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Montagem com fotos de Pedro Rubens![]() |
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Os dinossauros estão por toda parte. Há empresas-dinossauro, e o Brasil se familiarizou com elas no tempo das estatais. Há países-dinossauro, como Cuba e Coréia do Norte. Existem leis-dinossauro, como a Consolidação das Leis do Trabalho, que desde a década de 40 engessa as relações entre patrões e empregados, contribuindo para a redução das contratações formais de mão-de-obra. Há também políticos-dinossauro. No caso deles, ser jurássico significa uma de três coisas. A primeira: defender idéias deslocadas no tempo. A segunda, e mais inocente, é portar-se de forma provinciana, dando suporte apenas a ações do governo que reforcem seu poder pessoal na localidade onde colhem seus votos. A terceira, e a pior de todas, está relacionada com o aumento suspeito do patrimônio pessoal. Político roubar pode ter sido uma coisa menos repugnante no passado. O eleitor de hoje tem crescente dificuldade de tolerar esse desvio de comportamento.
De tempos em tempos, quando os eleitores são chamados a decidir quem entra, quem sai e quem permanece na política, alguns dinossauros acabam sucumbindo. Em poucas oportunidades, testemunhou-se uma aniquilação como a proporcionada pelas urnas na semana passada. O resultado das eleições caiu como um meteoro sobre o vale dos dinossauros.
Roberto Castro/AE![]() |
Paulo Jares![]() |
| Acima, o ex-presidente Collor, que perdeu a eleição para o governo de Alagoas. A partir dele, em sentido horário, o ex-governador do Rio Leonel Brizola, que chegou em sexto lugar na disputa para o Senado; Paulo Maluf, que fez uma das piores campanhas nos últimos quinze anos; e Orestes Quércia, que ficou muito longe da eleição | |
Eduardo Knapp/Folha Imagem![]() |
Marcio Fernandes/AE![]() |
Foram abatidos exemplares do enricossauro, como o paulista Orestes Quércia e o mineiro Newton Cardoso. Desabaram obsoletossauros, entre eles o engenheiro Leonel de Moura Brizola, e inqueritossauros, cujo exemplar mais vistoso é Paulo Salim Maluf. As ondas de calor produzidas pelas urnas fizeram desaparecer até mesmo um exemplar único do impeachmentossauro: Fernando Collor. Cada uma dessas espécies tem características próprias e um traço em comum. Perdidos no tempo, eles sustentaram-se até agora na política defendendo uma forma inconveniente de lidar com o poder público.
Orestes Quércia e Newton Cardoso sempre intrigaram os analistas pela notável habilidade de fazer fortuna sem se desligar da política, e vice-versa. Quércia acabou em terceiro lugar na corrida para o Senado por São Paulo, 2 milhões de votos abaixo do segundo colocado. Ex-governador de Minas Gerais, vice de Itamar Franco, Newtão era homem forte do PMDB no Estado. No governo, enquanto Itamar se satisfazia em provocar Fernando Henrique Cardoso, o vice Newtão manejava as verbas públicas. Pois bem: com toda essa força, tropeçou nas urnas. Ficou em terceiro lugar na corrida pelo governo mineiro. Enquanto Aécio Neves conquistou 58% do eleitorado, Newton Cardoso ficou com menos de 7% dos votos.
Leonel Brizola é dono de um dos currículos mais longos da política brasileira. Foi governador do Rio Grande do Sul e governou o Estado do Rio duas vezes. Na gestão de Fernando Henrique Cardoso, posicionou-se contra todas as reformas propostas, contra todas as privatizações e contra qualquer projeto de fechamento do ralo da Previdência. Chegou a comandar um movimento em favor da renúncia do presidente. Ao se oferecer como candidato ao Senado pelo Rio de Janeiro, recebeu o troco. Acabou em sexto lugar.
Ed Ferreira/AE![]() |
Ana Araujo![]() |
| Bernardo Cabral, ex-ministro de Collor, que perdeu a vaga para o Senado, e Augusto Farias, irmão de PC, derrotado depois de três vitórias | |
Paulo Maluf respondeu a tantos inquéritos e processos há 73 em curso, na contabilidade mais atualizada que já nem se importa de ser chamado a dar explicações sobre o destino de verbas públicas e saldos de contas bancárias no exterior. Já foi prefeito e governador de São Paulo. Seu grande sonho era ser presidente da República. Sonho arquivado. Nestas eleições, candidatou-se a governador e perdeu a vaga no primeiro turno. Maluf obteve uma de suas piores votações dos últimos quinze anos. A eleição de Fernando Collor ao governo de Alagoas era tida como certa. Os eleitores corrigiram a profecia. Mesmo usando a rede de comunicação da família, que tem rádio, televisão e jornal no Estado, mesmo atacando impiedosamente a honra de Ronaldo Lessa, seu adversário, Fernando Collor perdeu no primeiro turno. Seu prestígio não foi suficiente sequer para eleger o filho deputado federal.
Como são animais fortes, os dinossauros não desaparecem de uma hora para outra. Antes da eleição deste ano, o fim de Paulo Maluf havia sido decretado algumas vezes. Primeiro quando ele perdeu a eleição presidencial para Tancredo Neves no colégio eleitoral, em 1985. Depois, quando acabou em quinto lugar na corrida presidencial de 1989. Após um período de hibernação, Maluf ganhou a disputa para a prefeitura de São Paulo e deu mostras de que estava bem vivo. Voltou a assustar seus adversários quando foi capaz de eleger Celso Pitta, um completo desconhecido, para suceder a ele. Numa de suas primeiras entrevistas concedidas na semana passada depois da abertura das urnas, Maluf avisou que continua na luta. "Não me elegi, mas não morri. Tenho votos para desestabilizar qualquer governo", disse ele. Pela idade, 71 anos, dificilmente voltará a ser uma liderança expressiva. O mesmo se pode dizer de Leonel Brizola, que aos 80 anos de idade está sem cargo público há quase dez. Salvo por uma ressurreição improvável, brizolismo e malufismo a partir de agora parecem ter saído do palco.
O processo de limpeza na política é visível, mas gradual. Os dinossauros vêm sendo escanteados por ordem de importância. Primeiro, tiveram reduzidas as chances de sucesso os animais mais ambiciosos. É por isso que, nesta eleição, há casos mais expressivos de mortandade jurássica entre os candidatos a senador e governador, os chamados cargos majoritários. Deputados têm mais possibilidade de escapar vivos. Aí está Jader Barbalho, eleito deputado federal mais votado do Pará. Ex-senador da República, Jader Barbalho renunciou ao cargo depois de ser apanhado numa série de maracutaias. Jader é acusado de envolvimento num desfalque na extinta Sudam que se desdobra por dezenas de casos e alcança uma rede de operadores muito volumosa. No total, estima-se que a Sudam tenha sido sangrada em valor superior ao bilhão de reais. Além disso, divulgou-se farta documentação mostrando que o ex-senador foi o principal favorecido numa operação irregular feita com dinheiro público no banco estadual do Pará, o Banpará, na época em que governava o Estado. Por causa das denúncias, Jader chegou a ser algemado e encarcerado. Dias antes do pleito, precisou se esconder para escapar de uma nova ordem de prisão. Sua eleição, contudo, não o transforma num vitorioso. Longe disso. Até ser alcançado pelas denúncias, Jader era presidente do Senado e dava as cartas em Brasília. Agora, em vez de cartas, terá de continuar dando explicações tanto à polícia quanto aos colegas, nos corredores do Congresso.
Entre os deputados, há outras espécies jurássicas eleitas, ou reeleitas. É o caso do deputado federal pelo PC do B Aldo Rebelo, autor de um projeto para banir da língua portuguesa palavras e expressões estrangeiras, prevendo até multa em caso de desobediência. As línguas nascem, crescem e desaparecem. São organismos vivos. Elas se influenciam mutuamente, se mesclam, renascem mais adiante em formato novo. Se Aldo Rebelo fosse senador na Roma antiga, teria baixado um decreto proibindo o latim de se deixar influenciar pelos dialetos bárbaros e assim dar origem ao francês, ao espanhol e ao português. Também voltou reeleito o deputado pernambucano Inocêncio Oliveira, do PFL, que se empenhou nas reformas liberais do governo Fernando Henrique Cardoso enquanto lavradores que trabalhavam em regime de servidão foram encontrados numa de suas fazendas. O eleitor também deu cargos representativos a jovens herdeiros de oligarquias, como os parentes de José Sarney e Antonio Carlos Magalhães, sem contar a escolha de sauros de novíssima geração, como Enéas, do Prona, que foi eleito o deputado federal com a maior votação do Brasil.
Viu-se nesta eleição que o brasileiro se livrou de alguns dinossauros representativos de uma categoria de políticos que não mais se ajusta ao país deste início de século XXI, mas elegeu em compensação um parque inteiro de outros dinos. Pelo tamanho dos exemplares arquivados, o serviço teve saldo positivo. Os estudiosos não têm dúvida de que é por meio de um processo de limpezas aparentemente pontuais e circunscritas que as sociedades se transformam. Num país de renda per capita modesta como a brasileira, a melhoria dá-se lentamente no mesmo ritmo em que a população evolui.
A vida republicana registra diversas faxinas súbitas, como o movimento que pôs fim à República Velha e colocou no poder Getúlio Vargas, em 1930, ou o ciclo dos generais, pós-golpe de 1964. Desde a Proclamação da República, e lá se vão 113 anos, o Brasil passou por nove transformações políticas de grande magnitude, mas poucas vezes o agente dessas mudanças foram os eleitores pelo voto direto. Em ambiente 100% democrático, as movimentações são sempre menos ambiciosas. Nas eleições de 1986, estimulado pelo Plano Cruzado, o eleitorado não mudou o regime, mas nocauteou o PFL elegendo governadores do PMDB em 22 dos 23 Estados então existentes. E, ironia do destino, entre as estrelas peemedebistas destacavam-se Fernando Collor de Mello, de Alagoas, Newton Cardoso, de Minas Gerais, e Orestes Quércia, de São Paulo todos asfixiados na semana passada. A faxina deste ano teve uma particularidade. Os eleitores foram às urnas descarregar sua ira não sobre um partido específico ou um segmento político em particular, mas sobre os dinossauros, independentemente da legenda a que estavam ligados. Foram mandados para casa representantes do PSDB, PDT, PPB, PFL, PMDB e até do PT, caso do baiano Waldir Pires. A exemplo de Brizola, Pires é contra tudo, a favor apenas do não pagamento da dívida pública.
Não há nada mais abençoado para a democracia do que a rotina. Os americanos já elegeram 43 presidentes. Com os brasileiros, é diferente. O processo conhece avanços e retrocessos, incessantemente. Em 2002, os eleitores brasileiros puderam votar pela quarta vez consecutiva em candidatos à Presidência. Nunca, em toda a história nacional, a maioria dos cidadãos pôde escolher seu governante quatro vezes sem interrupção. Com esse desempenho, o Brasil ainda é um novato em matéria de democracia. A repetição do ato de votar acaba criando uma pressão por mudanças. "Com a experiência, o eleitor aprende a distinguir as propostas viáveis das impossíveis, os homens bem-intencionados dos grandes malandrões", afirma o cientista político Marcos Coimbra, do Instituto Vox Populi. Com o tempo, a sociedade também adquire novos valores. Nos últimos trinta anos, metade da população deixou o campo, instalou-se nas cidades e compartilhou novos hábitos. Começou a se informar mais. De um lado, cada vez mais pessoas têm acesso a jornais e televisão. De outro, surgiram milhares de associações de moradores de bairros e ONGs que mantêm o olho colado nos políticos.
A sociedade também vem se aparelhando melhor para fiscalizar o poder. Até os anos 80, era praticamente impossível aferir a correção de um parlamentar ou checar como um governador gastava o dinheiro público. Quem quisesse informar-se precisava ter amigos em Brasília. Com as redes de computadores e uma legislação mais atualizada, os parlamentares e a sociedade conseguiram ter acesso mais livre aos gastos do governo e a muitas informações que antes ficavam escondidas. Foi assim, escarafunchando documentação pública, que se conseguiu pegar os anões do Orçamento, que haviam sido denunciados pelo ex-diretor do Congresso José Carlos Alves dos Santos, em 1993. Assim também se desvendou o dinheiroduto montado pela ex-primeira-dama Rosane Collor entre Brasília e sua cidade natal, Canapi. Também surgiram novas instituições para fiscalizar o governo e punir os infratores. Na última década, o Ministério Público tornou-se uma dor de cabeça para os políticos ligados a operações duvidosas. Ações conduzidas pelo MP revelaram o esquema do juiz Nicolau dos Santos Neto, o Lalau, no Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo, e destroçaram PC Farias. Antes de o MP conquistar poderes para vasculhar a vida dos políticos, a vida no vale dos dinossauros era mais fácil. Até 1988, os governadores podiam demitir o procurador-geral, único funcionário que tinha autoridade para processá-los. Na prática, ninguém se arriscava. "Nessa fase, eu não me lembro de nenhum processo movido contra governadores", diz o procurador Antônio Visconti, especialista em história do Ministério Público. Como não se investigava nada, parecia que não se cometiam crimes contra a administração.
A única forma de melhorar a qualidade dos políticos é pela prática cada vez mais consciente do voto. O eleitor afasta os jurássicos, aposta em novas possibilidades e torce para que a troca funcione. Em geral, dá certo e o saldo é positivo. O conjunto parlamentar tende a melhorar a cada eleição, ainda que se consigam localizar as pegadas de vários dinos nas bancadas partidárias. Não há dúvida de que governantes selecionados segundo critérios mais rígidos aplicam de modo mais sério as verbas públicas, e isso retorna para a sociedade na forma de mais escolas, mais hospitais e serviços públicos de mais qualidade. A renovação na democracia decorre de um exercício constante do poder de seleção. O brasileiro está fazendo isso cada vez melhor.
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HÁ QUATRO DÉCADAS NO PODER
Oligarquias costumam sofrer baques quando muda a ordem econômica ou quando seus métodos ficam velhos demais. Mas nada parece tirar o brilho dos clãs de José Sarney, no Maranhão, e Antonio Carlos Magalhães, na Bahia. Eles estão agarrados ao poder desde antes do golpe de 64. O resultado das urnas indica que eles têm fôlego para seguir adiante. ACM havia renunciado ao mandato no Senado para escapar de um processo que apurava sua participação na quebra de sigilo do painel de votação da Casa durante a cassação do senador Luiz Estevão de Oliveira. Recuperou o cargo com uma votação expressiva. Seu grupo conquistou também a segunda vaga em jogo para o Senado, elegeu o governador da Bahia e fez o deputado federal mais votado do Estado: ACM Neto. Sarney também não tem motivos para se queixar. Sua filha, a ex-governadora Roseana Sarney, foi abatida na campanha presidencial, mas elegeu-se com folga para o Senado. A outra vaga foi para um velho amigo dos Sarney, o senador Edison Lobão. O clã também conquistou o governo do Estado e fez o terceiro deputado federal mais votado, Sarney Filho, ex-ministro do Meio Ambiente. Resta saber se os dois agora vão eleger o presidente. Tanto Sarney quanto ACM estão com Lula. |
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Com reportagem de Luis Henrique Amaral
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