Edição 1 628 -15/12/1999

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Atropelado pela democracia

Ana Araujo


O general Octávio Aguiar de Medeiros, aos 77 anos e na reserva desde 1987, não é hoje nem a sombra do homem poderoso que foi durante o governo militar. Ex-chefe do SNI no governo Figueiredo, ele era um militar arrogante, queixo-duro. Hoje, é um homem retraído e sorumbático. Diariamente, vai a um restaurante por quilo (foto acima) próximo de onde mora, no Lago Sul, em Brasília. Entra na fila, escolhe o almoço para ele e a mulher e volta para comer em casa. Uma ou duas vezes por semana vai ao mercado comprar ração para seus cachorros. Essas são suas atividades.


João Ramid


Medeiros é apontado pelos amigos como o símbolo máximo da depressão que acomete alguns generais quando trocam a farda pelo pijama. Durante muito tempo, o general entregou-se à bebida. Hoje, garantem amigos, não bebe mais. Mas prefere ficar escondido.

Com cara e jeito de ditador latino-americano em seus bons tempos, era carrancudo e usava óculos escuros, como o general Augusto Pinochet. Essa foi a imagem que ficou dele. Chegou a imaginar que sucederia ao presidente João Baptista Figueiredo. Foi atropelado pelos ventos da redemocratização. Amigo íntimo do ex-presidente, a quem chama de João, sua vida tornou-se tensa nos últimos meses com a reabertura do inquérito que investigou o atentado a bomba no Riocentro, em 1981. Medeiros pode ser indiciado como um dos responsáveis pela explosão. A suspeita é de que ele, como chefe do SNI, soube do atentado a tempo de impedir, mas nada fez.

Ao ser abordado por VEJA para uma entrevista para esta reportagem, o general respondeu:

– Me deixe em paz. Recebi ordens para não falar.

– Mas o senhor não recebe ordens de mais ninguém!

– Não foi ordem. Foi um pedido.

– Quem fez o pedido?

A resposta é o silêncio.

 

Do quepe ao chapéu de palha

Ana Araujo


Quem encontra hoje o general Danilo Venturini, 77 anos, cuidando de suas 130 cabeças de gado leiteiro numa fazenda a 15 quilômetros do centro de Brasília, pode muito bem confundi-lo com um chacareiro feliz e bem-sucedido. De todos os últimos generais da ditadura, Venturini é um dos poucos que não parecem acabrunhados. Entre os militares daquele período, não esteve entre o grupo de come-abelhas que formavam a linha dura. Defensor da abertura democrática, não se tem notícias de ligações de Venturini com os porões do regime. "Sou um homem feliz e abençoado", diz ele. Católico praticante, está casado há 52 anos com Amarilis e tem três filhos e quatro netos. Com chapéu, bota e calça jeans, toda manhã cuida da fazenda arrendada que anexou a seu sítio particular de 18 hectares. O negócio não dá lucro. O general não sabe o que é ficar doente. Disciplinado, reserva as tardes para ler e organizar as anotações sobre os vinte anos em que ficou no poder.

Carlos Namba

Venturini foi assessor do marechal Castello Branco em 1964. Dois anos depois, tornou-se o primeiro chefe de gabinete do recém-criado Serviço Nacional de Informações, SNI, sob o comando do general Golbery do Couto e Silva. Ainda tenente-coronel, passou seis anos assessorando o general Orlando Geisel, irmão do ex-presidente, na chefia do Estado-Maior do Exército e depois no Ministério do Exército. O currículo de Venturini também inclui dois ministérios, Gabinete Militar e Assuntos Fundiários. Quando era chefe do Gabinete Militar do general Figueiredo, ele foi responsável por um dos assuntos mais turbulentos do país, a política nacional de informática. Venturini discorda da denominação "ditadura" para o regime militar. "O Congresso funcionava, havia eleições e o governo respeitava as manifestações da oposição", diz.