Edição 1 628 -15/12/1999

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Lírico e realista

Obra de Paulo Mendes Campos
é reeditada em nove volumes

Mario Sabino

Ari Gomes
Mendes Campos: "O amor
acaba
num domingo, numa
esquina"


O mineiro Paulo Mendes Campos morreu há oito anos. Desde então, apenas algumas crônicas suas vêm sendo publicadas, na maioria das vezes em coletâneas de escritores dirigidas ao mercado de livros didáticos. E nem sempre os textos escolhidos são os mais representativos da obra de Mendes Campos. Mendes Campos, não, sisudo demais. Paulinho. Era assim que os amigos do peito – e de bar – o chamavam. O relativo ostracismo do autor termina a partir desta semana. Está chegando às livrarias O Amor Acaba (Civilização Brasileira; 269 páginas; 25 reais). Organizado por Flávio Pinheiro, editor executivo de Veja Rio, o volume reúne 73 crônicas, das quais 23 são inéditas em livro. É o primeiro de um total de nove a ser lançados até dezembro de 2000. A iniciativa de Flávio Pinheiro não somente recoloca em circulação o melhor da produção do escritor como a organiza por temas: crônicas do país, autobiográficas, esportivas, de humor, literárias e perfis. Haverá também um livro só de frases e outro com toda a poesia de Paulinho e os poemas que traduziu.

Em O Amor Acaba, predomina o lirismo. Não o lirismo funcionário público, erguido sobre clichezinhos glicosados, que tanto facilita o trabalho dos que hoje se arriscam na crônica. Tampouco o desenfreado, já que não havia propriamente paixão em Paulo Mendes Campos. O combustível do autor era o seu realismo essencial. Como poucos (pouquíssimos, na verdade), ele tinha a consciência de que tudo na vida é transitório. Em seus escritos, não há amor eterno – nem enquanto dura, ao contrário do que acreditava Vinicius de Moraes. Não existe, enfim, sentimento algum que resista à volubilidade da alma. Leia-se um trecho do texto que dá título ao livro: "O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; (...) e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão..."

A transitoriedade é o fio condutor de toda sua obra. Pode estar presente tanto nas entrelinhas da descrição de uma meninota pré-adolescente como em considerações sobre o álcool ou os desquitados que se gostam. Mas não existe nenhum desalento nessa percepção. O cronista sabia ser duro, sem perder a ternura. "Em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba", escreveu. E foi acreditando nessa vida após a morte que ele entrou para a história da literatura brasileira como o Paulo Mendes Campos que desejava ser Paulinho. Simplesmente.