Edição 1 628 -15/12/1999

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O dançarino "linha-dura"

Paulo Jares


A presidência do Clube Militar do Rio de Janeiro já foi um lugar de prestígio para seu ocupante. Desde que foi criado, em 1887, somente uma vez, em 1923, o cargo não foi entregue a um general. Mas agora é muito difícil encontrar um nome de peso na tropa que se disponha a tal função. O atual presidente, general Hélio Ibiapina Lima, ocupa o cargo desde junho de 1996 e já está novamente em campanha para as eleições marcadas para maio do próximo ano. "Sou novamente candidato porque os amigos exigem", assim explica sua terceira candidatura, que pode lhe dar mandato até 2002. O general é um homem animado. Não sabe o que é ficar doente e cuida da saúde com uma alimentação naturalista. Aboliu o cigarro há muito tempo, desconfia dos alimentos industrializados e só bebe de vez em quando um gole de uísque. Um de seus divertimentos preferidos é dançar nos "bailinhos" do Clube Militar (veja foto acima).

Diário de Pernambuco

Viúvo, três filhos e oito netos, ele ainda trabalha bastante. De segunda a sexta-feira à tarde pode ser encontrado lépido e fagueiro na sede do Clube Militar cuidando de exposições, mostras de poesia ou organizando palestras. Também coordena a edição da Revista do Clube Militar, com publicação mensal, distribuição gratuita e tiragem de 30 000 exemplares. A revista serve de panfleto dos chamados nacionalistas e dos militares saudosistas da ditadura. É por onde Ibiapina manda seus recados. Na edição de setembro, o general escreveu artigo contra a privatização da Petrobras, do Banco do Brasil e da Caixa Econômica. É um recado direto, como no tempo da ditadura. Só que agora sem a mínima repercussão. O general foi um dos sustentáculos da chamada linha dura. O nome dele aparece no dossiê Brasil: Nunca Mais, em que são listados os militares acusados de ter praticado tortura. Ele nega.

 

O durão veste o pijama

Oscar Cabral


Newton de Oliveira Cruz já foi um personagem de meter medo, apesar do apelido infantil, "Nini". Aos 75 anos, o general é uma pálida lembrança daquela figura empertigada que saiu às ruas de Brasília sobre um cavalo branco, arrogante, para comandar a repressão a uma passeata no governo Figueiredo. Morando na casa de uma filha no Lago Sul, em Brasília, Nini gasta uma parte do tempo ensinando matemática aos netos, sempre de chinelos, metido num pijama de algodão ou numa bermuda. As aparições públicas do general são limitadas a uma rotina: caminha cinqüenta minutos por dia até uma banca, compra o jornal e volta para casa. O resto do tempo se dedica a cuidar da esposa, que sofre de mal de Parkinson. A doença da mulher o tem impedido de viajar para o Rio de Janeiro, aonde ia com certa freqüência visitar sua outra filha. Quando vai ao Rio, sua cidade natal, o general viaja de ônibus.

Carlos Namba

Nini fez, há pouco tempo, pela primeira vez na vida, um check-up. Ficou satisfeito com o resultado, principalmente o da pressão, de 12 por 8. Na semana passada, recebeu um telegrama do ministro Francisco Dornelles comunicando que havia sido eleito para a direção nacional do PPB. O general não aceitou o cargo. Não quer mais saber de política desde que foi derrotado nas eleições para deputado e governador do Rio. Agora, ele está concluindo o livro Cassado e Caçado por Amor à Pátria, que conta sua passagem pelo poder e uma suposta perseguição do governo Sarney. No livro, ele dedicará um capítulo a sua participação no caso Riocentro. "Eu soube antes, por volta das 20 horas, mas nada podia fazer. Não existia celular na época", comentou recentemente sobre a explosão de uma bomba que dois militares levaram ao centro de convenções Riocentro, no Rio. A maior frustração de Nini foi ter encerrado a carreira como general-de-divisão. Ele era um dos principais candidatos à quarta estrela. Também se ressente da fama de autoritário. "Fiz o que estava amparado em lei. A diferença é que sempre assumi minhas responsabilidades. Não mijo para trás", diz.