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Luiz
Felipe de Alencastro
A primeira vez
"Concluído
o primeiro turno, a
imprensa
e
os governos dos
países democráticos
saudaram
o processo eleitoral do Brasil"
Ilustração Ale Setti
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Há fatos inéditos, de importância capital, marcando
a atualidade política brasileira. Como já foi assinalado
por alguns comentaristas, pela primeira vez em 42 anos, desde a posse
de Jânio Quadros em Brasília, em janeiro de 1961, um presidente
eleito passará o cargo a um outro presidente eleito. Concluído
o primeiro turno, a imprensa e os governos dos países democráticos
saudaram o processo eleitoral do Brasil, "o amadurecimento de sua democracia,
independentemente de quem será o candidato vitorioso", nas palavras
do porta-voz do comissário de relações exteriores
da União Européia. Num editorial, o jornal espanhol El
País, um dos mais respeitados da Europa, afirma: "Numa situação
[econômica] tão difícil, a transparência destas
eleições é um exemplo para todos por parte da quarta
democracia mais povoada do mundo".
Isoladamente,
as eleições livres não garantem a solidez de uma
democracia. Pode ocorrer ainda que o processo eleitoral, na sua consecução,
como no seu resultado final, desenhe problemas graves no sistema democrático.
Recentemente,
o primeiro turno da eleição presidencial francesa deu lugar
a um resultado patético que privilegiou um candidato de extrema
direita, Jean-Marie Le Pen, execrado pela maioria dos democratas e renegado,
no segundo turno, por quatro quintos dos eleitores. Somados os votos em
Le Pen, com os votos destinados no primeiro turno a dois candidatos de
extrema esquerda sem compromisso com a gestão pública, revelou-se
que uma proporção importante do eleitorado francês
situava-se à margem da vivência democrática. Nos Estados
Unidos, outro ponto cardeal da rosa-dos-ventos do sistema democrático,
as eleições presidenciais desembocaram, há dois anos,
num impasse que teve de ser desempatado pela Suprema Corte. Desnudaram-se
as graves carências do sistema de votação usado em
alguns Estados, e em particular na Flórida. Segundo um estudo do
Instituto de Tecnologia de Massachusetts e do Instituto de Tecnologia
da Califórnia, citado num editorial do jornal Washington Post,
os problemas técnicos das urnas e da apuração podem
ter excluído entre 4 e 6 milhões de votos da contagem eleitoral.
Para solucionar os "enguiços da democracia", como escreve o Post,
as lideranças do Congresso americano acabam de selar um acordo
que prevê a concessão de créditos federais de 3,9
bilhões de dólares para a melhoria do equipamento eleitoral
e o treinamento de mesários.
O sistema
constitucional, partidário e eleitoral brasileiro conserva particularidades
próprias que dão lugar a mal-entendidos entre os jornalistas
e comentadores estrangeiros. Salvo erro, não creio que exista outro
país dotado de um regime como o nosso: presidencialista, federativo,
multipartidário, com eleições em dois turnos só
para os cargos executivos. (Aliás, o Itamaraty poderia ter ajudado
no esclarecimento dos fatos se tivesse fornecido aos jornalistas e à
mídia estrangeira, através das embaixadas, um guia básico
de nosso sistema eleitoral e partidário.)
Nem tudo
deu certo em todos os níveis do escrutínio. A enorme votação
que um aloprado e seu partido mequetrefe receberam do eleitorado paulista
mostra, como notou o presidente da República, e como se escreveu
neste mesmo lugar (VEJA,
4 de setembro de 2002), a necessidade da implantação
do sistema de voto distrital.
Ao fim e
ao cabo, no meio disso tudo, os eleitores não se desorientaram.
Como observaram vários analistas políticos, vão para
o segundo turno da eleição presidencial os candidatos mais
representativos, e, na sua generalidade, os cidadãos asseguraram
a consolidação democrática. Algumas oligarquias e
alguns filhotes da ditadura, ex-biônicos, soçobraram, novas
lideranças democráticas se afirmam por todo o país.
Se ninguém perder a compostura no segundo turno, a democracia brasileira
começará o século com jeito. Com jeito para ninguém
botar defeito.
Luiz
Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris Sorbonne (lfa@workmail.com)
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