Edição 1 624 -17/11/1999

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Predadores à solta

O presidente da Control Risks diz que o preço
por morar em grandes cidades é aprender
a conviver com a violência

Leandro Loyola

"Se a sociedade não se cuidar, outros criminosos podem se inspirar no assassino do cinema"
Antonio Milena

O americano James Wygand, de 56 anos, é um dos maiores especialistas em segurança do país. Morando no Brasil há 34 anos, ele foi presidente local da Kroll, a empresa americana que rastreou as contas de PC Farias no exterior, e hoje comanda a concorrente inglesa Control Risks, uma das maiores companhias do mundo no ramo de investigação e segurança. A maioria dos serviços de Wygand consiste em ensinar seus clientes a evitar assaltos e seqüestros. Nesta entrevista, fala sobre como se prevenir da violência nas grandes cidades e analisa os motivos e as conseqüências do crime cometido pelo estudante Mateus da Costa Meira em um cinema de São Paulo. Ele fala também sobre a parte de seu trabalho mais intrincada: escarafunchar contas de grandes corporações e bancos para desvendar esquemas milionários de fraude e suas conexões com o crime organizado. A única condição imposta por Wygand foi contar casos que investigou sem citar o nome das companhias e das pessoas envolvidas: "Isso eu não falo nem para a minha família. É para a sua própria segurança".

Veja – Há duas semanas um estudante invadiu um cinema em São Paulo, abriu fogo contra a platéia com uma submetralhadora e matou três pessoas. Estamos diante de uma nova modalidade de crime?
Wygand – Esse caso merece atenção porque é praticamente inédito no Brasil. O crime aqui sempre tem motivos. Uma chacina ocorre por causa de uma dívida de drogas, por exemplo. Um crime como o que ocorreu no cinema assusta porque não tem motivo. Os moradores de São Paulo não esperam que um louco entre no cinema e passe fogo em todo mundo, tanto que as pessoas que estavam lá na hora acharam que aquilo era uma pegadinha, uma brincadeira inconseqüente. Elas não imaginavam que poderia se tratar de um louco porque nunca viram isso acontecer na sua cidade ou mesmo no país. Foi por isso que demoraram a se jogar no chão para se proteger. Nos Estados Unidos seria diferente. Em algumas cidades como Los Angeles, onde as ações desses desequilibrados já aconteceram outras vezes, as pessoas reagiriam mais rápido e iriam para o chão ao primeiro estampido. É uma questão de a sociedade já estar acostumada a isso. Temos de tomar cuidado, olhar esse crime com atenção porque ele pode criar um precedente. Se o Brasil não se cuidar a moda pega, porque outros desequilibrados podem usar o "sucesso" desse caso como inspiração. As autoridades precisam estudá-lo para saber se estamos diante de um fato isolado ou de um fenômeno social. Esse rapaz deve ser punido, mas a experiência americana mostra que isso não é suficiente: a maioria dos criminosos desse tipo foi condenada à morte, o que não amedrontou outros.

Veja – Qual a explicação para um crime assim?

Wygand – Ainda não se sabe exatamente por que alguém toma uma atitude dessas. Nos Estados Unidos acredita-se que esses crimes acontecem porque a sociedade americana culturalmente rejeita quem não é vencedor em algum campo. A estrutura social premia o vencedor e deixa de lado o sujeito que nunca foi campeão de futebol na escola, não entrou em uma faculdade boa ou não tem um emprego de destaque que rende muito dinheiro. Muitas vezes isso acontece com um sujeito desequilibrado, com problemas mentais, que desconta isso atirando nas pessoas dentro do McDonald's ou na sede da empresa em que trabalha. A sociedade brasileira é diferente, não julga as pessoas por desempenho, por isso não vemos gente assim matando a todo momento. É por essa razão também que eu acho o fato preocupante: esse crime é o sinal de um fenômeno novo e ruim que está surgindo no Brasil. É um sinal de desagregação social de um rapaz, e pode significar que uma nova fase de brutalização esteja começando aqui.

Veja – Existe alguma maneira de se prevenir contra isso?

Wygand – O crime em geral é uma ação planejada. Se você ficar atento, pode evitá-lo. Esse caso é uma exceção. É muito difícil se prevenir de um ato assim. Não há como saber que uma pessoa tem problemas mentais, tem compulsões assassinas, nem evitar que ela ande na rua ou entre em um shopping center. A melhor recomendação é que, se alguém aparecer na frente da sala de cinema, você deve pular para baixo da cadeira. Talvez ele só tire as calças e a pessoa ao lado ria da sua atitude, mas não é bom arriscar. A única chance das pessoas que estavam naquele cinema era ter feito isso. Os que perceberam o perigo antes se salvaram.

Veja – Esse crime pode ser visto como um sinal de mudança profunda na sociedade brasileira?

Wygand – Nós temos de aceitar a realidade: daqui para a frente haverá predadores como o rapaz do cinema no nosso meio. Pode ser por razões pessoais ou sociais, mas ninguém pode fingir que isso não existe. O melhor é ter consciência disso e tomar cuidado. Nos tempos de faculdade eu trabalhei em um serviço telefônico gratuito de apoio, e atendi muita gente que dizia que queria matar outra pessoa, queria se suicidar. Não digo que um serviço assim vá resolver o problema, mas pode ajudar.

Veja – As estatísticas mostram que o crime vem crescendo assustadoramente no Brasil. É uma escalada sem volta?

Wygand – O Brasil não é mais violento hoje do que outros países. O crime cresce no mundo inteiro por causa das mudanças estruturais nas economias, pode-se até dizer que é um dos efeitos da globalização. No Brasil não poderia ser diferente. O crime é um reflexo da sociedade, ele evoluiu porque o Brasil evoluiu também. Em uma pequena sociedade rural você tem roubo de galinhas e de bicicleta, brigas, coisas simples. Quando a cidade começa a crescer, chegam imigrantes, entram pobres em busca de emprego e as pessoas vão se tornando mais anônimas. No Brasil do século XIX, as pessoas eram reconhecidas pelo nome. Hoje em dia, qual é a maneira de saber se alguém tem ou não tem dinheiro? É pelos bens que ela ostenta: relógio Rolex, um carro Mercedes, roupas caras, jóias. Tudo isso atrai o ladrão. O crime acompanha a evolução da sociedade. Isso aconteceu nos Estados Unidos e no Brasil também. A forma e a natureza do crime estão mudando, está se passando para uma "institucionalização", uma organização do crime.

Veja – O senhor escreveu um guia com conselhos sobre como se proteger nas grandes cidades. A violência e a insegurança são o preço inevitável a ser pago?

Wygand – Tudo tem seu preço. Quer ser livre, viver em uma sociedade aberta? Tem de fazer a sua parte, procurar entender que nem todos que chegam perto querem o seu bem, ser mais esperto e manter distância para garantir segurança física. Simplesmente saiba como se orientar para reduzir esse risco sem tolher demais sua liberdade ou a dos outros. Há maneiras eficientes, mas intoleráveis, de resolver os crimes de rua. Que tal um decreto instituindo que quem sair de casa depois de sete da noite pode levar um tiro ou ir em cana? Será que vale a pena trocar o risco atual por um permanente estado de sítio? Eu prefiro correr o risco de encontrar um assaltante de vez em quando a ter um decreto que me proíba de sair de casa.

Veja – Qual é a melhor prevenção então?

Wygand – É cair na real. É muito mais negócio você aprender a estar alerta, a analisar os sinais de perigo e adequar seus hábitos às contingências da cidade onde vive. Se você for atento e aceitar que vive num ambiente hostil dificilmente será assaltado. O problema é que o brasileiro não gosta de tomar medidas de segurança. A sociedade brasileira preza muito a liberdade individual e coisas que tolhem essa expressão de liberdade são evitadas mesmo que ajudem a salvar a vida das pessoas. O brasileiro não está acostumado a se proteger porque isso constrange, obriga a mudanças de comportamento, incomoda, enfim. Sérgio Buarque de Holanda, em "Raízes do Brasil", fala do homem ibérico e de sua tendência de existir contando apenas consigo mesmo. Essa característica cultural implica uma ampla liberdade individual. Esse tipo de liberdade é um atrativo para o ladrão. Os brasileiros por temperamento se recusam a mudar de hábitos em favor da segurança pessoal. Evitar sair para jantar em horários perigosos ou deixar de ir a regiões onde o crime é mais freqüente são coisas que pouca gente faz. Quem tem dinheiro não quer saber de andar com um carro mais velho para chamar menos a atenção. As pessoas procuram nossa companhia, eu dou conselhos, mas a maioria dos clientes resiste a mudar seus hábitos. Todo mundo quer ter mais segurança, mas ninguém quer fazer um trajeto diferente todos os dias, mudar o horário do cooper de manhã ou pedir ao filho que troque o carro conversível por outro mais seguro. Conscientizar-se do perigo e saber conviver com ele é essencial.

Veja – Comprar um carro blindado resolve o problema de quem tem medo de ser assaltado ou seqüestrado no trânsito?

Wygand – Ajuda. Não há nada melhor que chegar a um cruzamento e ter certeza de que, se um sujeito aparecer com um revólver, você pode fugir sem levar um tiro. Minha recomendação é que se você acha que corre grande risco, deve tentar comprar uma blindagem. O risco de se machucar passa a ser quase zero. Mas, para mim, a blindagem é um recurso extremo, até porque custa até 40 000 reais. Eu sempre dou como alternativa intermediária a idéia de comprar um carro mais velho para despistar.

Veja – A ocasião faz o ladrão?

Wygand – As pessoas têm a noção errada de que um sujeito que entra para o crime faz isso porque não teve oportunidades na vida ou não achou emprego honesto. Pode ser que existam alguns criminosos por necessidade, mas estes são ladrões de pequenos crimes, que roubam para sobreviver no dia-a-dia. A verdade é que a maioria dos bandidos perigosos opta pela atividade criminosa porque sabe que ela é muito rentável, não paga impostos, tem uma série de vantagens. Ou seja, é uma questão econômica em que os riscos do negócio são menores que os lucros, em que o criminoso pode ganhar mais do que sendo honesto.

Veja – O crime então funciona como uma empresa?

Wygand – Exatamente. O criminoso faz análise de mercado, determina onde vai investir tempo, recursos e trabalho. Ele pesquisa, procura novos métodos para fazer melhor aquilo. Ninguém faz isso por necessidade básica de sobrevivência, porque a barriga está roncando de fome. São empreitadas comerciais.

Veja – Já chegou ao Brasil aquele crime típico das economias mais ricas, em que quadrilhas especializadas em fraudes causam prejuízos de milhões de reais a empresas privadas e bancos?

Wygand – Até pouco tempo atrás, as empresas procuravam esconder os casos. A maioria delas eram familiares, então um caso de roubo atingia pessoalmente o dono, que passava por bobo. Hoje nos contratam porque são mais profissionais, e os acionistas exigem apuração. O crime deixou de ser patrimonial para ser social. As fraudes geram prejuízos que encarecem os produtos. Nos tempos da inflação alta, esses aumentos ficavam diluídos porque ninguém tinha muito parâmetro para os preços. Uma fraude pode aumentar em 10% o custo de um produto. Isso significa menos competitividade no mercado brasileiro e internacional. Em um dos casos em que trabalhei, a falcatrua chegava a 20% do faturamento da companhia. Imagine só: de cada 5 reais que a empresa ganhava, 1 era perdido na fraude. Depois que o caso foi solucionado, a empresa que estava quase falindo melhorou muito.

Veja – Qual é o caso mais recente que vocês estão investigando?

Wygand – Estamos investigando um caso em que a fraude em uma companhia atingiu 18 milhões de reais. Mais de 180 pessoas já foram indiciadas e outras ainda podem ser. Um dos caras que foram presos disse logo no início que, se o esquema não tivesse sido descoberto, em pouco tempo a empresa ia quebrar. Eu não duvido. Em um caso notório em que eu fui contratado para investigar se havia fraude, a companhia faliu ruidosamente alguns meses depois. Em grande parte porque havia essa sangria. É como a morte por 1 000 cortes: nenhum é suficiente para matar, mas perda de sangue por vários cortes pequenos mata.

Veja – Depois que a fraude é descoberta e os fraudadores são presos, a empresa está livre para sempre?

Wygand – De jeito algum. No crime organizado, se você prendeu um grupo operando em uma companhia, não quer dizer que erradicou o mal. Esse pessoal é como barata: se você dedetizar sua casa, elas vão para a casa do vizinho. É um trabalho contínuo, tem de ser feito periodicamente.

Veja – Como os bandidos falsificam cartões de crédito?

Wygand – Ao pedir um cartão no banco, você entrega seus dados e cadastra uma senha. Essas informações são mandadas para uma central onde são feitas as fitas magnéticas que classificam esses dados. Por maior que seja o esquema de segurança, um sujeito pode roubar uma dessas fitas e fazer um clone de seu cartão. Outra forma de adulteração pode ocorrer na entrega. Os cartões são enviados ao cliente em invólucros supostamente invioláveis. Eu não posso dizer como, mas existe um jeito de abri-los em casa e depois fechá-los novamente. Investigamos um caso em um banco em que o cartão foi usado antes de ser entregue ao cliente. Ele recebeu em casa a conta de uma compra que teria sido feita com o cartão que ele ainda nem tinha recebido.

Veja – O senhor é economista. Como chegou à área de segurança?

Wygand – A gente aprende um pouco de sobrevivência na selva urbana em que é criado. Quando eu era menino, em Nova Jersey, nos Estados Unidos, era um dos únicos descendentes de irlandeses numa vizinhança totalmente italiana. Todo dia na volta para casa eu passava por um corredor polonês que não era brincadeira! Se não fosse esperto, não sobreviveria.