Edição 1 628 -15/12/1999

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O censor solitário

A. Belem/Lumiar


Um general também chora. Aos 83 anos, o paraibano Antonio Bandeira é um homem amargurado. Sente saudade da mulher, Léia, que morreu há dois anos após um infarto. Qualquer lembrança dela o faz chorar como criança. Até mesmo quando revê a farda de gala cuidada pela esposa. Com freqüentes crises de depressão provocadas pelo diabetes e pela solidão, Bandeira nem de longe parece o militar linha-dura que reprimiu a revolta comunista de 1935 no Rio de Janeiro, preparou os soldados brasileiros para a II Grande Guerra, foi um dos líderes do golpe militar de 1964 e depois chefiou as duas primeiras operações militares de combate à guerrilha do Araguaia, em 1972. Hoje, divide o apartamento dúplex de quatro quartos em Boa Viagem, no Recife, com o neto casado e uma bisneta. Passa dias inteiros calado e quase não sai. Só caminha amparado por outra pessoa ou de cadeira de rodas, com medo de que a fraqueza das pernas e a labirintite o derrubem.


Jorge Contijo


A quem o visita, Bandeira repete sempre a mesma resposta sobre o regime militar. "Eu recuperei muita gente", diz, referindo-se aos estudantes que prendeu e mandou estudar no exterior quando comandava o IV Exército, em Pernambuco. Acusado de ter torturado presos políticos quando servia na II Brigada de Infantaria em Brasília, Bandeira nega. "Meu pai nunca participou de torturas", rebate a filha Márcia. No ano passado, ela ajudou o pai a divulgar parte dos documentos sobre o período militar que guarda em sua casa, o chamado baú do general. Quando deixou o comando da tropa que combateu guerrilheiros no Araguaia, em 1972, o general se tornou diretor-geral da Polícia Federal. De lá, comandou a Censura. Entre maio de 1973 e março de 1974, os brasileiros só viam na TV, cinema ou teatro ou liam nos jornais e revistas o que ele permitia.

 

O colecionador de relógios

Paulo Jares

Nas suas caminhadas matinais de 5 quilômetros pela Avenida Atlântica, no Rio de Janeiro, onde mora, o general Geraldo de Araújo Ferreira Braga, hoje com 77 anos e na reserva desde novembro de 1985, já recebeu um apelo: "Vocês precisam tomar conta disso outra vez". Simpático, Braga ouviu o desabafo e foi embora. "Não acho que a saída para a atual crise brasileira seja, de novo, um regime militar", diz. O general não se interessa mais por este assunto que tanto o mobilizou quando estava na ativa. Após a morte da mulher, neste ano, o general assumiu as atribuições de dono de casa. Vive sozinho num apartamento de três quartos em Copacabana, no Rio de Janeiro, cuja decoração, com excesso de enfeites, mantém intocada. Tem funcionando mais de dez relógios antigos de parede espalhados pelo apartamento, uma paixão da falecida esposa (veja foto abaixo).

Carlos Namba

Em março de 1964, quando eclodiu o golpe militar, era oficial do antigo Serviço de Informações e Contra-Informações e foi um dos fiéis colaboradores do então general Castello Branco na derrubada do presidente João Goulart. No fim do regime militar, Braga foi consultado pelo ex-presidente Tancredo Neves e por seu substituto, José Sarney. Os dois queriam saber se haveria reação da "linha dura" militar à transição para a democracia. Ele fazia parte do gabinete do ministro do Exército, general Walter Pires, do governo Figueiredo. Atualmente, a principal preocupação do general é com os netos em idade escolar, a quem ajuda ensinando matemática, uma de suas especialidades. As outras são – ou eram – a guerra química e o serviço de informações. Ele não acha que houve ditadura no país porque o Parlamento continuou funcionando e havia eleições em vários níveis, mas admite que ocorreu tortura por parte dos militares. "Foram ações isoladas", diz.