
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Arte
é para alegrar
O pintor brasileiro de carreira internacional mais bem-sucedida
fala sobre sua trajetória
e suas andanças no mundo das celebridades
Marcelo Marthe
 |
"Quero
criar pinturas universais, ao alcance
de todos, e que as pessoas vejam um quadro meu e fiquem com um sorriso
no rosto"
|

Acesso rápido |
|
|
|
No
próximo dia 28, o artista pernambucano Romero Britto promoverá
uma festa para comemorar os dez anos de abertura de sua galeria em Miami.
Ele tem mesmo o que celebrar. Filho de uma família pobre do Recife,
começou sua carreira vendendo naturezas-mortas em feiras populares.
Imigrou para os Estados Unidos em 1990 e hoje, com 38 anos, é o
artista plástico brasileiro mais bem-sucedido no exterior. Já
fez pinturas para uma campanha publicitária da vodca sueca Absolut,
criou latinhas para a Pepsi e redesenhou personagens da Disney a convite
da empresa. Britto também conquistou uma legião de clientes
famosos da cantora Madonna ao ex-presidente americano Bill Clinton.
Costuma circular por Miami Beach ao volante de uma Ferrari pintada com
os mesmos motivos geométricos e as cores vibrantes que deram fama
a seus quadros. Romero cobra até 120 000 dólares por uma
tela. No fim do ano passado, ele montou uma galeria em São Paulo
e outra em Londres. Nesta entrevista a VEJA, fala sobre arte, decoração
e seu sucesso entre as celebridades americanas.
Veja Muitos críticos dizem que você não
faz arte, mas entretenimento. Por quê?
Britto
É claro que faço arte. Uma arte simples, direta e positiva.
Eu quero que as minhas pinturas sejam parte do dia-a-dia das pessoas.
Quero criar pinturas universais, ao alcance de todos, e que as pessoas
vejam um quadro meu e fiquem com um sorriso no rosto. Arte é isso.
É para você acordar de manhã e se inspirar. Você
vê um quadro todo colorido e pensa: "Tem tanta guerra aí
fora e aqui na minha casa há tanta coisa boa. Viver não
é tão ruim assim". Eu tento ao máximo não
pensar em nada negativo algo que aprendi com os livros do Dalai
Lama. Quem me critica é gente preconceituosa, que pensa que a arte
tem de ser uma coisa pesada, sempre séria. Que ela precisa retratar
só pessoas torturadas, gente cortando a garganta umas das outras.
Aquele clima do quadro Judite Degola Holofernes, do Caravaggio,
sabe? Quem me critica pensa que a arte deve ser uma coisa de elite e que
artista bom é apenas aquele que trabalha para um grupo de mecenas
e especialistas, para gente cheia de dinheiro e diplomas e capaz de "entender"
o que ele faz.
Veja Mas quem compra seu quadro não é justamente
gente cheia de dinheiro, especialmente dos Estados Unidos?
Britto
Adoro
que a classe rica esteja comprando meus quadros. Mas eu não pinto
só para ela. Fico contente com qualquer human being, ou
melhor, pessoa humana, que se mostre interessada no que faço. Que
importância há em saber que Bette Midler tem um trabalho
meu, que Ted Turner tem um trabalho meu, que o ex-presidente argentino
Carlos Menem e Rosane Collor têm trabalhos meus? Tenho fãs
que não são famosos e nem por isso deixam de ter sensibilidade.
Veja Dessas celebridades que compraram obras suas, alguma
entrou para seu círculo de amizades?
Britto
Várias. A Chelsea Clinton, por exemplo, ficou na minha mesa no
último baile da Cruz Vermelha em Londres. A gente dançou
tanto que ela comentou: "Romero, vão dizer que estamos tendo um
caso". Saiu até uma foto numa revista de fofocas. No baile, falamos
também sobre as roupas das pessoas, sobre os planos dela de sair
da faculdade em que estuda (Oxford, na Inglaterra) por achá-la
muito antiquada e sobre os pais dela, que eu considero um casal bem pra-frente.
Encontro-me sempre com Chelsea e tenho notado que ela não está
mais naquele figurino de filha de presidente. Hoje é uma pessoa
mais independente e com personalidade própria. Outro que me visita
é o senador Ted Kennedy, toda vez que está de passagem pela
Flórida. E tem o Arnold também, claro, ele que é
o maior colecionador de minha arte.
Veja Arnold Schwarzenegger?
Britto
Sim. Ele tem trabalhos meus na sala, no quarto dos filhos, um enorme,
chamado Yellow, na sala de TV, um no estúdio de sua mulher,
em tudo quanto é lugar. São dezoito quadros no total. Toda
vez que eu vou a Los Angeles não deixo de vê-lo. Recentemente,
fiz a capa de um livro alemão que se chama A Bíblia do
Sexo e mandei um exemplar para ele com um bilhetinho que dizia: "Arnold,
eu sei que você está precisando de alguma ajuda nessa área".
Veja Você aceita trabalhar por encomenda e fazer coisas
que combinem com a decoração?
Britto
Olhe, 80% do que eu produzo é por encomenda. Mas é claro
que tenho meus limites. Não aceitaria que alguém viesse
escolher minhas cores, ou dizer para combinar o quadro com o sofá.
Felizmente, até hoje isso não aconteceu. A não ser
que tenha ocorrido e meus funcionários não me contaram.
Agora, se for para dar um ar especial a uma sala especial, não
tenho problemas. A Xuxa, por exemplo, quer que eu faça um trabalho
para sua filha. Eu já fiz o desenho e fui ver a parede em que ela
vai colocar a pintura. É uma parede bem grande num salão
da casa dela não no quarto de Sasha, que já é
todo pintado com motivos infantis. Estou para terminar esse quadro. Ele
é todo cheio de ursinhos.
Veja Você acha que a elite brasileira investe em arte
tanto quanto deveria?
Britto
Há um grupo da elite brasileira que dá atenção
às artes. Mas tem uma boa parte que só está interessada
em comprar jóias, apartamentos, carros, passagens para Miami. Não
quer saber de dar apoio à cultura. As pessoas acabam comprando
coisas que não têm nada a ver, em vez de se fazerem rodear
de arte de verdade. Já entrei em muitas mansões e só
vi pôsteres por todos os lados.
Veja Como você acha que se situa na arte brasileira
atual?
Britto
Olhe, acho que nacionalidade não é uma coisa muito importante
em arte. Cada um faz o seu movimento. É uma coisa assim, tão
líquida, que você pode botar dois copos lado a lado e dizer
que é arte. Se conseguir convencer as pessoas, tudo bem. Tem gente
que junta uns objetos, como fez o (artista francês) Marcel
Duchamp, e pronto.
Veja Ser brasileiro, hoje, ajuda ou atrapalha quem quer fazer
carreira de artista plástico no exterior?
Britto
Pode fazer uma diferença grande se você estiver num lugar
onde ser brasileiro é uma coisa exótica. Na Suécia,
por exemplo. Mas, nos Estados Unidos, ser brasileiro, cubano, polaco ou
chinês dá na mesma. Esse fator não influiu na minha
trajetória. Minha arte é minha arte, e isso basta.
Veja No começo da carreira, em Pernambuco, você
vendia quadros na rua e sua obra ainda hoje guarda algo da arte naïf
produzida pelos pintores folclóricos de lá. Você atesta
essa influência?
Britto
O homem muda o meio ambiente, o meio ambiente muda a pessoa. Nunca vou
poder tirar meu passado de mim, está entendendo? Eu nasci no Recife,
sou brasileiro, essa história toda. Mas há um lado meu que
não lembra em nada o Nordeste. As coisas dos artistas nordestinos,
as cores principalmente, são aquela coisa bem da terra. É
marrom demais para mim.
Veja Você acha que é possível desvincular-se
completamente de suas origens?
Britto
Nasci no Brasil e adoro o país, mas penso em mim em termos universais
e procuro me desgarrar disso para que meu vocabulário seja entendido
em qualquer parte do mundo. Gosto de citar o exemplo de Picasso. Quando
as pessoas falam nele, não pensam em "Picasso, o artista espanhol".
Picasso é Picasso, e ponto final. Está entendendo?
Veja Mas ele sempre fez muitas referências a seu país
em seus quadros. Há todas aquelas obras sobre touradas e mesmo
Guernica, uma denúncia das atrocidades cometidas na Guerra
Civil Espanhola.
Britto
Tudo bem, de certa maneira ele falou de coisas que aconteciam em seu país.
Mas, se você for realmente ler sobre Picasso, vai ver que não
foi por causa do Guernica ou de uns touros que ele ficou famoso.
O que contou foi o Picasso como um todo, está entendendo? Ele foi
maior que tudo.
Veja Além de Picasso, quem mais o influenciou?
Britto
O (francês) Matisse, por causa das cores, e o (americano)
Andy Warhol, por causa de sua ousadia.
Veja Fora das artes plásticas, onde você busca
inspiração?
Britto
Gosto muito de ver desenhos animados e filmes. Mas não qualquer
tipo de filme. Só os que são alegres e têm mensagem
leve. Do Arnold, por exemplo, o único que adorei mesmo é
True Lies. Os outros são brutos demais para meu gosto.
Veja O que você acha d
Gosto muito de ver desenhos animados e filmes. Mas não qualquer
tipo de filme. Só os que são alegres e têm mensagem
leve. Do Arnold, por exemplo, o único que adorei mesmo é
True Lies. Os outros são brutos demais para meu gosto.
Veja O que você acha de outros artistas brasileiros
que estão fazendo sucesso no exterior?
Britto
O que acontece é o seguinte: a pessoa faz uma exposição
num museu ou numa galeria e volta para o Brasil dizendo que o mundo inteiro
aplaudiu. Mas isso é falso. Na verdade, para dizer que faz sucesso
é preciso despertar respeito permanentemente. Eu consegui. Gostaria
que isso mudasse, mas o espaço que a arte nacional tem no exterior
ainda é muito pequeno. Essa é a verdade.
Veja Qual foi a última vez que esteve em vernissage
de um artista brasileiro?
Britto
Deve
ter sido uns oito anos atrás, lá no Recife.
Veja Você teve uma infância humilde. Em algum
momento a situação de privação o levou a pensar
em fazer arte engajada?
Britto
Tinha uma infância dura, passei muito tempo sem dinheiro sequer
para comprar um cheeseburger. Ao mesmo tempo, sempre fui sonhador. Embora
o mundo a meu lado estivesse caindo aos pedaços, quando comecei
a pintar no quintal de minha mãe estava sempre de alto-astral.
Nunca pensei em fazer uma arte atormentada ou ressentida.
Veja Você tem vários clientes políticos,
de Ted Kennedy a Bill Clinton, de Fernando Collor de Mello a Fernando
Henrique Cardoso. Você já pensou em pôr seu trabalho
a serviço da política?
Britto
Quem sabe no futuro. Eu sou um artista jovem. Quero que a minha arte
seja mais que um objeto de admiração e especulação
financeira. Quero que ela ajude as pessoas de várias maneiras.
De certa forma, acho até que já cumpro esse papel, inspirando
as pessoas a viver com felicidade. Não seria lindo se os governos
também resolvessem inspirar os cidadãos de seu país
dessa maneira?
Veja Por que, em vez de grandes centros artísticos,
como Londres ou Nova York, você escolheu viver em Miami?
Britto
Por coincidência. Antes de ir para lá até passei um
ano na Europa. Mas logo que cheguei adorei Miami. Tem tanta coisa a ver
com o Recife o sol, a praia que me apaixonei de imediato.
Miami é a minha cara.
Veja Como se sentiu ao abrir, recentemente, uma galeria em
São Paulo.
Britto
Achei
ótimo, dei uma festa de inauguração para 400 pessoas.
A Rua Oscar Freire é um bom ponto de São Paulo, mas um pouco
parada perto de onde funciona minha galeria de Miami Beach. Talvez porque
aqui as pessoas têm receio de ficar saindo o tempo todo na rua,
por causa da falta de segurança. As notícias que tenho do
Brasil às vezes me assustam, essa coisa de não poder andar
um quarteirão inteiro no meio da rua. Graças a Deus nunca
me aconteceu nada.
Veja Você chama a atenção em Miami com
uma Ferrari toda pintada com motivos de sua obra. Daria para circular
com ela por aqui?
Britto
No Brasil? Acho que não. Ia ter problemas para estacionar.
Veja Um de seus fãs mais entusiasmados no Brasil é
o cirurgião plástico Ivo Pitanguy. Você já
passou pelo bisturi dele?
Britto
Não, claro que não. Por que você pergunta isso? Parece
que eu fiz plástica? No momento, isso nem me passa pela cabeça.
Mas, se um dia eu fizer, será certamente com o doutor Ivo.
Veja Você acha que sua obra terá lugar nos livros
de história da arte?
Britto
Deixo essa questão para os historiadores. Os grandes artistas do
passado não se preocupavam com o que iam dizer deles amanhã.
Alguns artistas ficam pensando, a cada passo que dão, no julgamento
da posteridade. Não é o meu caso. Prefiro pensar no dia-a-dia.
Veja Afinal, o que atrai mesmo as pessoas a uma abertura
de exposição?
Britto
Depende. Você tem de convidar pessoas engraçadas, outras
que têm a ver com seu trabalho, amigos do peito e também
aqueles que só estão indo à festa por causa do champanhe.
Celebridades nem sempre ajudam. Se uma celebridade vai a sua festa, as
pessoas vão ficar mais interessadas em saber dela que de sua arte.
Quando eu estava dançando com a Chelsea naquele baile em Londres,
as pessoas não tinham olhos para mim. Elas só queriam saber
de olhar para ela, está entendendo?
|
|
 |