Edição 1 628 -15/12/1999

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Carro usado à venda

Ilustração Alê Setti

Qual é a melhor maneira de vender o Brasil no exterior? Aliás, o Brasil é vendável? E alguém quer comprá-lo? Passei horas e horas pensando nesse assunto, depois de ser apresentado, na Itália, à iniciativa Retrato do Brasil, financiada por uma fábrica de automóveis e pela Embratur. A idéia é aproveitar os 500 anos do Descobrimento para mostrar as glórias nacionais às crianças estrangeiras, distribuindo gratuitamente em escolas de países europeus e latino-americanos quatro documentários que difundem uma imagem positiva do Brasil. Ou seja, exatamente o contrário do que as crianças estrangeiras costumam ver a nosso respeito na TV: nada de favelas, nada de meninos de rua, nada de incêndios nas florestas. Nos documentários, resta apenas o que temos de melhor. Ou, pelo menos, aquilo que os autores do projeto acreditam que temos de melhor. Nos poucos minutos a que tive oportunidade de assistir, há uma abundância de praias com coqueiros, igrejas coloniais e potentes usinas hidrelétricas.

É difícil supor que uma criança inglesa ou francesa, ao voltar da escola, diga aos seus pais que prefere ir ao Brasil em vez de ir à Euro Disney só porque temos potentes usinas hidrelétricas. Bem mais atraente para uma criança européia é a vida de um menor abandonado brasileiro, que mora longe da família, nunca é obrigado a escovar os dentes e ainda se diverte adoidado com cola de sapateiro. Porém suspeito que o intuito dos documentários seja mais ambicioso do que simplesmente incrementar o turismo. O que se pretende é eliminar da cabeça das crianças estrangeiras a nossa fama de subdesenvolvimento. Se, por exemplo, o presidente Clinton tivesse visto esses documentários em sua infância, jamais teria acusado nossos fabricantes de sapatos de explorar o trabalho infantil, como aconteceu recentemente. Para atingir esse objetivo, os dois primeiros documentários exaltam nossas riquezas naturais, enquanto os outros dois tratam de temas como imigração e integração racial. Acho meio estranho falar em integração racial no Brasil, o último país do mundo a abolir a escravidão, mas isso é outro assunto, que prefiro deixar de lado.

O fato é que documentários ufanistas com imagens de usinas hidrelétricas lembram os tempos da ditadura. O modelo de Retrato do Brasil é o cinejornal de Jean Manzon. Ou o programa de TV de Amaral Netto. Há o mesmo tipo de retórica, o mesmo tipo de tomada com grande angular. Como se o país tivesse ficado parado por trinta anos, tanto no debate político quanto na cinematografia. Nada disso é casual, claro. Além das escolas estrangeiras, os documentários também serão apresentados nas escolas brasileiras. Só que em versão ampliada, com onze filmes, graças ao incentivo do Ministério da Cultura. Não cheguei a ver essa parte do projeto, mas o risco é que se transforme numa reedição do velho curso de educação moral e cívica: uma injeção de otimismo e patriotismo em nossas crianças. Não sei se é assim que devemos tentar vender o Brasil. Como se fosse um carro usado, em que se escondem os defeitos, camuflando os pontos de ferrugem, os pneus recauchutados, o motor que perde óleo.