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O jogo das alianças
Lula refaz
frente de esquerda
de outros pleitos e Serra luta
para recriar a base governista

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O quadro
acima dá a dimensão matemática do desafio que José
Serra e Luís Inácio Lula da Silva têm pela frente
para vencer a eleição no próximo dia 27 de outubro.
Embora sejam resultado de uma simulação feita com base em
dados do primeiro turno, os números mostram quantos votos novos
cada um dos dois candidatos precisa conquistar nas urnas daqui a duas
semanas para sair vitorioso. Considerando que o estoque de votos válidos
no primeiro turno se repita na segunda rodada, torna-se presidente do
Brasil quem reunir 42,5 milhões de votos. De acordo com as contas,
Lula vence se atrair 3,1 milhões de novos eleitores preservando,
é claro, os 39,4 milhões de votos que obteve no primeiro
turno. Serra precisa fazer muito mais. Além de manter o patrimônio
de 19,7 milhões de votos que recebeu em 6 de outubro, deve convencer
outros 22,8 milhões de eleitores. Ou seja: para cada eleitor novo
que o petista conquistar, o tucano precisa de sete votos. Se as características
do primeiro turno se mantiverem no segundo, o desafio de Serra parece
matematicamente intransponível. Mas convém frisar: se nada
mudar de um turno para o outro.
Na tentativa
de mudar alguma coisa, Serra passou a semana empenhado em dinamizar sua
candidatura. Insistiu em realizar o maior número possível
de debates na televisão, mudou o comando de sua campanha e, no
horário eleitoral gratuito, apontará sua artilharia para
Lula num programa inteiramente remodelado mudam os cenários,
os jingles, os atores. Com isso, os estrategistas da campanha de Serra
pretendem passar ao eleitorado a impressão de que, no segundo turno,
o jogo começa do zero, o que qualquer marqueteiro minimamente instruído
sabe que não é verdade. No segundo turno, o jogo é
retomado do ponto onde parou o primeiro turno. Pode até vir a ficar
empatado. O comitê tucano também está empenhado em
reduzir a taxa de votos nulos e brancos, que foi de mais de 10% no primeiro
turno. Isso porque, estudando casos de candidatos que perderam no primeiro
turno e venceram no segundo, os tucanos verificaram que sempre há
aumento expressivo do número dos votos válidos. Em 1994,
na eleição para governador de Minas, ao vencer de virada,
o tucano Eduardo Azeredo ampliou em 21 pontos porcentuais o total de votos
válidos. Em 1998, na sucessão no Rio Grande do Sul, o petista
Olívio Dutra também virou o jogo, com um aumento de 11 pontos
porcentuais desses votos.
Como eleição
não é mero exercício matemático, Lula e Serra
arregaçaram as mangas em outra frente a formação
de novas alianças e a conquista de novos apoios. Nesse capítulo,
o segundo turno voltou a dar mais nitidez ao cenário partidário
e produziu a reaproximação de aliados clássicos.
Lula, que nesta segunda fase da campanha contará com o apoio da
maioria dos governadores eleitos no primeiro turno, conseguiu reconstruir
a frente de esquerda formada em outras disputas presidenciais. Ciro Gomes,
o ex-presidenciável do PPS, anunciou apoio "irrestrito e entusiástico"
ao petista. Anthony Garotinho, do PSB, também fechou com Lula,
mas tem feito tantas críticas públicas ao PT que a adesão
até parece o casamento de divorciados. O PDT de Leonel Brizola
também já embarcou na canoa de Lula. Até a cúpula
do PTB, que, logo depois da eleição, procurou o presidente
Fernando Henrique dando a impressão de que queria bandear-se para
Serra, resolveu ficar com o candidato do PT. "A decisão foi unânime",
diz o presidente do partido, José Carlos Martinez, aquele que,
depois de aparecer enrolado em negócios com PC Farias, sumiu da
campanha de Ciro Gomes. Agora, reapareceu. E com Lula.
O tucano
José Serra, por sua vez, chegou perto de conseguir o que tentou
em vão durante o primeiro turno: recompor a base governista que
esteve ao lado do presidente Fernando Henrique Cardoso nos dois mandatos.
Para isso, contou com a intervenção do próprio presidente,
que, neste início de segundo turno, tem dado sinais de estar mais
disposto a trabalhar por Serra. O tucano já conta com o PPB e,
como resultado de negociações encaminhadas por Fernando
Henrique, o PFL de Jorge Bornhausen resolveu "recomendar" a seus diretórios
que votem em Serra. A decisão não é unitária
nem obrigatória, mas, se sair do papel, poderá ajudar Serra
no projeto de aumentar o número dos votos válidos, já
que os pefelistas têm estrutura em todo o país. Com essa
decisão, o PFL fecha com chave de ouro sua errática participação
nesta campanha presidencial. O partido, antes tão festejado por
seu profissionalismo e infalível faro para o poder, assumiu o projeto
presidencial de Roseana Sarney, depois aderiu à candidatura de
Ciro Gomes e, agora, recomenda voto em Serra. É a última
cartada.
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