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O
censor solitário
A. Belem/Lumiar
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Um general também chora. Aos 83
anos, o paraibano Antonio Bandeira é
um homem amargurado. Sente saudade da
mulher, Léia, que morreu há
dois anos após um infarto. Qualquer
lembrança dela o faz chorar como
criança. Até mesmo quando
revê a farda de gala cuidada pela
esposa. Com freqüentes crises de
depressão provocadas pelo diabetes
e pela solidão, Bandeira nem de
longe parece o militar linha-dura que
reprimiu a revolta comunista de 1935 no
Rio de Janeiro, preparou os soldados brasileiros
para a II Grande Guerra, foi um dos líderes
do golpe militar de 1964 e depois chefiou
as duas primeiras operações
militares de combate à guerrilha
do Araguaia, em 1972. Hoje, divide o apartamento
dúplex de quatro quartos em Boa
Viagem, no Recife, com o neto casado e
uma bisneta. Passa dias inteiros calado
e quase não sai. Só caminha
amparado por outra pessoa ou de cadeira
de rodas, com medo de que a fraqueza das
pernas e a labirintite o derrubem.
Jorge Contijo
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A quem o visita, Bandeira repete sempre
a mesma resposta sobre o regime militar.
"Eu recuperei muita gente", diz, referindo-se
aos estudantes que prendeu e mandou estudar
no exterior quando comandava o IV Exército,
em Pernambuco. Acusado de ter torturado
presos políticos quando servia
na II Brigada de Infantaria em Brasília,
Bandeira nega. "Meu pai nunca participou
de torturas", rebate a filha Márcia.
No ano passado, ela ajudou o pai a divulgar
parte dos documentos sobre o período
militar que guarda em sua casa, o chamado
baú do general. Quando deixou o
comando da tropa que combateu guerrilheiros
no Araguaia, em 1972, o general se tornou
diretor-geral da Polícia Federal.
De lá, comandou a Censura. Entre
maio de 1973 e março de 1974, os
brasileiros só viam na TV, cinema
ou teatro ou liam nos jornais e revistas
o que ele permitia.
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O
colecionador de relógios
Paulo Jares
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Nas
suas caminhadas matinais de 5 quilômetros
pela Avenida Atlântica, no Rio de
Janeiro, onde mora, o general Geraldo
de Araújo Ferreira Braga, hoje
com 77 anos e na reserva desde novembro
de 1985, já recebeu um apelo: "Vocês
precisam tomar conta disso outra vez".
Simpático, Braga ouviu o desabafo
e foi embora. "Não acho que a saída
para a atual crise brasileira seja, de
novo, um regime militar", diz. O general
não se interessa mais por este
assunto que tanto o mobilizou quando estava
na ativa. Após a morte da mulher,
neste ano, o general assumiu as atribuições
de dono de casa. Vive sozinho num apartamento
de três quartos em Copacabana, no
Rio de Janeiro, cuja decoração,
com excesso de enfeites, mantém
intocada. Tem funcionando mais de dez
relógios antigos de parede espalhados
pelo apartamento, uma paixão da
falecida esposa (veja foto abaixo).
Carlos Namba
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Em março de 1964, quando eclodiu
o golpe militar, era oficial do antigo Serviço
de Informações e Contra-Informações
e foi um dos fiéis colaboradores
do então general Castello Branco
na derrubada do presidente João Goulart.
No fim do regime militar, Braga foi consultado
pelo ex-presidente Tancredo Neves e por
seu substituto, José Sarney. Os dois
queriam saber se haveria reação
da "linha dura" militar à transição
para a democracia. Ele fazia parte do gabinete
do ministro do Exército, general
Walter Pires, do governo Figueiredo. Atualmente,
a principal preocupação do
general é com os netos em idade escolar,
a quem ajuda ensinando matemática,
uma de suas especialidades. As outras são
ou eram a guerra química
e o serviço de informações.
Ele não acha que houve ditadura no
país porque o Parlamento continuou
funcionando e havia eleições
em vários níveis, mas admite
que ocorreu tortura por parte dos militares.
"Foram ações isoladas", diz.
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