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Ensino
religioso: precisa-se
disso?
Da
proscrição de
Darwin nos
Estados Unidos
ao artigo 210 da Constituição
brasileira,
esta é a questão
Nem
o Cadillac nem os ovos com bacon no café
da manhã. Nem a National Rifle
Association, a vitoriosa sociedade que defende
o livre comércio e uso das armas, presidida
pelo ator Charlton Heston, nem o esporte jogado
com ombreiras e capacete abusivamente apelidado
de futebol. Nem o próprio Charlton Heston,
o Moisés do cinema, nem Michael Jackson.
Não. Nenhuma esquisitice americana se
equipara ao que eles chamam de "criacionismo".
Criacionismo, tal como o entendem, é
uma ciência. Opõe-se ao evolucionismo
de Darwin. De acordo com o evolucionismo, o
homem descende do macaco. De acordo com o criacionismo,
foi criado por Deus, tal como está na
Bíblia o homem do barro,
a mulher da costela do homem.
A disputa entre evolucionismo e criacionismo
tem longa história nos Estados Unidos.
Caso célebre foi a condenação,
em 1925, de um professor, John Scopes, acusado
de ensinar evolucionismo aos alunos. No Estado
do Tennessee, onde o fato se deu, o ensino da
teoria de Darwin era proibido por lei. Mais
de setenta anos depois, a questão ressurge.
Repetindo o Tennessee, o Estado do Kansas decidiu
recentemente banir o evolucionismo do currículo
das escolas públicas. O criacionismo
deve ocupar-lhe o lugar.
Trata-se de uma esquisitice, uma bizarria que
distingue os americanos de outros nacionais,
mas que traz em seu bojo um aspecto de interesse
mais universal. Chegaremos a esse ponto. Observe-se
antes que o problema existe nos Estados Unidos,
e só nos Estados Unidos, no mundo ocidental,
porque ali, à semelhança dos países
muçulmanos, mas diferentemente dos demais
países de maioria cristã, o fundamentalismo
religioso tem voz. Sim, porque é de religião
que se trata. O criacionismo não tem
credenciais para se sustentar como ciência.
Origina-se de um livro, a Bíblia,
cuja base não é a experimentação
e a prova, como na ciência, mas a fé,
a beleza literária e a força primeva
do mito.
Num artigo na revista americana Time
(edição de 22 de novembro) o jornalista
Charles Krauthammer matou a charada. A decisão
do Kansas não opôs duas doutrinas
científicas. O que fez foi contrabandear
a religião pela porta da ciência.
Como, em nome dos valores do ensino laico, da
liberdade de crença e da separação
da Igreja e do Estado, não se permite
o ensino da religião nas escolas públicas,
nos Estados Unidos como nos países ocidentais
em geral, lançou-se mão de uma
artimanha pela qual a religião ressurgiu
travestida de ciência. Em suma, o que
se quer é a volta do ensino religioso
nas escolas, o que conduz à pergunta:
por quê? Por que esse recuo, depois da
conquista iluminista que foi libertar a mente
humana da submissão aos dogmas impostos?
Por que tal titubeio, mais de dois séculos
depois da Revolução Americana
e da Revolução Francesa, marcos
fundadores do Estado universal, laico e plural,
tido como o mais capaz de prover a igualdade
e a justiça?
É aqui que a questão deixa de
ser apenas americana. Movimentos em favor da
restauração do ensino da religião
existem em vários outros países
no Brasil inclusive. A Constituição
de 1988 reabilitou o ensino religioso ao estatuir,
no artigo 210, parágrafo 1º, que
ele fará parte do currículo nas
escolas públicas, como matéria
facultativa. A norma é tão polêmica
que em alguns Estados, como São Paulo,
continua letra morta. O ensino de que fala a
Constituição é doutrinação
ou informação? Se doutrinação,
de que religião? Se há alunos
de várias religiões numa classe,
deve haver um professor para cada uma? Separar
os alunos na hora da aula de religião
não é dividi-los? Agrupá-los
em maiorias e minorias? Com isso, abrir o flanco
para preconceitos e hostilidades? Se, ao contrário,
o ensino deve limitar-se à informação,
melhor não será intitulá-lo
História das Religiões? Ou Filosofia
das Religiões?
Vá-se desatar o nó em que se
enroscam tantos pontos de interrogação.
Nem por isso a pressão pelo ensino religioso
diminui, o que reconduz à pergunta: por
quê? De onde vem seu renovado prestígio?
Para parte das pessoas, o problema será
mesmo de fé. Quer-se religião
para os filhos porque se crê, e ponto.
Outra parte, de consideráveis proporções,
neste mundo agnóstico, cientificista
e materialista que é o nosso, terá
outra motivação. Deseja-se o ensino
religioso porque o mundo ficou muito complicado.
Porque as crianças estão fugindo
do controle. Porque as drogas, a violência,
o sexo...
O que nos conduz à conclusão
de que o século termina como começou.
Qual seja, abalado pela questão que Dostoievski
expôs pela boca de Ivan, um dos irmãos
Karamazov: "Se Deus não existe, tudo
é permitido". Os crimes mais hediondos,
segundo Ivan Karamazov, seriam lícitos,
sem a convicção da vigilância
de Deus e a promessa de imortalidade. Do criacionismo
ressurreto no Kansas ao artigo 210 da Constituição
brasileira, a questão subjacente é
a mesma. A dúvida sobre a capacidade
de o bicho homem caminhar com as próprias
pernas. Quem sabe, Deus voltando a dar uma mãozinha....
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