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Roberto Pompeu
de Toledo
Delícias
e opressão
do salto alto
Episódio
recente oferece
ocasião para meditar sobre
sapatos e o
mundo da
moda
Não
é que o salto alto seja comparável às asas de Ícaro,
mas não deixa de ser uma tentativa humana de libertar-se da tirania
do solo. O salto tem a função de fazer a pessoa alçar-se,
altear-se, levantar-se, vencendo, ainda que por poucos centímetros,
o determinismo de sua própria altura. É uma feliz coincidência
(ou não será coincidência?) que em língua portuguesa
a palavra seja a mesma que designa também o ato de saltar, de pular,
de desprender-se da terra e gozar, por fugaz momento que seja, da experiência
libertadora de sentir-se solto nos ares. Houve época em que o salto
alto foi usado indistintamente por homens e mulheres. Nos ambientes elegantes
dos séculos XVII e XVIII era, para os homens, exigência tão
incontornável quanto a peruca empoada. Montado nele, seu feliz
portador ganhava ainda mais preeminência diante do populacho, condenado
aos sapatos rasos, quando tinha sapato. Nesse sentido, pensando bem...
Pensando bem, pelo menos nessa época, o salto alto podia, sim,
ser comparado às asas de Ícaro. Era um equipamento para
subir no prestígio e no privilégio, um andaime para atingir
o sol social.
Hoje o salto alto, a não ser em sentido figurado, quando por "estar
de salto alto" se quer dizer que alguém se comporta com excessiva
confiança nas próprias capacidades e poderes, é exclusivo
das mulheres. Serve para aprumar-lhes o porte. Nas mais bem aquinhoadas,
reforça a sensualidade. Também serve às fantasias
masoquistas, ilustradas, nas gravuras, por mulheres com chicote, ligas
e espetaculares saltos, altos e finos como lâminas, com os quais,
ao pisoteá-las, farão a delícia das vítimas.
Mas não só nesse caso perverso, ou pervertido, o salto alto
é uma temeridade. Ele pode ser audaz a ponto de desequilibrar a
portadora. Há alguns de que, de tão altos, se pode dizer
que ocupam estágio intermediário entre o chinelo e a perna
de pau. Também podem ser imprudentemente finos, finos como a ponta
de um pião, e então o que se exige, daquela que os calça,
é que seja ao mesmo tempo desprendida como um alpinista, tais as
alturas que galga, e hábil como um ás do rodeio, montada
que está em algo arisco como um pião.
Tais considerações, nascidas de madura e exaustiva reflexão
sobre o tema, vêm a propósito não das eleições,
ó leitor obcecado por política, cuja imaginação
desgarrou a supor que aqui se acusará tal ou qual candidato de
ter subido no salto alto, naquele sentido figurado, mas de episódio
ocorrido em outra arena: o desfile em que a modelo Gisele Bündchen
teve um dos sapatos a fugir-lhe dos pés. Raros serão os
que não viram a cena. Ela foi exibida em todas as televisões,
na internet, nos jornais e nas revistas. Trata-se do tipo de evento que,
como os furacões e os atentados terroristas, merece imediata difusão,
no planeta conectado de hoje. Atenção, urgente: Gisele ficou
sem o sapato! Em todo caso, para o marciano que, retido em seu planeta,
perdeu a cena, aqui vai uma rememoração. Gisele calçava
um desses perigosos modelos já descritos, de salto alto e finíssimo.
Ajudava a fixá-lo uma alcinha que se prendia ao redor do tornozelo.
A certa altura, o sapato escapa do pé. Pela alça, no entanto,
continua pendurado ao tornozelo. E eis que Gisele se vê agora não
só com o sapato fora do pé, mas ainda com o impertinente
objeto a estorvar-lhe o passo. A bela prossegue, um pé sim e um
pé não, como se nada tivesse acontecido. O sapato do pé
não, em vez de refinado adereço, virou agora um trambolho,
quase tão incômodo quanto a bola de chumbo dos presos. Mas
ela prossegue... Os comentaristas babam. Que classe, que habilidade! Assim
ela foi até o fim. Que elegância, que Gisele!
O universo da moda é incompreensível. Decifrar-lhe os códigos
é difícil como entrar no pensamento de Wittgenstein, penoso
como ler o Finnegans Wake. Convencionou-se, ali, que elegante é
trotar como cavalo. As modelos hão de ser magras como faquir. E
a cara tem de ser brava nada de sorriso, meninas, cara de quem
acabou de apanhar do papai, e está morrendo de raiva. Fica-se sabendo,
pelo episódio em questão, que também não se
pode reconhecer que se perdeu o sapato. Que faria alguém, no mundo
cá fora? Abaixava-se e o repunha. Ou, então, tirava o outro
sapato, e seguia com os dois pés descalços. Na passarela,
acrescentaria aos atributos da beleza o charme da espontaneidade. Gisele
escolheu, porém, o mais absurdo dos caminhos. Quis, contra todas
as evidências, os olhares e as lentes fotográficas e de TV,
fingir que não perdera o sapato. Foi uma vã tentativa de
iludir. Uma espécie de infantil trapaça. E ainda disseram:
"Que classe!" Pobre Gisele, ela não tem culpa. Vive num mundo engessado
por comportamentos estritos como os de animais amestrados. Isto é
um convite à libertação. Venha para o lado de cá
da passarela, Gisele. Venha para o mundo onde se pode abaixar-se e calçar
de novo o sapato.
Moral
alternativa da história: não há nada que deixe alguém
mais de salto alto do que o próprio salto alto.
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