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Edição
1 653 -14/6/2000
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A prisão da filha do embaixador Sérgio Amaral com 260 pílulas chama a atenção para a disseminação da droga sintética que conquista os jovens brasileiros nas casas noturnas. O alucinógeno é ilegal e não se conhecem seus efeitos a longo prazo Fabio Schivartche
A prisão da estudante universitária Manuela Kirschner do Amaral, de 22 anos, na semana passada, suscitou surpresas. A reação explica-se por dois motivos. Em primeiro lugar, Manuela, que foi indiciada por tráfico de entorpecentes, é filha do embaixador brasileiro em Londres, Sérgio Amaral, ex-porta-voz do presidente Fernando Henrique Cardoso. Segundo, o caso envolve uma droga até bem pouco tempo atrás restrita a pequenos grupos antenados com as novidades do mundo dos alucinógenos. Viu-se que o ecstasy, conhecido como "droga do amor" ou simplesmente "E", saiu dos guetos e está se popularizando entre os jovens brasileiros. Às 2 horas da tarde de segunda-feira, Manuela e o namorado, Chrystian Alexejwitch von Rogoschin, um paranaense de 24 anos, receberam ordem de prisão no apartamento em que ela mora com o filho de 4 anos em Brasília. O casal havia acabado de receber, via Sedex, uma caixa de papelão endereçada a "Manoel E". Os policiais acharam dentro do pacote um bicho de pelúcia recheado com 260 pastilhas de ecstasy. Na casa da filha do embaixador, foram encontrados ainda 15 gramas de maconha e dois cachimbos para o consumo da erva. Na quinta-feira, a Justiça aceitou o pedido de relaxamento de prisão da estudante e ela foi solta no dia seguinte. Von Rogoschin, que responde a processo por tráfico de maconha no Paraná, permaneceu detido.
No início, o ecstasy era usado sobretudo pela comunidade gay e ravers freqüentadores das chamadas raves, as megafestas que reúnem milhares de pessoas ao som de música tecno. Por trás de toda essa agitação está o movimento clubber, que aos poucos foi conquistando danceterias e boates das grandes cidades brasileiras, principalmente São Paulo. Os clubbers, com seus cabelos coloridos, roupas brilhantes, piercings e tatuagens espalhados pelo corpo, são geralmente jovens de classe média alta, com cacife para desembolsar até 50 reais por uma única drágea. É gente com disponibilidade para só sair para dançar depois das 3 da manhã e voltar para casa no meio da tarde seguinte. Dançam até não mais poder ao som daquele ritmo eletrônico de bate-estaca, insuportável aos ouvidos de muita gente, e em meio a uma profusão de luzes piscantes. O ecstasy tem tudo a ver com esse ambiente. A droga age sobre a química cerebral, e seus efeitos atingem o ápice duas horas depois de ingerida. Internamente, ela permite que o cérebro fique encharcado de serotonina, a substância responsável pela sensação de prazer e bem-estar (veja quadro). Os efeitos físicos são notáveis: mãos e boca secas, pupilas dilatadas, hipersensibilidade tátil e aumento da temperatura corporal. Não é à toa que nas pistas de dança tanta gente chacoalha o corpo com uma garrafa de água ou isotônico na mão é para matar a sede provocada pelo ecstasy. O uso de óculos escuros também se deve à droga, pois os olhos ficam sensíveis à luz. Muitos usuários tentam se refrescar besuntando as narinas e o peito com VickVaporub. O chiclete é um recurso para estimular a salivação e aliviar a tensão no maxilar. Com o cérebro trabalhando acima da capacidade normal, eleva-se a atividade metabólica do organismo. O pronto-socorro do Hospital das Clínicas, em São Paulo, já atendeu pacientes que, depois da ingestão da droga, chegaram a 41,5 graus de temperatura corporal. "Por enquanto não registramos nenhum óbito, mas alguns jovens foram vítimas de uma dissolução irreversível da musculatura de braços e pernas", diz o toxicologista Anthony Wong. Ou seja, os músculos perderam massa e nunca mais voltaram ao normal. No ano passado, seis adolescentes americanos morreram depois de consumir ecstasy. Cinco por causa da alta de temperatura. O sangue borbulhou e simplesmente parou de circular. O sexto morreu num acidente de carro ao perder a consciência ao volante. Por causa dessas mortes, alguns Estados tentaram criar dificuldades à realização de raves. Outro risco da droga é provocar a coagulação do sangue, o que obstrui as artérias e leva ao derrame. Como o consumo do ecstasy é recente, ainda não se tem uma idéia clara de seus efeitos nocivos a longo prazo (veja quadro). Uma suspeita é de que possa comprometer a memória. Na quarta-feira passada, a polícia paulista prendeu o comerciante Sebastian Antonio Rodriguez Franco, de 26 anos, um argentino que vive em São Paulo. Em sua casa, foram encontrados dezoito comprimidos de ecstasy. Franco disse que a droga era para consumo próprio, mas os policiais o acusam de distribuir "E" em uma das mais agitadas danceterias do mundo clubber paulistano, a Lov.e. Ao contrário do que acontece com outras drogas, o perfil do traficante se confunde com o do usuário. Tanto é assim que não há boca de venda de "E" como há de maconha, cocaína ou crack. As pastilhas são vendidas nas próprias danceterias e festas. É nas pistas de dança que, graças aos DJs e aos operadores de luz, que a droga faz mais sentido. As batidas ritmadas da música eletrônica por si só já provocam um efeito hipnotizante. Não bastasse o "tum, tum, tum", atuam as chamadas caixas de som subgraves, que emitem ondas sonoras não-audíveis pelo ouvido humano, mas sentidas no corpo como uma intensa vibração. A pirotecnia luminosa completa a dança cerebral deflagrada pelo ecstasy. Toda essa parafernália potencializa os efeitos da droga. "Não há nada que se compare à sensação de tomar o 'E' em uma rave", diz a publicitária Kátia, de 27 anos. "Todas as pessoas se apertando na pista de dança parecem estar em um transe coletivo." O "E" é uma droga que mexe muito com a sensação tátil. "Quando eu encosto a mão numa pessoa, parece que meu corpo inteiro está grudado nela", diz o estudante Carlos, de 22 anos, que consome "E" há cerca de dois anos. A dependência física do ecstasy ainda não foi cientificamente comprovada, mas o entusiasmo de seus usuários mostra que a pílula pode levar à dependência psicológica. "Quando me lembro da sensação provocada pelo ecstasy, tenho vontade de tomar outro imediatamente", conta a advogada paulista L.M., de 25 anos. Além dos riscos diretamente ligados à própria droga, existe a ameaça das pastilhas impuras, que podem ter efeitos devastadores no organismo. Da mesma forma que o traficante de cocaína mistura pó de mármore ou talco à droga, já foram descobertos tabletes de ecstasy com heroína e cocaína. Em associação com essas duas drogas, aumenta o poder viciante do "E". Foram registrados casos de intoxicações que causaram a morte por envenenamento. No início da década passada, foi apreendida na Holanda uma partida de pílulas turbinadas com estricnina. Em doses mínimas, essa substância funciona como estimulante. Em doses maiores, é um veneno mortal. Tolerantes com o uso de drogas, as autoridades holandesas permitem que as casas noturnas mantenham uma equipe de químicos para testar ao vivo e in loco a composição do ecstasy. Nos Estados Unidos, os organizadores de algumas raves oferecem gratuitamente o teste de pureza na entrada das festas. Países como Inglaterra, Holanda
e Estados Unidos estão muito mais atentos aos avanços
e riscos do ecstasy do que o Brasil. Por aqui, a droga ainda
é uma novidade ao menos para a polícia.
As apreensões são poucas e subestimam o consumo
real. Entre 1989 e 1999, a Polícia Federal confiscou
11.300 pastilhas de ecstasy. Em outubro do ano passado,
foi descoberto no Aeroporto de Cumbica, em São Paulo,
um carregamento de 170.000 tabletes. Haviam sido despachados
da Espanha como cosméticos. É ninharia, se
comparado ao que ocorre nos Estados Unidos, campeão
mundial no consumo de drogas sintéticas. De outubro
do ano passado até agora, a alfândega americana
confiscou 4 milhões de pastilhas. Essa quantidade
representa 1 milhão a mais do que havia sido pego
nos dez primeiros meses de 1999. Há três semanas,
dois senadores americanos apresentaram um projeto para combater
o tráfico de ecstasy. Pela proposta, quem estiver
carregando mais de 100 comprimidos será considerado
traficante e julgado como tal. O endurecimento é
explicado pelo grande número de usuários:
3,4 milhões, segundo o governo dos Estados Unidos,
o que corresponde à metade dos consumidores de ácido
lisérgico, o alucinógeno dos hippies da década
de 60. O que assusta os americanos é o consumo da
droga pelos colegiais. Uma pesquisa realizada em 1998 constatou
que 5,8% dos estudantes americanos haviam experimentado
o "E" no ano anterior. Em 1999, 8% tiveram essa experiência.
Com reportagem de Sandra
Brasil, de Brasília, |
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