Edição 1 653 -14/6/2000

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Geral
Greenpeace dá aval a madeireira
Tratamento alternativo não ajuda na cura do câncer
OMS muda fórmula para medir a expectativa de vida
O perigo de ser magra como as modelos
Canadenses se rebelam contra o exagero nos perfumes
O Vasco contrata nadadora polêmica
Operação plástica de nariz deixa de ser radical
O manual de instrução para os puxa-sacos
Você é um bom bajulador?
Urnas antropomorfas encontradas na Amazônia

O novo avião da Airbus, com academias e camarotes
O tráfico de ecstasy envolve filhos da classe média
Como lidar com o veneno do ciúme
Teste exclusivo: Ciúmes
A ajudante-de-ordem classe A de Itamar
Votação pode permitir a entrada de capital externo
Economia e negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Colunas
Stephen Kanitz
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
Veja recomenda
Os mais vendidos

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


 

Comunicação sem barreiras

Câmara vai votar emenda constitucional que
abre as empresas de comunicação à participação
estrangeira – e vai modernizar o setor

 
Fotos Ana Araújo
Foto
Michel Temer, presidente da Câmara, e o relator da emenda, Henrique Alves: articulação com empresários e políticos para chegar ao consenso e obter a maioria de três quintos a favor da mudança constitucional

A abertura econômica vem derrubando alguns tabus muito bem plantados. Um deles: a idéia de que a indústria brasileira se derreteria se não estivesse protegida por enormes barreiras às importações. Outro: o temor de entregar à gestão privada serviços públicos considerados estratégicos, como a distribuição de energia, a administração de estradas ou a telefonia. Até a Petrobras, sacratíssima vaca do nacionalismo, cedeu espaço para que o capital estrangeiro prospectasse petróleo em solo pátrio. O trabalho de tirar o pó da estrutura econômica nacional não está concluído, mas agora é preciso espanar prateleiras altas, onde a poeira é mais fina e a operação, mais delicada. Na fila dos projetos a ser submetidos ao Congresso está a emenda ao artigo 222 da Constituição, que mexe com um setor sensível como uma buzina – aquele que congrega as emissoras de TV e rádio e as editoras de jornais e revistas – e que pode entrar em votação na Câmara nesta semana.

A emenda está em pauta para ser votada pela Câmara na quarta-feira. Em seguida será enviada ao Senado. Se passar, ela trará algumas novidades que mostram a grossura do gesso que tem mantido o setor da comunicação imobilizado:

.Hoje, estrangeiros e pessoas jurídicas, mesmo que brasileiras, não podem ter participação alguma em emissoras de televisão ou rádio. As redes de TV brasileiras têm, todas elas, um dono, uma pessoa física. De acordo com a proposta que tramita no Congresso, 30% do capital das emissoras poderá pertencer a pessoas jurídicas, sejam nacionais ou estrangeiras.

.Atualmente, estrangeiros também não podem investir em empresas que publiquem jornais e revistas. Pessoas jurídicas podem ter uma participação no capital, de até 30%, mas sem direito a voto. Se o projeto de emenda constitucional for aprovado, pessoas jurídicas nacionais poderão ser donas de editoras de jornais e revistas (ou seja, poderão comprar 100% do capital de editoras). O investimento estrangeiro será permitido, mas ficará limitado a 30%.

.Em todos os casos, os estrangeiros não poderão ter o controle intelectual e administrativo das empresas de comunicação. Esse é um ponto pacífico, que não sofrerá alteração com a aprovação da emenda, tal como ela está.

"A reserva de mercado é um anacronismo. A emenda pretende permitir que o setor de comunicação se capitalize, se reorganize e atinja a maioridade", diz o ministro Aloysio Nunes Ferreira, secretário-geral da Presidência da República e pai da idéia de emendar o Artigo 222 da Constituição, que trata da comunicação. Não há mesmo razão para manter o antigo modelo. A sofisticação dos processos de produção na TV, em jornais e revistas exige hoje, dos donos de empresas de comunicação, uma grande capacidade de investimento. O lançamento de uma revista semanal pode requerer recursos da ordem de 40 milhões de dólares. Os investimentos dos grupos Folha e Globo no jornal econômico Valor, lançado no início de maio, somaram cerca de 50 milhões de dólares.


Regis Filho
Luís Frias, do Grupo Folha: a abertura à participação de estrangeiros nas empresas jornalísticas é ultraliberal. "Desnacionalizar o setor de comunicação seria um desastre"


Essa realidade é incompatível com uma lei que, ao nascer, em 1934, estabeleceu que apenas pessoas físicas nascidas e domiciliadas no país poderiam ser donas de jornais e revistas. "Não existem sócios, pessoas físicas, com capacidade para fazer os investimentos que o setor requer", diz José Carlos de Salles Gomes Neto, presidente da Associação Nacional das Editoras de Revistas. As regras em vigor são ruínas do espírito que predominava no período de entreguerras. O mundo acabara de viver o primeiro conflito mundial e a tensão ainda predominava na relação entre as nações. Uma das preocupações nacionais era o controle sobre a comunicação, para evitar que jornais e rádios se transformassem em instrumentos de propaganda de Estados hostis. O governo de Getúlio Vargas adotou o preceito, que ia bem tanto com o espírito nacionalista que o país vivia naquele momento quanto com a política de reservar atividades para a oligarquia dominante.

O curioso é que o anacronismo se tenha mantido por tanto tempo. Da Constituição de 1934, a idéia foi copiada para a duríssima Carta de 1937, outorgada por Vargas e inspirada nos modelos fascistas. Depois se repetiu na de 1946 e se manteve na de 1967, baixada sob a égide do governo militar. Chegou, finalmente, à Carta de 1988, produzida já em clima de democracia. Nessa versão, abriu-se uma pequena brecha na legislação, que passou a permitir que pessoas jurídicas brasileiras assumissem até 30% do capital sem direito a voto das empresas de comunicação.


Roberto Loffel
Aloysio Nunes, secretário-geral da Presidência da República e autor do projeto de emenda: mudança na Constituição, contra o anacronismo da reserva de mercado


É por estar gravada na Constituição que essa norma é tão difícil de alterar. O caminho para emendar a Constituição é tortuoso e íngreme. O texto da emenda, apresentado pelo relator da comissão especial que discutiu o assunto, o deputado Henrique Eduardo Alves, terá de ser aprovado por maioria de três quintos dos membros da Câmara e do Senado, em duas votações em cada uma dessas Casas. Isso significa obter a aprovação de 308 deputados e 49 senadores. Qualquer mudança, em qualquer uma dessas etapas, faz o processo retroceder à Casa anterior para começar novamente a via-sacra.

Não há resistência aos termos da emenda da parte das empresas ligadas à imprensa escrita. A única preocupação dos donos de jornais e revistas é assegurar que o controle das empresas permaneça com o capital nacional – não mais restrito a pessoas físicas. "Comparada com o Primeiro Mundo, a abertura para a participação de até 30% do capital estrangeiro é ultraliberal. Seria um desastre desnacionalizar um setor que mexe com a opinião pública", diz Luís Frias, presidente da empresa Folha da Manhã, dona do jornal Folha de S.Paulo.

Na área eletrônica a emenda estabelece que as emissoras de TV e rádio continuarão com o capital controlado em 70% por pessoas físicas e brasileiras – ou seja, as pessoas jurídicas, mesmo que brasileiras, poderão ter apenas 30%. Essa restrição reduz a possibilidade de que companhias internacionais venham a controlar alguma emissora indiretamente, por meio de participações acionárias em outras empresas. Também pode diminuir o interesse dos investidores estrangeiros e dificultar a vida das emissoras menores. Sozinha, a líder Globo atrai, em média, 40% da audiência da TV no Brasil e absorve cerca de 55% dos 2,4 bilhões de dólares da publicidade (veja quadro acima). Na segunda fileira vem o SBT, com média de 18% de audiência e uma fatia de 20% da publicidade. A única hipótese de alteração nesse quadro seria a entrada de capital externo, turbinando concorrentes.

Com a abertura do mercado se desenhando no horizonte, os investidores começaram a rondar as empresas. "É um assédio normal porque o setor de telecomunicações está cotado como um dos que oferecem maior expectativa de resultados no mercado internacional", diz João Carlos Saad, diretor da Rede Bandeirantes. Existem no país 3.800 emissoras de rádio, a maioria vivendo em condições financeiras rasas. Existe uma oportunidade de criação de grandes cadeias, capazes de oferecer um serviço melhor. Na área da imprensa escrita o panorama não é muito diferente. O interior de São Paulo, por exemplo, é uma das regiões mais desenvolvidas do país e é mal servido pela imprensa local.

A abertura do setor de comunicação facilitará a vida das empresas e também beneficiará o consumidor. Como resultado da injeção de novos recursos, deve aumentar a concorrência no setor. Empresas poderão surgir, outras se fortalecerão com associações. Leitores, telespectadores e ouvintes terão disponíveis, seguramente, jornais, revistas, TVs e rádios melhores. Para que esse processo dispare, falta apenas aparelhar o país com uma lei que esteja em sintonia com o mundo em que vivemos. É essa a chance que o Congresso poderá oferecer à sociedade com a votação prevista para esta quarta-feira.