Eu digo o que penso

O senador que bombardeou os ex-ministros
Mendonça de Barros e Clóvis Carvalho
continua atirando para todos os lados

Eliana Simonetti

"O novo ministro Alcides
Tápias vai ter de provar
que é excepcional. Que
Deus o guarde"
Sergio Lima/Folha Imagem

O senador gaúcho Pedro Simon tem 69 anos de idade e é político há mais de quarenta. Já foi vereador na cidade de Caxias e governador do Rio Grande do Sul. No plano nacional, nunca esteve tão em evidência como agora. Da tribuna do Senado, no fim do ano passado, Simon disse ao então ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros, no meio da confusão da escuta telefônica do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, BNDES, que ele deveria renunciar para ajudar o presidente Fernando Henrique, seu amigo pessoal. Disse-o com jeito histriônico e lógica fulminante e convenceu a todos que assistiam à cena de que Mendonça de Barros não tinha outro caminho a não ser o da renúncia. Mais recentemente, no episódio que acabou derrubando o ministro Clóvis Carvalho, do Desenvolvimento, Simon deu de novo seu beijo da morte. "Se Malan é covarde, como o presidente o tem em seu governo? Ou então Clóvis é um irresponsável. Nesse caso, como o presidente mantém em seu governo um irresponsável?", disse. Simon tem um jeito de político do interior, como Itamar Franco. Tem uma oratória hipnótica, como a do engenheiro Leonel Brizola. Com a vantagem de não carregar os ressentimentos que os outros dois nunca conseguem esconder. Pedro Simon é uma pessoa agradável, um tipo bem simpático, mesmo no momento em que está ajudando a decapitar alguém. Faz discursos quase diariamente no Senado. Reclama do presidente Fernando Henrique e de seus ministros. Da Justiça e dos empresários. E dos políticos, principalmente.

Veja O senhor ajudou a colocar o ex-ministro Mendonça de Barros no paredão com um discurso corrosivo quando houve o escândalo do grampo no BNDES. Agora, em outro discurso de grande efeito retórico, contribuiu para a demissão do ministro Clóvis Carvalho. Suas falas são combinadas com o presidente Fernando Henrique?

Simon Não. Eu falo sempre, e falo o que penso. Nem tenho como combinar nada com o presidente. Não tenho conversado com ele. E o pior é que muitas vezes eu falo e não adianta nada. Na segunda-feira passada, recomendei ao presidente Fernando Henrique que tomasse muito cuidado na escolha do novo ministro do Desenvolvimento, porque este talvez seja o momento mais importante de seu governo. O novo ministro, eu disse, deveria ser um homem sensível, capaz de promover o diálogo entre quem produz e o governo. Até mandei um recado por dois amigos para o presidente, dizendo isso. Por que não escolher um sociólogo? E no fim o escolhido para o ministério foi um banqueiro-empreiteiro.

Veja O senhor conhece o novo ministro do Desenvolvimento, Alcides Tápias?

Simon Não conheço. Mas ele estava no Bradesco como vice-presidente quando aconteceu o problema dos precatórios. Os precatórios começaram em São Paulo, com o Celso Pitta, secretário das Finanças do então prefeito Paulo Maluf, e terminavam no Bradesco. Isso está no relatório da CPI dos Precatórios. O Tápias sai do Bradesco e vai para uma empreiteira. E depois vira ministro. Eu vi uma pesquisa sobre as pessoas de quem o povo menos gosta. Os menos queridos somos nós, os políticos. Depois vêm os empreiteiros e depois os banqueiros. FHC escolheu para o Ministério do Desenvolvimento um empreiteiro e banqueiro. Esse homem vai ter sensibilidade? Surpreendentemente, o presidente do Banco Central está indo bem. Ele trabalhava como braço direito do maior especulador do mundo e eu disse que sua escolha para o BC equivalia a nomear chefe da polícia o chefão do tráfico de drogas. Mas Armínio Fraga está dando certo porque conhece todos os truques dos especuladores do lado de lá. Não me parece que o homem da empreiteira tenha a mesma chance. Ele vai ter de provar que é excepcional. Deus o guarde.

Veja Por que as CPIs acabam em nada?

Simon Você pode dizer que essa ou aquela CPI terminou em pizza. As nossas do Senado estão indo muito bem. A CPI do Collor terminou com a cassação do mandato do presidente, que era o máximo que o Senado podia fazer. Mesmo assim o povo cobra, porque ele continua rico e não aconteceu nada mais. É que CPI não pode tirar o dinheiro de ninguém e não pode botar ninguém na cadeia. A CPI dos anões do Orçamento cassou o mandato de dez deputados. Concluiu os trabalhos e mandou o resultado para a Procuradoria da República. Cabe à Procuradoria enviar para o tribunal. Ali está empacando. A CPI dos Precatórios denuncia governador, prefeito, banqueiro, mostra tudo. Está na gaveta do procurador. Eu tenho um projeto de lei que, se aprovado, fará com que processos que envolvam governadores, prefeitos, deputados, senadores, ou quem mexa com dinheiro público, tenham de ser os primeiros que o delegado investiga, o procurador denuncia e o tribunal julga. Esses processos não podem ficar na fila.

Veja O senhor já assistiu a uma porção de crises. Nós estamos numa crise enorme, em comparação com as outras?

Simon Não. Eu não vejo assim. Ninguém está jogando para o pior. Eu acho que o Brasil vive um momento difícil. Ninguém quer o pior, mas temos de encontrar saídas, soluções. Nós temos uma crise de referência. Os partidos nunca tiveram uma credibilidade tão no chão como agora. A classe política nunca esteve tão desacreditada. O Brasil se transformou em símbolo de duas coisas: da impunidade, porque a não ser ladrão de galinha ninguém vai para a cadeia, e das desigualdades. Nossos pobres são como os mais pobres do mundo e nossos ricos têm arrogância maior que a dos mais ricos do mundo.

Veja O Brasil é um país inviável?

Simon Não. Eu acho que nossa classe política é muito fraca. O povo brasileiro não merece isso.

Veja Mas não é o povo que vota?

Simon Mas não vota no candidato, vota na campanha feita por essa ou aquela agência de publicidade. Acho que os debates nas campanhas, pela televisão, deveriam ser sempre ao vivo. Os programas dos partidos deveriam ser feitos como programas de auditório e transmitidos ao vivo. Como as coisas estão, as pessoas votam num produto.

Veja O senhor acha que o trabalho do Congresso tem sido satisfatório?

Simon Acho um absurdo um Congresso que se reúne apenas de terça a quinta-feira. Deveríamos fazer uma pauta para um mês, que teria de ser votada. Se discutíssemos e votássemos em duas semanas, bem. Se não, trabalharíamos sábado e domingo até esgotar a pauta. Eu estou morando em Brasília para trabalhar assim por minha conta. Na sexta-feira, falei num plenário onde estavam apenas três senadores. Na segunda, a mesma coisa: apenas três deles ouviram meu discurso. O resultado é que o Brasil é governado por medida provisória e por liminar. Ninguém mais quer mandar projeto de lei para o Congresso, para que fique lá mofando. Essa é uma característica das ditaduras.

Veja Por que o Congresso não vota logo as reformas?

Simon Agora o Congresso está querendo votar a reforma política antes do fim do ano. Mas a reforma política não pode ser feita às pressas, só porque é bom para nós. A grandeza de fazer para valer, pensando no país e não no que é bom para os partidos, não existe. Quanto à reforma tributária, ela não sai porque o governo não quer. O governo já conseguiu o que queria. O imposto sobre o cheque, o fundo de emergência, o imposto sobre o lucro das empresas, foram todos prorrogados até o fim do governo Fernando Henrique. Então ninguém mais quer que a reforma seja aprovada. Se o governo quisesse, eu creio que a votação aconteceria.

Veja Se o senhor fosse o presidente da República, escolheria Clóvis Carvalho ou Pedro Malan?

Simon Ali não foi uma questão de opção. Era uma decisão que precisava ser tomada, porque a ofensa que o Clóvis fez foi muito grande, chamar um político de covarde. Quando chama o Malan de covarde, o Clóvis chama o presidente de covarde. Todo mundo sabe que a responsabilidade pela política que está sendo aplicada é do presidente da República. O Malan não tem vida própria, não representa um partido, não tem um grupo, não é dos banqueiros, não é dos empresários. É um tecnocrata de competência, sério, honesto, do qual FHC gostou. Então ali não foi um problema de opção entre Malan e Clóvis ou entre demitir e não demitir. Ele não tinha saída. Se não demitisse, acabava toda a autoridade que ele tinha no governo.

Veja Mas a divergência entre os que querem a estabilidade e os que pedem o desenvolvimento continua.

Simon Essa discussão é infantil. Um país tem de ser estável, nós lutamos muito para ter uma moeda firme. A inflação está sob controle. A desvalorização do real foi menor do que se esperava. É claro que o presidente tem razão de dizer que essa é nossa maior bandeira. Mas também têm razão as pessoas que dizem que deve haver crescimento. Se ficarmos só na base da estabilidade, vamos ter moeda ultra-estável, inflação zero, uma recessão enorme e um monte de gente desempregada. A média tem de ser feita.

Veja O governo de Itamar Franco foi melhor do que o de Fernando Henrique?

Simon O Itamar tinha autoridade. Escolheu um baita ministro da Fazenda, o sociólogo Fernando Henrique. O presidente Fernando Henrique tem autoridade, mas não exercita a autoridade que tem. Às vezes parece que não dá tanta importância a isso. Eu me pergunto se ele não é a pessoa certa para ser do segundo escalão. Uma característica de quem nasceu para ser primeiro é saber dizer não. O Itamar era complicado, mas sabia dizer não. O Fernando Henrique só diz sim. Como ministro, ele tinha muitas iniciativas. Como presidente, tem um ponto fraco: não bate na mesa e diz não quero. Nesse sentido, eu acho que o Itamar tinha uma vantagem em relação a Fernando Henrique.

Veja O modelo venezuelano do presidente Hugo Chávez, que fechou o Congresso e tirou o poder da Suprema Corte, pode vir a ser imitado em outros países da América Latina?

Simon Eu não conheci nenhum regime que diminuindo a democracia melhorasse a vida do povo. Esvaziar o Congresso e a Justiça é um caminho muito perigoso.

Veja O senhor não gosta do nome do novo ministro, Alcides Tápias. Também reclama de Fernando Henrique. O senhor acha que paulistas são muito arrogantes?

Simon Não. É que São Paulo está muito à frente. Tem de fazer um esforço muito grande para conversar com o resto do Brasil. É como os Estados Unidos dialogando com Bolívia, Equador ou Uganda.

Veja O senhor votou no Fernando Henrique?

Simon Votei.

Veja Até onde vai o apoio do PMDB a Fernando Henrique? Se a popularidade do presidente continuar caindo, o partido parte para a oposição?

Simon Quando o presidente Fernando Henrique foi para a televisão dizendo que o candidato dele a sua sucessão é o candidato do PSDB, o que é óbvio e não precisava ser dito, ele rachou sua base de apoio, liberou os partidos. O PFL consolidou a candidatura do Antonio Carlos Magalhães. O Ciro Gomes está crescendo demais. O PSDB tem um grande candidato, que é o governador Mário Covas. O PMDB estava muito sem referência, mas tem o Jader Barbalho, o Sarney, o Itamar, o Requião, e nesse contexto aparece o meu nome. Mas isso não significa que o PMDB esteja saindo do governo. O partido sempre foi uma confusão. Agora, pela primeira vez, tem uma costura interna de respeito. A liderança se entende pelo telefone. Não tem mais bate-boca. Fazemos um trabalho de equipe. Se o partido pensasse no que é melhor para nós, ele sairia do governo, que está desgastado. Mas seria impatriótico fazer isso. Não se pode desestabilizar um governo que ainda tem três anos e meio pela frente. Vamos ficar dando apoio crítico, dizendo o que achamos que temos de dizer, o que achamos que está errado.

Veja O senador Antonio Carlos Magalhães vem se tornando um nome cada vez mais forte, não?

Simon Você conhece a anedota que se conta em Brasília a respeito do ACM? Dizem que ele morreu e foi para o inferno, que é o lugar para onde muita gente acha que ele deveria ir. Mas chegou ao inferno e criou muita confusão para o diabo. O demônio não agüentava mais. Um dia telefonou pra Deus e avisou que estava mandando o ACM para lá. Passou um tempo e o diabo resolveu ligar para Deus e ver o que estava acontecendo. São Pedro atendeu. "Posso falar com Deus?", disse o demônio. "Qual dos dois?", respondeu São Pedro. O Antonio Carlos é um homem muito experiente, é muito envolvente. Hoje, o PFL é ele.

Veja O que está lhe parecendo a volta do Collor?

Simon Ele tem um argumento forte. Foi absolvido pelo Supremo. E os escândalos de hoje são mais graves do que os que se falavam no tempo dele. Eu não acredito que ele tenha sucesso, porque ninguém gosta de café requentado.

Veja O senhor é muito teatral nos seus pronunciamentos no Congresso. Isso é resultado de algum curso de teatro?

Simon Não. Aprendi no tribunal de júri. Sou advogado e fiz 200 júris. É mais do que um curso de teatro. E tenho muito treino em palanques. Ocupei a tribuna do comício político, que é a mais fácil, porque se diz o que se quer e ninguém retruca. A tribuna do Parlamento já é mais difícil, porque sempre tem quem responda ao que a gente está dizendo. Depois, treinei na tribuna acadêmica, que é complicada porque sempre tem um aluno querendo te pegar. Dei aula de economia política e de sociologia. E, finalmente, minha grande escola foi o tribunal de júri, a tribuna mais difícil que há, porque a vida de alguém depende de você.

Veja É bom ser político?

Simon Eu não tenho deixado meus filhos entrarem na política. Financeiramente é muito ruim e a gente paga um preço muito alto.





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