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Edição 1 734 - 16 de janeiro de 2002
Entrevista: Romero Britto

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Arte é para alegrar

O pintor brasileiro de carreira internacional mais bem-sucedida fala sobre sua trajetória e suas andanças no mundo das celebridades

Marcelo Marthe

 

"Quero criar pinturas universais, ao alcance de todos, e que as pessoas vejam um quadro meu e fiquem com um sorriso no rosto"



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Páginas amarelas de VEJA
2000 | 2001 | 2002

No próximo dia 28, o artista pernambucano Romero Britto promoverá uma festa para comemorar os dez anos de abertura de sua galeria em Miami. Ele tem mesmo o que celebrar. Filho de uma família pobre do Recife, começou sua carreira vendendo naturezas-mortas em feiras populares. Imigrou para os Estados Unidos em 1990 e hoje, com 38 anos, é o artista plástico brasileiro mais bem-sucedido no exterior. Já fez pinturas para uma campanha publicitária da vodca sueca Absolut, criou latinhas para a Pepsi e redesenhou personagens da Disney a convite da empresa. Britto também conquistou uma legião de clientes famosos – da cantora Madonna ao ex-presidente americano Bill Clinton. Costuma circular por Miami Beach ao volante de uma Ferrari pintada com os mesmos motivos geométricos e as cores vibrantes que deram fama a seus quadros. Romero cobra até 120 000 dólares por uma tela. No fim do ano passado, ele montou uma galeria em São Paulo e outra em Londres. Nesta entrevista a VEJA, fala sobre arte, decoração e seu sucesso entre as celebridades americanas.

Veja – Muitos críticos dizem que você não faz arte, mas entretenimento. Por quê?
Britto – É claro que faço arte. Uma arte simples, direta e positiva. Eu quero que as minhas pinturas sejam parte do dia-a-dia das pessoas. Quero criar pinturas universais, ao alcance de todos, e que as pessoas vejam um quadro meu e fiquem com um sorriso no rosto. Arte é isso. É para você acordar de manhã e se inspirar. Você vê um quadro todo colorido e pensa: "Tem tanta guerra aí fora e aqui na minha casa há tanta coisa boa. Viver não é tão ruim assim". Eu tento ao máximo não pensar em nada negativo – algo que aprendi com os livros do Dalai Lama. Quem me critica é gente preconceituosa, que pensa que a arte tem de ser uma coisa pesada, sempre séria. Que ela precisa retratar só pessoas torturadas, gente cortando a garganta umas das outras. Aquele clima do quadro Judite Degola Holofernes, do Caravaggio, sabe? Quem me critica pensa que a arte deve ser uma coisa de elite e que artista bom é apenas aquele que trabalha para um grupo de mecenas e especialistas, para gente cheia de dinheiro e diplomas e capaz de "entender" o que ele faz.

Veja – Mas quem compra seu quadro não é justamente gente cheia de dinheiro, especialmente dos Estados Unidos?
Britto – Adoro que a classe rica esteja comprando meus quadros. Mas eu não pinto só para ela. Fico contente com qualquer human being, ou melhor, pessoa humana, que se mostre interessada no que faço. Que importância há em saber que Bette Midler tem um trabalho meu, que Ted Turner tem um trabalho meu, que o ex-presidente argentino Carlos Menem e Rosane Collor têm trabalhos meus? Tenho fãs que não são famosos e nem por isso deixam de ter sensibilidade.

Veja – Dessas celebridades que compraram obras suas, alguma entrou para seu círculo de amizades?
Britto – Várias. A Chelsea Clinton, por exemplo, ficou na minha mesa no último baile da Cruz Vermelha em Londres. A gente dançou tanto que ela comentou: "Romero, vão dizer que estamos tendo um caso". Saiu até uma foto numa revista de fofocas. No baile, falamos também sobre as roupas das pessoas, sobre os planos dela de sair da faculdade em que estuda (Oxford, na Inglaterra) por achá-la muito antiquada e sobre os pais dela, que eu considero um casal bem pra-frente. Encontro-me sempre com Chelsea e tenho notado que ela não está mais naquele figurino de filha de presidente. Hoje é uma pessoa mais independente e com personalidade própria. Outro que me visita é o senador Ted Kennedy, toda vez que está de passagem pela Flórida. E tem o Arnold também, claro, ele que é o maior colecionador de minha arte.

Veja – Arnold Schwarzenegger?
Britto – Sim. Ele tem trabalhos meus na sala, no quarto dos filhos, um enorme, chamado Yellow, na sala de TV, um no estúdio de sua mulher, em tudo quanto é lugar. São dezoito quadros no total. Toda vez que eu vou a Los Angeles não deixo de vê-lo. Recentemente, fiz a capa de um livro alemão que se chama A Bíblia do Sexo e mandei um exemplar para ele com um bilhetinho que dizia: "Arnold, eu sei que você está precisando de alguma ajuda nessa área".

Veja – Você aceita trabalhar por encomenda e fazer coisas que combinem com a decoração?
Britto – Olhe, 80% do que eu produzo é por encomenda. Mas é claro que tenho meus limites. Não aceitaria que alguém viesse escolher minhas cores, ou dizer para combinar o quadro com o sofá. Felizmente, até hoje isso não aconteceu. A não ser que tenha ocorrido e meus funcionários não me contaram. Agora, se for para dar um ar especial a uma sala especial, não tenho problemas. A Xuxa, por exemplo, quer que eu faça um trabalho para sua filha. Eu já fiz o desenho e fui ver a parede em que ela vai colocar a pintura. É uma parede bem grande num salão da casa dela – não no quarto de Sasha, que já é todo pintado com motivos infantis. Estou para terminar esse quadro. Ele é todo cheio de ursinhos.

Veja – Você acha que a elite brasileira investe em arte tanto quanto deveria?
Britto – Há um grupo da elite brasileira que dá atenção às artes. Mas tem uma boa parte que só está interessada em comprar jóias, apartamentos, carros, passagens para Miami. Não quer saber de dar apoio à cultura. As pessoas acabam comprando coisas que não têm nada a ver, em vez de se fazerem rodear de arte de verdade. Já entrei em muitas mansões e só vi pôsteres por todos os lados.

Veja – Como você acha que se situa na arte brasileira atual?
Britto – Olhe, acho que nacionalidade não é uma coisa muito importante em arte. Cada um faz o seu movimento. É uma coisa assim, tão líquida, que você pode botar dois copos lado a lado e dizer que é arte. Se conseguir convencer as pessoas, tudo bem. Tem gente que junta uns objetos, como fez o (artista francês) Marcel Duchamp, e pronto.

Veja – Ser brasileiro, hoje, ajuda ou atrapalha quem quer fazer carreira de artista plástico no exterior?
Britto – Pode fazer uma diferença grande se você estiver num lugar onde ser brasileiro é uma coisa exótica. Na Suécia, por exemplo. Mas, nos Estados Unidos, ser brasileiro, cubano, polaco ou chinês dá na mesma. Esse fator não influiu na minha trajetória. Minha arte é minha arte, e isso basta.

Veja – No começo da carreira, em Pernambuco, você vendia quadros na rua e sua obra ainda hoje guarda algo da arte naïf produzida pelos pintores folclóricos de lá. Você atesta essa influência?
Britto – O homem muda o meio ambiente, o meio ambiente muda a pessoa. Nunca vou poder tirar meu passado de mim, está entendendo? Eu nasci no Recife, sou brasileiro, essa história toda. Mas há um lado meu que não lembra em nada o Nordeste. As coisas dos artistas nordestinos, as cores principalmente, são aquela coisa bem da terra. É marrom demais para mim.

Veja – Você acha que é possível desvincular-se completamente de suas origens?
Britto – Nasci no Brasil e adoro o país, mas penso em mim em termos universais e procuro me desgarrar disso para que meu vocabulário seja entendido em qualquer parte do mundo. Gosto de citar o exemplo de Picasso. Quando as pessoas falam nele, não pensam em "Picasso, o artista espanhol". Picasso é Picasso, e ponto final. Está entendendo?

Veja – Mas ele sempre fez muitas referências a seu país em seus quadros. Há todas aquelas obras sobre touradas e mesmo Guernica, uma denúncia das atrocidades cometidas na Guerra Civil Espanhola.
Britto – Tudo bem, de certa maneira ele falou de coisas que aconteciam em seu país. Mas, se você for realmente ler sobre Picasso, vai ver que não foi por causa do Guernica ou de uns touros que ele ficou famoso. O que contou foi o Picasso como um todo, está entendendo? Ele foi maior que tudo.

Veja – Além de Picasso, quem mais o influenciou?
Britto – O (francês) Matisse, por causa das cores, e o (americano) Andy Warhol, por causa de sua ousadia.

Veja – Fora das artes plásticas, onde você busca inspiração?
Britto – Gosto muito de ver desenhos animados e filmes. Mas não qualquer tipo de filme. Só os que são alegres e têm mensagem leve. Do Arnold, por exemplo, o único que adorei mesmo é True Lies. Os outros são brutos demais para meu gosto.

Veja – O que você acha d – Gosto muito de ver desenhos animados e filmes. Mas não qualquer tipo de filme. Só os que são alegres e têm mensagem leve. Do Arnold, por exemplo, o único que adorei mesmo é True Lies. Os outros são brutos demais para meu gosto.

Veja – O que você acha de outros artistas brasileiros que estão fazendo sucesso no exterior?
Britto – O que acontece é o seguinte: a pessoa faz uma exposição num museu ou numa galeria e volta para o Brasil dizendo que o mundo inteiro aplaudiu. Mas isso é falso. Na verdade, para dizer que faz sucesso é preciso despertar respeito permanentemente. Eu consegui. Gostaria que isso mudasse, mas o espaço que a arte nacional tem no exterior ainda é muito pequeno. Essa é a verdade.

Veja – Qual foi a última vez que esteve em vernissage de um artista brasileiro?
Britto – Deve ter sido uns oito anos atrás, lá no Recife.

Veja – Você teve uma infância humilde. Em algum momento a situação de privação o levou a pensar em fazer arte engajada?
Britto – Tinha uma infância dura, passei muito tempo sem dinheiro sequer para comprar um cheeseburger. Ao mesmo tempo, sempre fui sonhador. Embora o mundo a meu lado estivesse caindo aos pedaços, quando comecei a pintar no quintal de minha mãe estava sempre de alto-astral. Nunca pensei em fazer uma arte atormentada ou ressentida.

Veja – Você tem vários clientes políticos, de Ted Kennedy a Bill Clinton, de Fernando Collor de Mello a Fernando Henrique Cardoso. Você já pensou em pôr seu trabalho a serviço da política?
Britto – Quem sabe no futuro. Eu sou um artista jovem. Quero que a minha arte seja mais que um objeto de admiração e especulação financeira. Quero que ela ajude as pessoas de várias maneiras. De certa forma, acho até que já cumpro esse papel, inspirando as pessoas a viver com felicidade. Não seria lindo se os governos também resolvessem inspirar os cidadãos de seu país dessa maneira?

Veja – Por que, em vez de grandes centros artísticos, como Londres ou Nova York, você escolheu viver em Miami?
Britto – Por coincidência. Antes de ir para lá até passei um ano na Europa. Mas logo que cheguei adorei Miami. Tem tanta coisa a ver com o Recife – o sol, a praia – que me apaixonei de imediato. Miami é a minha cara.

Veja – Como se sentiu ao abrir, recentemente, uma galeria em São Paulo.
Britto – Achei ótimo, dei uma festa de inauguração para 400 pessoas. A Rua Oscar Freire é um bom ponto de São Paulo, mas um pouco parada perto de onde funciona minha galeria de Miami Beach. Talvez porque aqui as pessoas têm receio de ficar saindo o tempo todo na rua, por causa da falta de segurança. As notícias que tenho do Brasil às vezes me assustam, essa coisa de não poder andar um quarteirão inteiro no meio da rua. Graças a Deus nunca me aconteceu nada.

Veja – Você chama a atenção em Miami com uma Ferrari toda pintada com motivos de sua obra. Daria para circular com ela por aqui?
Britto – No Brasil? Acho que não. Ia ter problemas para estacionar.

Veja – Um de seus fãs mais entusiasmados no Brasil é o cirurgião plástico Ivo Pitanguy. Você já passou pelo bisturi dele?
Britto – Não, claro que não. Por que você pergunta isso? Parece que eu fiz plástica? No momento, isso nem me passa pela cabeça. Mas, se um dia eu fizer, será certamente com o doutor Ivo.

Veja – Você acha que sua obra terá lugar nos livros de história da arte?
Britto – Deixo essa questão para os historiadores. Os grandes artistas do passado não se preocupavam com o que iam dizer deles amanhã. Alguns artistas ficam pensando, a cada passo que dão, no julgamento da posteridade. Não é o meu caso. Prefiro pensar no dia-a-dia.

Veja – Afinal, o que atrai mesmo as pessoas a uma abertura de exposição?
Britto – Depende. Você tem de convidar pessoas engraçadas, outras que têm a ver com seu trabalho, amigos do peito e também aqueles que só estão indo à festa por causa do champanhe. Celebridades nem sempre ajudam. Se uma celebridade vai a sua festa, as pessoas vão ficar mais interessadas em saber dela que de sua arte. Quando eu estava dançando com a Chelsea naquele baile em Londres, as pessoas não tinham olhos para mim. Elas só queriam saber de olhar para ela, está entendendo?

 
 
   
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