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Carro
usado à venda
Ilustração
Alê Setti
Qual
é a melhor maneira de vender o Brasil no
exterior? Aliás, o Brasil é vendável?
E alguém quer comprá-lo? Passei
horas e horas pensando nesse assunto, depois de
ser apresentado, na Itália, à iniciativa
Retrato do Brasil, financiada por uma fábrica
de automóveis e pela Embratur. A idéia
é aproveitar os 500 anos do Descobrimento
para mostrar as glórias nacionais às
crianças estrangeiras, distribuindo gratuitamente
em escolas de países europeus e latino-americanos
quatro documentários que difundem uma imagem
positiva do Brasil. Ou seja, exatamente o contrário
do que as crianças estrangeiras costumam
ver a nosso respeito na TV: nada de favelas, nada
de meninos de rua, nada de incêndios nas
florestas. Nos documentários, resta apenas
o que temos de melhor. Ou, pelo menos, aquilo
que os autores do projeto acreditam que temos
de melhor. Nos poucos minutos a que tive oportunidade
de assistir, há uma abundância de
praias com coqueiros, igrejas coloniais e potentes
usinas hidrelétricas.
É difícil supor que uma criança
inglesa ou francesa, ao voltar da escola, diga
aos seus pais que prefere ir ao Brasil em vez
de ir à Euro Disney só porque temos
potentes usinas hidrelétricas. Bem mais
atraente para uma criança européia
é a vida de um menor abandonado brasileiro,
que mora longe da família, nunca é
obrigado a escovar os dentes e ainda se diverte
adoidado com cola de sapateiro. Porém suspeito
que o intuito dos documentários seja mais
ambicioso do que simplesmente incrementar o turismo.
O que se pretende é eliminar da cabeça
das crianças estrangeiras a nossa fama
de subdesenvolvimento. Se, por exemplo, o presidente
Clinton tivesse visto esses documentários
em sua infância, jamais teria acusado nossos
fabricantes de sapatos de explorar o trabalho
infantil, como aconteceu recentemente. Para atingir
esse objetivo, os dois primeiros documentários
exaltam nossas riquezas naturais, enquanto os
outros dois tratam de temas como imigração
e integração racial. Acho meio estranho
falar em integração racial no Brasil,
o último país do mundo a abolir
a escravidão, mas isso é outro assunto,
que prefiro deixar de lado.
O fato é que documentários ufanistas
com imagens de usinas hidrelétricas lembram
os tempos da ditadura. O modelo de Retrato
do Brasil é o cinejornal de Jean Manzon.
Ou o programa de TV de Amaral Netto. Há
o mesmo tipo de retórica, o mesmo tipo
de tomada com grande angular. Como se o país
tivesse ficado parado por trinta anos, tanto no
debate político quanto na cinematografia.
Nada disso é casual, claro. Além
das escolas estrangeiras, os documentários
também serão apresentados nas escolas
brasileiras. Só que em versão ampliada,
com onze filmes, graças ao incentivo do
Ministério da Cultura. Não cheguei
a ver essa parte do projeto, mas o risco é
que se transforme numa reedição
do velho curso de educação moral
e cívica: uma injeção de
otimismo e patriotismo em nossas crianças.
Não sei se é assim que devemos tentar
vender o Brasil. Como se fosse um carro usado,
em que se escondem os defeitos, camuflando os
pontos de ferrugem, os pneus recauchutados, o
motor que perde óleo.
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