Edição 1 653 -14/6/2000

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A griffe e o aviãozinho

A sugestão de facilitar aos jovens das favelas
a compra de artigos da moda esconde
um apelo desesperado

Que há em comum entre a griffe e o "aviãozinho"? Pelo menos, há uma coincidência histórica: ambos surgem na mesma época, em algum ponto da década de 80. A griffe sabe-se o que é: "garra", em francês. Ou, no nosso tempo e no nosso mundo, a marca de um produto comercial, tão forte, ou tão fortemente trabalhada, junto à cabeça do consumidor, que pega como garra. O aviãozinho, segundo a gíria que, do Rio de Janeiro, se espalhou pelo país, é o menino que, a mandado dos traficantes, leva e traz a droga. Faz tempo que, na História e na mitologia, a criança é associada a mensageiros. A criança Éros é um mensageiro do amor. Os anjos da tradição judaico-cristã também são mensageiros e, na pintura – a barroca, por exemplo –, são quase sempre crianças. Os três – Éros, os anjos da Bíblia e o aviãozinho – têm ainda em comum o fato de portar asas – ou, no caso do aviãozinho, invocar engenhos alados. A diferença é que os anjos e Éros são mensageiros do céu e do Olimpo. O aviãozinho vive também num lugar alto, o morro, mas o destino mais freqüentemente o precipitará aos infernos da violência, da casa de correção, da morte prematura.

A afirmação de que a griffe e o aviãozinho surgem ambos na década de 80 requer explicação. Não que a griffe inexistisse antes. A da moda, que aqui nos interessa mais de perto, existe pelo menos desde Chanel e Dior, ou seja, desde os longínquos primórdios do século XX. Mas a explosão da griffe, sua massificação e vulgarização, é recente. Chanel e Dior só faziam sentido para o mundo dos ricaços, poucos e fechados em si mesmos. Nos anos 80, a griffe rompe as últimas barreiras. Seu poder sedutor deixa de agir só sobre um grupelho de privilegiados. A droga, e mais especificamente a cocaína, também vinha de longe. Mas sua explosão ocorre nos mesmos anos, e de tal forma que seus pontos-de-venda se multiplicam pelos morros, e dão origem a figuras como a do aviãozinho.

Estas considerações vêm a propósito de uma reunião realizada no último dia 1º no Ministério da Justiça, entre autoridades do governo, inclusive o próprio ministro da Justiça, e representantes de comunidades de favelados do Rio de Janeiro e de Belo Horizonte. O objetivo era discutir medidas que sirvam ao plano antiviolência em elaboração no governo. Um dos presentes, o carioca Celso Peres, líder comunitário no Morro da Mangueira, sugeriu que se instituísse uma espécie de bolsa para que os jovens favelados pudessem comprar os produtos da moda. É por cobiçá-los, argumentou, que eles se envolvem com o crime. O jornal O Estado de S. Paulo noticiou a sugestão numa nota cujo título era "Surrealismo".

O governo instituir uma bolsa para que os meninos e meninas do morro comprem tênis X, camiseta Y e jeans Z, vá lá, seria surrealismo. Mas o diagnóstico de Celso Peres aponta para uma questão crucial. Que são as crianças do morro nascidas a partir dos anos 80? São seres expostos à confluência de dois fenômenos então recentes: a universalização da televisão e o maciço investimento da indústria e do comércio no consumidor juvenil. A TV, àquela altura presente em cada recanto, mesmo na favela, traz o apelo ao consumo por via das novelas, dos anúncios ou da Xuxa. E entre os artigos que oferece, ao contrário dos tempos de Chanel, em que moda era coisa para pessoas maduras, e só para elas, inclui-se uma vasta gama de itens direcionados aos jovens. A griffe, e em especial a griffe que fala aos jovens, é uma deusa tão presente que se insinua até pelas frestas do barraco.

Na explosão simultânea da griffe e da cocaína há mais que uma coincidência histórica, na verdade. Há uma colisão. A griffe vinha de um lado, a cocaína de outro, e ambas produziram uma pororoca que estourou na cabeça do aviãozinho. Engana-se, no entanto, quem pensa que a griffe é apenas uma griffe. Não, o tênis da marca da moda não é apenas um tênis. É o título de sócio de um clube. É a maneira de proclamar aos outros, e ao mundo, e a si mesmo, que se tem pelo menos o pé no time dos melhores, os mais bem-sucedidos, os bacanas. Não são poucos os que se aventuram pelos riscos do ofício de aviãozinho, e daí para o crime, movidos pelo desejo de entrar nesse time.

Ao estabelecer a relação entre o apelo do consumo e a opção pelo crime, entre os jovens, não se está aqui oferecendo novidade alguma. Novidade é o que Celso Peres, o representante da Mangueira, propõe: um subsídio que substitua o tráfico, como meio de o jovem ter acesso aos artigos da moda. De certa forma, é uma rendição ao consumismo. Um segundo caminho seria oferecer aos jovens outros valores como alternativa, mas talvez esse seja ainda mais complicado, e até surrealista, para repetir a palavra usada no Estado, dada a força com que já se implantou o consumo. O certo é que por trás do diagnóstico de Peres se esconde uma questão-chave e se insinua um apelo desesperado. Que oferecer aos jovens? Os jovens (e as crianças) pobres são uma presa fácil demais, frágil demais, num mundo em que o glamour das griffes se sobrepõe à feia realidade que os cerca.