicação para um crime
assim?
Wygand Ainda não se sabe exatamente
por que alguém toma uma atitude dessas. Nos Estados
Unidos acredita-se que esses crimes acontecem porque a sociedade
americana culturalmente rejeita quem não é vencedor
em algum campo. A estrutura social premia o vencedor e deixa
de lado o sujeito que nunca foi campeão de futebol
na escola, não entrou em uma faculdade boa ou não
tem um emprego de destaque que rende muito dinheiro. Muitas
vezes isso acontece com um sujeito desequilibrado, com problemas
mentais, que desconta isso atirando nas pessoas dentro do
McDonald's ou na sede da empresa em que trabalha. A sociedade
brasileira é diferente, não julga as pessoas
por desempenho, por isso não vemos gente assim matando
a todo momento. É por essa razão também
que eu acho o fato preocupante: esse crime é o sinal
de um fenômeno novo e ruim que está surgindo
no Brasil. É um sinal de desagregação
social de um rapaz, e pode significar que uma nova fase de
brutalização esteja começando aqui.
Veja Existe alguma maneira de se prevenir contra
isso?
Wygand O crime em geral é uma ação
planejada. Se você ficar atento, pode evitá-lo.
Esse caso é uma exceção. É muito
difícil se prevenir de um ato assim. Não há
como saber que uma pessoa tem problemas mentais, tem compulsões
assassinas, nem evitar que ela ande na rua ou entre em um
shopping center. A melhor recomendação é
que, se alguém aparecer na frente da sala de cinema,
você deve pular para baixo da cadeira. Talvez ele só
tire as calças e a pessoa ao lado ria da sua atitude,
mas não é bom arriscar. A única chance
das pessoas que estavam naquele cinema era ter feito isso.
Os que perceberam o perigo antes se salvaram.
Veja Esse crime pode ser visto como um sinal de
mudança profunda na sociedade brasileira?
Wygand Nós temos de aceitar
a realidade: daqui para a frente haverá predadores
como o rapaz do cinema no nosso meio. Pode ser por razões
pessoais ou sociais, mas ninguém pode fingir que isso
não existe. O melhor é ter consciência
disso e tomar cuidado. Nos tempos de faculdade eu trabalhei
em um serviço telefônico gratuito de apoio, e
atendi muita gente que dizia que queria matar outra pessoa,
queria se suicidar. Não digo que um serviço
assim vá resolver o problema, mas pode ajudar.
Veja As estatísticas mostram que o crime
vem crescendo assustadoramente no Brasil. É uma escalada
sem volta?
Wygand O Brasil não é mais violento
hoje do que outros países. O crime cresce no mundo
inteiro por causa das mudanças estruturais nas economias,
pode-se até dizer que é um dos efeitos da globalização.
No Brasil não poderia ser diferente. O crime é
um reflexo da sociedade, ele evoluiu porque o Brasil evoluiu
também. Em uma pequena sociedade rural você tem
roubo de galinhas e de bicicleta, brigas, coisas simples.
Quando a cidade começa a crescer, chegam imigrantes,
entram pobres em busca de emprego e as pessoas vão
se tornando mais anônimas. No Brasil do século
XIX, as pessoas eram reconhecidas pelo nome. Hoje em dia,
qual é a maneira de saber se alguém tem ou não
tem dinheiro? É pelos bens que ela ostenta: relógio
Rolex, um carro Mercedes, roupas caras, jóias. Tudo
isso atrai o ladrão. O crime acompanha a evolução
da sociedade. Isso aconteceu nos Estados Unidos e no Brasil
também. A forma e a natureza do crime estão
mudando, está se passando para uma "institucionalização",
uma organização do crime.
Veja O senhor escreveu um guia com conselhos sobre
como se proteger nas grandes cidades. A violência e
a insegurança são o preço inevitável
a ser pago?
Wygand Tudo tem seu preço. Quer ser
livre, viver em uma sociedade aberta? Tem de fazer a sua parte,
procurar entender que nem todos que chegam perto querem o
seu bem, ser mais esperto e manter distância para garantir
segurança física. Simplesmente saiba como se
orientar para reduzir esse risco sem tolher demais sua liberdade
ou a dos outros. Há maneiras eficientes, mas intoleráveis,
de resolver os crimes de rua. Que tal um decreto instituindo
que quem sair de casa depois de sete da noite pode levar um
tiro ou ir em cana? Será que vale a pena trocar o risco
atual por um permanente estado de sítio? Eu prefiro
correr o risco de encontrar um assaltante de vez em quando
a ter um decreto que me proíba de sair de casa.
Veja Qual é a melhor prevenção
então?
Wygand É cair na real. É
muito mais negócio você aprender a estar alerta,
a analisar os sinais de perigo e adequar seus hábitos
às contingências da cidade onde vive. Se você
for atento e aceitar que vive num ambiente hostil dificilmente
será assaltado. O problema é que o brasileiro
não gosta de tomar medidas de segurança. A sociedade
brasileira preza muito a liberdade individual e coisas que
tolhem essa expressão de liberdade são evitadas
mesmo que ajudem a salvar a vida das pessoas. O brasileiro
não está acostumado a se proteger porque isso
constrange, obriga a mudanças de comportamento, incomoda,
enfim. Sérgio Buarque de Holanda, em "Raízes
do Brasil", fala do homem ibérico e de sua tendência
de existir contando apenas consigo mesmo. Essa característica
cultural implica uma ampla liberdade individual. Esse tipo
de liberdade é um atrativo para o ladrão. Os
brasileiros por temperamento se recusam a mudar de hábitos
em favor da segurança pessoal. Evitar sair para jantar
em horários perigosos ou deixar de ir a regiões
onde o crime é mais freqüente são coisas
que pouca gente faz. Quem tem dinheiro não quer saber
de andar com um carro mais velho para chamar menos a atenção.
As pessoas procuram nossa companhia, eu dou conselhos, mas
a maioria dos clientes resiste a mudar seus hábitos.
Todo mundo quer ter mais segurança, mas ninguém
quer fazer um trajeto diferente todos os dias, mudar o horário
do cooper de manhã ou pedir ao filho que troque o carro
conversível por outro mais seguro. Conscientizar-se
do perigo e saber conviver com ele é essencial.
Veja Comprar um carro blindado resolve o problema
de quem tem medo de ser assaltado ou seqüestrado no trânsito?
Wygand Ajuda. Não há nada melhor
que chegar a um cruzamento e ter certeza de que, se um sujeito
aparecer com um revólver, você pode fugir sem
levar um tiro. Minha recomendação é que
se você acha que corre grande risco, deve tentar comprar
uma blindagem. O risco de se machucar passa a ser quase zero.
Mas, para mim, a blindagem é um recurso extremo, até
porque custa até 40 000
reais. Eu sempre dou como alternativa intermediária
a idéia de comprar um carro mais velho para despistar.
Veja A ocasião faz o ladrão?
Wygand As pessoas têm a noção
errada de que um sujeito que entra para o crime faz isso porque
não teve oportunidades na vida ou não achou
emprego honesto. Pode ser que existam alguns criminosos por
necessidade, mas estes são ladrões de pequenos
crimes, que roubam para sobreviver no dia-a-dia. A verdade
é que a maioria dos bandidos perigosos opta pela atividade
criminosa porque sabe que ela é muito rentável,
não paga impostos, tem uma série de vantagens.
Ou seja, é uma questão econômica em que
os riscos do negócio são menores que os lucros,
em que o criminoso pode ganhar mais do que sendo honesto.
Veja O crime então funciona como uma empresa?
Wygand Exatamente. O criminoso faz análise
de mercado, determina onde vai investir tempo, recursos e
trabalho. Ele pesquisa, procura novos métodos para
fazer melhor aquilo. Ninguém faz isso por necessidade
básica de sobrevivência, porque a barriga está
roncando de fome. São empreitadas comerciais.
Veja Já chegou ao Brasil aquele crime típico
das economias mais ricas, em que quadrilhas especializadas
em fraudes causam prejuízos de milhões de reais
a empresas privadas e bancos?
Wygand Até pouco tempo atrás,
as empresas procuravam esconder os casos. A maioria delas
eram familiares, então um caso de roubo atingia pessoalmente
o dono, que passava por bobo. Hoje nos contratam porque são
mais profissionais, e os acionistas exigem apuração.
O crime deixou de ser patrimonial para ser social. As fraudes
geram prejuízos que encarecem os produtos. Nos tempos
da inflação alta, esses aumentos ficavam diluídos
porque ninguém tinha muito parâmetro para os
preços. Uma fraude pode aumentar em 10% o custo de
um produto. Isso significa menos competitividade no mercado
brasileiro e internacional. Em um dos casos em que trabalhei,
a falcatrua chegava a 20% do faturamento da companhia. Imagine
só: de cada 5 reais que a empresa ganhava, 1 era perdido
na fraude. Depois que o caso foi solucionado, a empresa que
estava quase falindo melhorou muito.
Veja Qual é o caso mais recente que vocês
estão investigando?
Wygand Estamos investigando um caso em que
a fraude em uma companhia atingiu 18 milhões de reais.
Mais de 180 pessoas já foram indiciadas e outras ainda
podem ser. Um dos caras que foram presos disse logo no início
que, se o esquema não tivesse sido descoberto, em pouco
tempo a empresa ia quebrar. Eu não duvido. Em um caso
notório em que eu fui contratado para investigar se
havia fraude, a companhia faliu ruidosamente alguns meses
depois. Em grande parte porque havia essa sangria. É
como a morte por 1 000 cortes:
nenhum é suficiente para matar, mas perda de sangue
por vários cortes pequenos mata.
Veja Depois que a fraude é descoberta e
os fraudadores são presos, a empresa está livre
para sempre?
Wygand De jeito algum. No crime organizado,
se você prendeu um grupo operando em uma companhia,
não quer dizer que erradicou o mal. Esse pessoal é
como barata: se você dedetizar sua casa, elas vão
para a casa do vizinho. É um trabalho contínuo,
tem de ser feito periodicamente.
Veja Como os bandidos falsificam cartões
de crédito?
Wygand Ao pedir um cartão no banco,
você entrega seus dados e cadastra uma senha. Essas
informações são mandadas para uma central
onde são feitas as fitas magnéticas que classificam
esses dados. Por maior que seja o esquema de segurança,
um sujeito pode roubar uma dessas fitas e fazer um clone de
seu cartão. Outra forma de adulteração
pode ocorrer na entrega. Os cartões são enviados
ao cliente em invólucros supostamente invioláveis.
Eu não posso dizer como, mas existe um jeito de abri-los
em casa e depois fechá-los novamente. Investigamos
um caso em um banco em que o cartão foi usado antes
de ser entregue ao cliente. Ele recebeu em casa a conta de
uma compra que teria sido feita com o cartão que ele
ainda nem tinha recebido.
Veja O senhor é economista. Como chegou
à área de segurança?
Wygand A gente aprende um pouco de sobrevivência
na selva urbana em que é criado. Quando eu era menino,
em Nova Jersey, nos Estados Unidos, era um dos únicos
descendentes de irlandeses numa vizinhança totalmente
italiana. Todo dia na volta para casa eu passava por um corredor
polonês que não era brincadeira! Se não
fosse esperto, não sobreviveria.
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