|
|
Lírico
e realista
Obra
de Paulo Mendes Campos
é reeditada em nove volumes
Mario
Sabino
Ari Gomes
 |
|
Mendes
Campos: "O
amor
acaba num
domingo, numa
esquina"
|
O mineiro Paulo Mendes Campos morreu há
oito anos. Desde então, apenas algumas
crônicas suas vêm sendo publicadas,
na maioria das vezes em coletâneas de escritores
dirigidas ao mercado de livros didáticos.
E nem sempre os textos escolhidos são os
mais representativos da obra de Mendes Campos.
Mendes Campos, não, sisudo demais. Paulinho.
Era assim que os amigos do peito e de bar
o chamavam. O relativo ostracismo do autor
termina a partir desta semana. Está chegando
às livrarias O Amor Acaba
(Civilização Brasileira; 269 páginas;
25 reais). Organizado por Flávio Pinheiro,
editor executivo de Veja Rio, o volume
reúne 73 crônicas, das quais 23 são
inéditas em livro. É o primeiro
de um total de nove a ser lançados até
dezembro de 2000. A iniciativa de Flávio
Pinheiro não somente recoloca em circulação
o melhor da produção do escritor
como a organiza por temas: crônicas do país,
autobiográficas, esportivas, de humor,
literárias e perfis. Haverá também
um livro só de frases e outro com toda
a poesia de Paulinho e os poemas que traduziu.
Em
O Amor Acaba, predomina o lirismo. Não
o lirismo funcionário público, erguido
sobre clichezinhos glicosados, que tanto facilita
o trabalho dos que hoje se arriscam na crônica.
Tampouco o desenfreado, já que não
havia propriamente paixão em Paulo Mendes
Campos. O combustível do autor era o seu
realismo essencial. Como poucos (pouquíssimos,
na verdade), ele tinha a consciência de
que tudo na vida é transitório.
Em seus escritos, não há amor eterno
nem enquanto dura, ao contrário
do que acreditava Vinicius de Moraes. Não
existe, enfim, sentimento algum que resista à
volubilidade da alma. Leia-se um trecho do texto
que dá título ao livro: "O amor
acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo
de lua nova, depois de teatro e silêncio;
acaba em cafés engordurados, diferentes
dos parques de ouro onde começou a pulsar;
(...) e acaba o amor no desenlace das mãos
no cinema, como tentáculos saciados, e
elas se movimentam no escuro como dois polvos
de solidão..."
A transitoriedade é o fio condutor de
toda sua obra. Pode estar presente tanto nas entrelinhas
da descrição de uma meninota pré-adolescente
como em considerações sobre o álcool
ou os desquitados que se gostam. Mas não
existe nenhum desalento nessa percepção.
O cronista sabia ser duro, sem perder a ternura.
"Em todos os lugares o amor acaba; a qualquer
hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor
acaba; para recomeçar em todos os lugares
e a qualquer minuto o amor acaba", escreveu. E
foi acreditando nessa vida após a morte
que ele entrou para a história da literatura
brasileira como o Paulo Mendes Campos que desejava
ser Paulinho. Simplesmente.
|