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Edição
1 653 -14/6/2000
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Quem não gosta de receber um gordo elogio, daqueles que nos tornam pavões transbordantes de autoconfiança? E um agrado ou uma lembrancinha que funcionam como prova de que somos amados? São típicas massagens no ego que todo mundo adora. Para quem está do outro lado do rapapé, aquele que o dispara em direção ao chefe, à namorada ou à futura sogra, é a forma mais eficiente de cair nas graças do outro. Uma fórmula tão certeira que há quem a considere um dos mais eficientes motores de uma sociedade hierárquica, onde tudo tem seu valor de troca. Muito daquilo que todo mundo pensa sobre a sabujice e sempre teve vergonha de admitir publicamente está no livro You're Too Kind (Você é muito gentil), recém-lançado nos Estados Unidos. Escrito pelo jornalista Richard Stengel, editor da revista Time, é um verdadeiro e talvez o primeiro tratado sociológico da bajulação através dos tempos. O que Stengel percebeu é que a bajulação em seu sentido mais amplo é uma arte sutil. Seu único fundamento é a busca pelo resultado, mesmo que não seja de forma consciente e premeditada. Num puxa-saquismo exercido com perfeição, o exagero e a ânsia em agradar se confundem com espontaneidade e sinceridade. "A bajulação é um elogio estratégico, com propósito", disse Stengel a VEJA. "É tradicionalmente descrito como um elogio exagerado, mas eu a defino como um elogio que busca um resultado. Seja para ser mais querido, seja para ter um escritório com janela."
O problema não é ser bajulador, mas ser um
bajulador barato. A maneira mais correta de bajular o superior
é de forma indireta. "O melhor caminho é fazer
com que o chefe sinta que você está feliz de
aprender com sua experiência, de que é importante
para você os conhecimentos que ele tem", diz Case.
A bajulação é sempre uma arte de sedução,
em que é proibido cair no lugar-comum. É elogiar
a beleza se a pessoa for inteligente e a inteligência
se a pessoa for muito bonita. O jornalista americano interessou-se
pelo tema ao concluir que não era grande coisa como
bajulador. De tanto ver triunfar o puxa-saquismo descarado,
ele se dispôs a olhar a bajulação do
mesmo modo que um antropólogo examina qualquer aspecto
da sociedade e rastreá-la ao longo da História.
Não há, em princípio, nada de errado
em dizer aos outros o que eles querem ouvir sobre si próprios.
Faz parte do jogo social e é um dos motivos que fazem
com que a lisonja funcione tão bem. "Se homens e
mulheres querem achar que são um pouco mais brilhantes
e atraentes do que realmente são, qual é o
problema?", questiona Stengel. "Dizer isso a eles faz com
que se sintam muito melhor."
Há situações nas quais bajular é
obrigatório. Trata-se de etiqueta social, do bom-tom
e se confunde com o que chamamos de simpatia e boa educação.
São casos em que não elogiar soa rude. Por
exemplo: a noiva está sempre linda, o recém-nascido
é sempre uma gracinha, o morto era ótima pessoa.
Nil nisi bonum (dos mortos só se fala bem),
diz o provérbio latino. Não é pecado
exagerar no elogio se ambos os interlocutores se sentem
bem com isso. O puxa-saquismo perde-se nas raízes
da História. Um manual de etiqueta chamado As
Instruções do Vizir Ptahhotep ensinava
aos súditos no Egito antigo como se devia venerar
o faraó em toda sua grandeza. Um egípcio só
dirigia a palavra a um superior na escala social se fosse
interpelado primeiro. Só ria depois de o superior
ter sorrido. A primeira regra que um bajulador aprende na
vida é que é preciso manter o chefe feliz
e satisfeito. "A moderna sociologia qualifica isso como
conformidade de opiniões", escreveu Stengel. O florescimento
da idéia de individualidade durante a Renascença
deu nova natureza à bajulação. Quando
deixou de pensar em si próprio como um servo ou reles
lacaio, o indivíduo deixou de bajular a instituição
para se dedicar a puxar o saco da pessoa em comando. Uma
vez que a mobilidade social se tornou um objetivo de vida,
a bajulação perdeu seu estigma moral e se
converteu em outra ferramenta de avanço social. Hoje,
como todo mundo é obsessivamente preocupado com o
modo com que as outras pessoas o vêem, as possibilidades
de adulação subiram às nuvens. Puxar
o saco, pode-se dizer, é a essência do utilitarismo
moderno.
Antes de Adão e Eva já se bajulava. Nossos antepassados macacos passavam muito tempo paparicando os machos dominantes do bando. Entre os chimpanzés, que vivem dentro de uma comunidade organizada hierarquicamente, uma das atividades mais disputadas é a honra de fazer cafuné e coçar o pêlo do chefe. Alguns machos mais fracos chegam até a beijar seus pés e fazer oferendas com folhas e gravetos. É obvio que não é por amor, e sim uma forma de obter favores. O acesso às fêmeas controladas pelo mais forte, por exemplo. Os biólogos evolucionários definem como altruísmo recíproco a capacidade de maximizar as amizades e minimizar os antagonismos como uma forma de sobrevivência à seleção natural. Tanto para chimpanzés como para seres humanos a bajulação é uma maneira indireta de competição. Tem a vantagem de ser menos danosa à saúde e à integridade física do que a competição direta.
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