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Edição 1 773 - 16 de outubro de 2002
Eleições 2002

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Eleições 2002
 

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O jogo das alianças

Lula refaz frente de esquerda
de outros pleitos e Serra luta
para recriar a base governista









Veja também
Nesta edição
Barrados pelas urnas
Aécio une Minas e mira o Planalto
O Congresso que aguarda Lula ou Serra
1 570 000 votos
Na internet
Noticiário diário no site Eleições 2002

O quadro acima dá a dimensão matemática do desafio que José Serra e Luís Inácio Lula da Silva têm pela frente para vencer a eleição no próximo dia 27 de outubro. Embora sejam resultado de uma simulação feita com base em dados do primeiro turno, os números mostram quantos votos novos cada um dos dois candidatos precisa conquistar nas urnas daqui a duas semanas para sair vitorioso. Considerando que o estoque de votos válidos no primeiro turno se repita na segunda rodada, torna-se presidente do Brasil quem reunir 42,5 milhões de votos. De acordo com as contas, Lula vence se atrair 3,1 milhões de novos eleitores – preservando, é claro, os 39,4 milhões de votos que obteve no primeiro turno. Serra precisa fazer muito mais. Além de manter o patrimônio de 19,7 milhões de votos que recebeu em 6 de outubro, deve convencer outros 22,8 milhões de eleitores. Ou seja: para cada eleitor novo que o petista conquistar, o tucano precisa de sete votos. Se as características do primeiro turno se mantiverem no segundo, o desafio de Serra parece matematicamente intransponível. Mas convém frisar: se nada mudar de um turno para o outro.

Na tentativa de mudar alguma coisa, Serra passou a semana empenhado em dinamizar sua candidatura. Insistiu em realizar o maior número possível de debates na televisão, mudou o comando de sua campanha e, no horário eleitoral gratuito, apontará sua artilharia para Lula num programa inteiramente remodelado – mudam os cenários, os jingles, os atores. Com isso, os estrategistas da campanha de Serra pretendem passar ao eleitorado a impressão de que, no segundo turno, o jogo começa do zero, o que qualquer marqueteiro minimamente instruído sabe que não é verdade. No segundo turno, o jogo é retomado do ponto onde parou o primeiro turno. Pode até vir a ficar empatado. O comitê tucano também está empenhado em reduzir a taxa de votos nulos e brancos, que foi de mais de 10% no primeiro turno. Isso porque, estudando casos de candidatos que perderam no primeiro turno e venceram no segundo, os tucanos verificaram que sempre há aumento expressivo do número dos votos válidos. Em 1994, na eleição para governador de Minas, ao vencer de virada, o tucano Eduardo Azeredo ampliou em 21 pontos porcentuais o total de votos válidos. Em 1998, na sucessão no Rio Grande do Sul, o petista Olívio Dutra também virou o jogo, com um aumento de 11 pontos porcentuais desses votos.

Como eleição não é mero exercício matemático, Lula e Serra arregaçaram as mangas em outra frente – a formação de novas alianças e a conquista de novos apoios. Nesse capítulo, o segundo turno voltou a dar mais nitidez ao cenário partidário e produziu a reaproximação de aliados clássicos. Lula, que nesta segunda fase da campanha contará com o apoio da maioria dos governadores eleitos no primeiro turno, conseguiu reconstruir a frente de esquerda formada em outras disputas presidenciais. Ciro Gomes, o ex-presidenciável do PPS, anunciou apoio "irrestrito e entusiástico" ao petista. Anthony Garotinho, do PSB, também fechou com Lula, mas tem feito tantas críticas públicas ao PT que a adesão até parece o casamento de divorciados. O PDT de Leonel Brizola também já embarcou na canoa de Lula. Até a cúpula do PTB, que, logo depois da eleição, procurou o presidente Fernando Henrique dando a impressão de que queria bandear-se para Serra, resolveu ficar com o candidato do PT. "A decisão foi unânime", diz o presidente do partido, José Carlos Martinez, aquele que, depois de aparecer enrolado em negócios com PC Farias, sumiu da campanha de Ciro Gomes. Agora, reapareceu. E com Lula.

O tucano José Serra, por sua vez, chegou perto de conseguir o que tentou em vão durante o primeiro turno: recompor a base governista que esteve ao lado do presidente Fernando Henrique Cardoso nos dois mandatos. Para isso, contou com a intervenção do próprio presidente, que, neste início de segundo turno, tem dado sinais de estar mais disposto a trabalhar por Serra. O tucano já conta com o PPB e, como resultado de negociações encaminhadas por Fernando Henrique, o PFL de Jorge Bornhausen resolveu "recomendar" a seus diretórios que votem em Serra. A decisão não é unitária nem obrigatória, mas, se sair do papel, poderá ajudar Serra no projeto de aumentar o número dos votos válidos, já que os pefelistas têm estrutura em todo o país. Com essa decisão, o PFL fecha com chave de ouro sua errática participação nesta campanha presidencial. O partido, antes tão festejado por seu profissionalismo e infalível faro para o poder, assumiu o projeto presidencial de Roseana Sarney, depois aderiu à candidatura de Ciro Gomes e, agora, recomenda voto em Serra. É a última cartada.

 
 
   
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