Edição 1 653 -14/6/2000

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Victor Sokolowicz

Gore Vidal: presidentes na mira


A Presidência Americana Segundo Gore Vidal
(segunda, terça e quarta às 20h e 0h, no GNT) – A trajetória dos presidentes dos Estados Unidos ao longo da História, de George Washington a Bill Clinton, é o assunto desta série documental em três capítulos. Aula enfadonha de história? Nada disso. Graças à narrativa sarcástica do escritor Gore Vidal, especialista no tema, a vida dos governantes da nação mais poderosa do planeta é vista sob ângulos inusitados, para dizer o mínimo. Entre inúmeras curiosidades, ele mostra como George Washington – o primeiro a ocupar o cargo, no final do século XVIII – usava uma anti-higiênica dentadura de madeira e conseguiu fazer fortuna à custa de seus casamentos. Outro aspecto interessante é que, no século XIX, alguns presidentes se mostravam mais preocupados em jogar golfe e curtir as regalias do poder do que em governar. A série tem uma única limitação: como é de 1996, não inclui os escândalos sexuais de Bill Clinton. Com a língua ferina de Vidal, seria sem dúvida um dos pontos altos.

 

DISCO

XTRMNTR, Primal Scream (Sony Music) - Não se intimide com o amontoado de consoantes que dá nome a este CD. Há uma explicação singela: o disco deveria chamar-se Exterminator, mas o vocalista da banda resolveu abolir as vogais simplesmente por não gostar delas... Graças a tiradas infames como esta, o britânico Bobby Gillespie, líder do Primal Scream, tornou-se mestre na arte de fazer gênero. Ele seria apenas mais um roqueiro chatóide se não fosse capaz de operar um milagre: desde o final dos anos 80, seu grupo vem se superando em qualidade a cada disco que lança. A rapaziada conseguiu evoluir do pop psicodélico à batida tecno ultradançante, mantendo o vigor e a identidade. Em XTRMNTR, eles não só comprovam isso como também investem na variedade musical. Tem rock pesado (Accelerator), uma balada triste (Keep Your Dreams), um hit de arrasar nas pistas (Swastika Eyes) e outras ótimas surpresas. Pop de primeira.

 

LIVROS

Marcos Rosa

Galbraith: os bastidores do poder mundial

Contando Vantagem, de John Kenneth Galbraith (tradução de Flávia Villas-Boas; Record; 206 páginas; 25 reais) – Lenda viva do pensamento econômico liberal, John Kenneth Galbraith, nascido no Canadá em 1908, rompeu a barreira dos 90 anos perfeitamente lúcido. Este livro é um testemunho saboroso disso. O autor relata, em tom de conversa, o relacionamento mantido por ele com líderes mundiais e outros notáveis. Entre as pérolas do volume estão os capítulos dedicados aos presidentes americanos Franklin Roosevelt e John Kennedy (e também às suas mulheres, Eleanor e Jacqueline). Atenção ainda para o polêmico perfil do nazista Albert Speer – segundo Galbraith, o único "inimigo digno" entre os ex-colaboradores de Hitler.

O Cão de Terracota, de Andrea Camilleri (tradução de Joana Angélica d'Ávila Melo; Record; 255 páginas; 27 reais) – Quem é fã dos grandes detetives da literatura, como Sherlock Holmes ou Philip Marlowe, deve abrir espaço nessa galeria para um recém-chegado: Salvo Montalbano. O leitor brasileiro já havia tido contato com esse investigador siciliano no livro A Forma da Água, mas o novo romance de Andrea Camilleri confirma que Montalbano é um herói e tanto. Brilhante, galanteador e amante dos vinhos, desta vez ele captura um chefão da Máfia, além de investigar assassinatos cometidos há cinqüenta anos.

 

FILME

Divulgação

Entre as Pernas: cenas picantes


Entre as Pernas
(Entre las Piernas, Espanha/França, 1999. Estréia nesta sexta-feira em São Paulo e Rio de Janeiro) – Se você ainda tem alguma dúvida sobre o vigor do novo cinema espanhol, experimente conferir este suspense estrelado pelos excelentes Javier Bardem e Victoria Abril – ambos figurinhas conhecidas das produções de Pedro Almodóvar. Entre as Pernas parece um filme de Alfred Hitchcock à moda latina. O casal protagonista se conhece num grupo de ajuda para viciados em sexo. Seguem-se traições, assassinatos e cenas picantes, tudo com aquele tempero melodramático tipicamente espanhol. Surpreendente até o fim.

 

OS MAIS VENDIDOS — Crítica

No mercado editorial, o conto é o primo pobre e o romance, o primo rico. Por algum motivo obscuro, as pessoas relutam em comprar coletâneas de narrativas curtas. Pena. No decorrer da História, foi nos contos que o talento literário brasileiro se manifestou com mais constância e generosidade. Quase todos os grandes escritores do país fizeram contos primorosos. Pois bem, leitor: nunca é tarde para mudar de hábitos. E uma ótima oportunidade está no livro Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século (Objetiva; 620 páginas; 49,90 reais), que aparece nesta semana na lista de mais vendidos de VEJA.

 

O escritor mineiro Guimarães Rosa:
ausente
do volume

A coletânea foi organizada pelo professor carioca Italo Moriconi. Apesar de suas credenciais universitárias, Moriconi fez uma seleção guiada pelo prazer da leitura, e não por considerações acadêmicas. Em outras palavras, o livro é para o leitor comum. E funciona. As únicas considerações "teóricas" do organizador estão na introdução e em seis brevíssimas notas, que dividem o volume em seções. No mais, é desfrutar as obras de autores que vão de Machado de Assis a Clarice Lispector, de Carlos Drummond de Andrade a Rubem Fonseca. O único problema grave do livro é a ausência de Guimarães Rosa. A editora Objetiva não obteve autorização para reproduzir textos dele. A sugestão é que o leitor transforme os "100 melhores contos brasileiros" em 102. E procure por si mesmo as duas obras-primas do escritor mineiro: A Terceira Margem do Rio e A Hora e a Vez de Augusto Matraga.

Carlos Graieb

 

Fontes: São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Nobel; Rio: Saraiva, Laselva, Sodiler; Porto Alegre: Saraiva, Livraria Ed. Porto Alegre, Sulina; Brasília: Sodiler, Siciliano, Saraiva; Maceió: Sodiler; Recife: Sodiler, Saraiva; Natal: Sodiler; Fortaleza: Laselva; Curitiba: Livraria Curitiba, Saraiva; Belo Horizonte: Leitura.