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Made in Brazil

Como o país trata Daniele Hypólito,
sua mais brilhante ginasta

Amauri Barnabé Segalla

Diante das principais rainhas estrangeiras da ginástica, a brasileira Daniele Hypólito, 17 anos, representou na semana passada o papel de Cinderela. Com atuação impecável, ela conquistou a medalha de prata nos exercícios de solo do Campeonato Mundial da Bélgica. Colocação inédita para uma atleta nacional em competições desse nível, a façanha ganhou dimensão ainda mais impressionante quando começaram a vir a público alguns detalhes da carreira de Daniele. Filha de um manobrista e de uma costureira, ela treina num tablado esburacado no Flamengo e está há quatro meses sem receber do clube carioca o salário mensal de 3.000 reais. Nas viagens internacionais, quase sempre tem de tirar do próprio bolso o dinheiro necessário para a alimentação. Numa dessas vezes, o craque de futebol Ronaldinho amenizou o sufoco, com uma doação de 2.000 reais. Ainda assustada com o assédio após o torneio da Bélgica, Daniele deixou claro nas entrevistas quanto foi difícil chegar a um dos primeiros lugares do pódio nessas condições. "Cada grama da medalha de prata tem anos de suor meu e de minha família", afirmou ela.

As dificuldades de Daniele ganham dimensão extra quando comparadas com a rotina das rainhas estrangeiras. Na competição de exercícios de solo, a medalha de ouro ficou com a romena Andreea Raducan, sensação do esporte desde as Olimpíadas de Sydney. Para participar de uma campanha publicitária no começo do ano, Raducan embolsou cerca de 30.000 reais. É pouco quando se compara tal cachê com os milhões recebidos pelos jogadores de futebol, mas equivale a quase um ano do salário de Daniele. A campeã da pontuação geral na Bélgica foi a russa Svetlana Khorkina, 22 anos, que só treina em ginásios climatizados, com aparelhos novos, orientada por uma equipe que inclui um técnico, um nutricionista e um fisioterapeuta. A cada medalha de ouro conquistada em competições estima-se que Khorkina receba uma premiação entre 65.000 e 130.000 reais da confederação russa de ginástica.

A distância entre o Brasil e o Primeiro Mundo em relação a esse esporte não se resume ao tratamento dado às grandes estrelas. Como as atletas da modalidade chegam ao auge muito cedo, entre 14 e 17 anos, países como os Estados Unidos e a Rússia investem pesado na detecção de novos talentos. Eles contam com uma equipe de olheiros encarregados de selecionar as meninas mais promissoras. As escolhidas são levadas a centros especiais, onde moram, estudam e treinam, acompanhadas por técnicos, médicos e nutricionistas. No Brasil, como não existe nada parecido, os talentos são descobertos por acidente. Foi o caso de Daniele. Aos 5 anos, ela gostava tanto de brincar de dar piruetas na rua que pediu à mãe para levá-la a uma academia de ginástica em Santo André, no ABC paulista. Sete anos depois, já estava disputando competições internacionais.

Ao lado da falta de condições para disputar as medalhas em pé de igualdade com as melhores estrangeiras, o temperamento instável de Daniele contribuiu para que a brasileira demorasse a brilhar na ginástica. "Em alguns treinos ela nos deixa a impressão de que será uma campeã e em outros sai chorando do tablado, sem vontade de fazer nada", afirma Ricardo Pereira, técnico da atleta no Flamengo. Por causa disso, a consagração internacional pode ter vindo tarde demais. Estrelas como a russa Khorkina, que continua competindo bem aos 22 anos de idade, são casos raros. Após a maioridade, as ginastas costumam entrar em decadência. Daniele está nesse limite e precisará mostrar que é uma das exceções nas próximas competições importantes – o Mundial de Ginástica da Hungria, em 2002, e as Olimpíadas de Atenas, em 2004.

 

 

   
 

 


Fotos Reuters

 

   
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