Edição 1 653 -14/6/2000

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Abaixo as barreiras

Para o diretor-geral da Organização Mundial
do Comércio, o fim do protecionismo
melhora a vida dos trabalhadores

Eduardo Salgado, de Genebra

O neozelandês Mike Moore, 51 anos, ocupa um cargo-chave na era da globalização. Ele é o diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), uma tribuna que reúne 136 países responsáveis por mais de 90% dos negócios realizados no mundo. A carga de stress faz parte da natureza do trabalho de Moore, que é tentar resolver as eternas discussões sobre barreiras comerciais ou arbitrar os interesses conflitantes dos diferentes blocos econômicos. Se não bastasse, ele virou uma das vítimas prediletas das ONGs, que vivem acusando-o de ser o arauto do capitalismo selvagem. Moore está acostumado com desafios. Perdeu o pai com 5 anos de idade e foi vítima de poliomielite. Sem completar os estudos, trabalhou como açougueiro e na construção civil antes de iniciar uma bem-sucedida carreira política que o levou ao cargo de primeiro-ministro da Nova Zelândia em 1990. Em sua sala à beira do Lago Leman, em Genebra, na Suíça, Moore recebeu VEJA e explicou por que não perde o otimismo diante da difícil tarefa de azeitar as engrenagens do comércio internacional:

Veja – O livre comércio é a solução para todos os problemas?
Moore – Não, não é, mas contribui muito para o desenvolvimento dos países. Desde o final da II Guerra, à medida que as barreiras comerciais baixavam, a economia ia crescendo. Alemanha e Cingapura são dois bons exemplos desse processo. Depois que a China começou a se abrir, nos últimos vinte anos, 120 milhões de chineses saíram da pobreza absoluta. É um fato histórico: as economias exportadoras sempre trazem benefícios a seus trabalhadores.

Veja – A globalização vai tornar a vida no mundo melhor?
Moore – A globalização não é algo novo. A novidade são as transações financeiras feitas de um lado a outro do mundo ao toque de um botão. Desde que o homem é homem há trocas comerciais. Não estamos inventando a roda. No começo dos anos 30, o volume do comércio internacional em relação ao PIB mundial era maior que o de hoje. A idéia de que a globalização é um plano das multinacionais para dominar o mundo é ridícula.

Veja – Os benefícios da globalização estão sendo distribuídos de forma justa?
Moore – Não. A África inteira recebe menos investimentos do que Cingapura, um dos menores países do mundo. Em 48 nações, 600 milhões de pessoas sobrevivem com 1 dólar por dia. A fortuna de Bill Gates é maior que o conjunto dos PIBs dessas nações que estão na base da pirâmide. Mas, antes de ser conseqüência da globalização, isso tem a ver com decisões equivocadas dos governantes, com as guerras, com a má distribuição da riqueza, com a taxação injusta de impostos, com a falta de educação.

Veja – É justo que o Brasil não possa subsidiar as exportações de produtos industrializados, enquanto os europeus ajudam seus produtores agrícolas a vender no exterior?
Moore – Não. Os países em desenvolvimento estão sendo prejudicados no atual estágio do sistema de comércio, porque a agricultura não é tratada como outros setores. É por isso que o Brasil defende uma nova rodada de negociações globais. As nações em desenvolvimento argumentam, com razão, que se essas distorções não forem corrigidas o próprio livre comércio corre perigo.

Veja – O fato é que os produtos do campo enfrentam impostos de importação quatro vezes maiores que os dos manufaturados.
Moore – A produção agrícola não era vista como um assunto comercial até pouco tempo atrás. Para muitos países, era uma questão de segurança interna. Ainda estamos tentando corrigir distorções, mas as barreiras diminuíram nos últimos anos. Gostaria de poder garantir que cada país pudesse vender e lucrar com aquilo que sabe produzir melhor. Embora ainda haja injustiças, é importante notar que já houve progresso.

Veja – Os europeus e os japoneses argumentam que é preciso dar dinheiro a seus agricultores para que eles mantenham as tradições e o estilo de vida de seu povo. O mesmo argumento não vale para defender subsídios a setores industriais brasileiros que estão sofrendo em razão da competição internacional?
Moore – Esse é o cerne da questão das atuais negociações. Há pouco tempo, o representante do Uruguai disse que, se os trabalhadores rurais europeus precisam ser preservados, o mesmo deve valer para os funcionários de bancos e de indústrias dos países em desenvolvimento.

Veja – O senhor acha que os países ricos, para defender os salários de seus trabalhadores, podem retaliar as exportações dos países pobres?
Moore – Sindicatos foram feitos para defender os interesses de seus associados. É natural que a gritaria aumente quando cresce o perigo de desemprego. Mas nem todos os países concordam com esse pleito das nações mais ricas. O Brasil, a Índia e as nações em desenvolvimento em geral vêem a tentativa de vincular questões trabalhistas com comércio como uma nova forma de protecionismo

Veja – O senhor acompanha a situação no Brasil?
Moore – Sim. É incrível o avanço do país nos últimos anos. As pessoas têm mania de não se lembrar das coisas ruins. Há uma década, o Brasil tinha uma taxa de inflação anual de mais de 1.000%. Hoje ela não chega a dois dígitos. É importante se lembrar do passado para valorizar os progressos.

Veja – Como o Brasil pode aumentar as exportações?
Moore – É necessário ver o que outros países fizeram. A Nova Zelândia, um país com uma economia muito menor que a do Brasil, conseguiu crescer e aumentar as exportações com investimentos em tecnologia e na qualificação de sua mão-de-obra. Os brasileiros também devem prestar atenção nas oportunidades do comércio eletrônico. Antes, o dono de uma pequena firma não tinha condições de vender seus produtos na Alemanha ou no Japão porque seriam necessários milhares de dólares para montar uma equipe de vendas do outro lado do mundo. Com a internet, os empresários têm acesso direto aos consumidores, sem necessidade de intermediários. Outro dia, disseram-me em Nova York que índios brasileiros estão vendendo redes pela internet. É preciso ter força de vontade e talento. Ao mesmo tempo, é necessário buscar um sistema mundial de comércio mais justo.

Veja – O que a OMC está fazendo para regulamentar o comércio eletrônico?
Moore – Tínhamos concordado com uma moratória até dezembro do ano passado, durante a qual ninguém tomaria decisão alguma. Agora estamos tentando estender esse prazo. Alguns países em desenvolvimento querem taxar as transações feitas pela internet. Ou seja, você pagaria imposto não só pelo produto ou serviço que compra, mas também haveria uma taxa por ter encomendado pela rede. Esses países dizem isso, mas acho que é só uma carta na manga na mesa de negociações. Mesmo porque seria difícil colocar essa idéia em prática. Sem falar que há outras questões mais urgentes. Alguns países perigam ficar de fora da nova economia simplesmente porque não têm luz elétrica em boa parte do território. Ou não têm linhas telefônicas.

Veja – No mês passado, o Congresso americano aprovou o pacto comercial com a China, pavimentando a entrada dos chineses na OMC. Quando ela se torna efetivamente membro da organização?
Moore – Ainda há muito trabalho técnico que precisa ser feito e a China tem de fechar acordos com outros países, como México, Suíça e Costa Rica. Mas estou confiante de que os chineses entrem até o final deste ano.

 Veja – O que a entrada da China na OMC muda para os empresários e trabalhadores brasileiros?
Moore – Muda muito. Tudo o que a China acaba de conceder nos acordos com os Estados Unidos e a União Européia, como a possibilidade de participar em joint ventures com empresas chinesas, acesso ao mercado etc., também vale para o Brasil. A partir do momento em que a China tiver um representante em Genebra, os empresários brasileiros que se sentirem prejudicados por práticas desleais de comércio poderão entrar com um processo na OMC para pedir compensações, sem medo de que os chineses não cumpram as decisões ou retaliem.

Veja – Por que a nova rodada de negociações globais não foi lançada em Seattle em dezembro?
Moore – Não houve acordo entre os Estados Unidos e a União Européia, entre os países ricos e os em desenvolvimento. Não chegamos a um entendimento mínimo sobre questões trabalhistas, de meio ambiente, de competição. Ninguém cedeu e não teve jeito.

Veja – De que maneira as ONGs prejudicaram o bom andamento das conversações?
Moore – Várias organizações gostariam de ficar com o crédito de ter impedido as negociações, mas não foi nada disso. Elas não foram as culpadas pelo fracasso de Seattle. Só tornaram as coisas mais desconfortáveis para os representantes e as autoridades.

Veja – As ONGs têm o direito de falar em nome dos países em desenvolvimento?
Moore – Muitas delas fazem um trabalho excelente. Arregaçam as mangas e vão agir junto aos mais desfavorecidos. Outras fazem pesquisas valiosíssimas, que são usadas por muitos governos. Mas há também um bando que é muito egoísta. No domingo dão dinheiro às vítimas das enchentes em Bangladesh e na terça-feira assinam petições para que seus governos não importem produtos feitos pelos habitantes da região afetada pelas chuvas. Essa é a grande contradição. Há ainda os que tentam ajudar, mas acabam atrapalhando. Como disse o presidente Bill Clinton, esse pessoal está salvando os países mais pobres do desenvolvimento.

Veja – O senhor se irrita com os protestos?
Moore – Fico incomodado ao ver esses jovens brancos, da classe média dos países ricos, tentando bloquear as reuniões. Sempre penso em dizer: "Candidatem-se, elejam-se e venham aqui conversar como representantes legítimos". Outro dia na sede do Banco Mundial, em Washington, tive um encontro com os ministros da Fazenda dos doze países mais influentes do mundo. Um grupo ligado à causa da prevenção à Aids bloqueou o acesso ao prédio e fez de tudo para atrasar a reunião. Um absurdo. Eles deveriam fazer o contrário. Barrar a saída e dizer que só deixariam os ministros sair quando tomassem medidas mais eficazes.

Veja – A defesa do meio ambiente pode estar condicionada pelos interesses do comércio internacional?
Moore – Essa é uma questão menos conflitante. Não é só com castigo, com sanções comerciais que se incentiva a preservação do meio ambiente. Se os países em desenvolvimento tiverem mais acesso aos mercados das nações ricas, poderão ganhar o mesmo dinheiro sem precisar explorar tanto a natureza. A redução de impostos de importação em nações ricas pode ser uma maneira de vincular o meio ambiente ao comércio.

Veja – O senhor é a favor da criação de blocos como o Mercosul?
Moore – Acordos regionais podem ser o primeiro passo da abertura ao exterior. Os empresários aprendem a exportar, o choque não é tão grande. Há outras vantagens. Juntos, os membros do Mercosul têm maior força para negociar com os países mais poderosos.

Veja – Não há risco de que o mundo fique dividido, com cada bloco mantendo o livre comércio entre os seus membros, mas aumentando as barreiras aos demais?
Moore – Sim. Para evitar que isso venha a acontecer criamos a OMC. Incentivamos a abertura do comércio mundial para impedir o aparecimento de fortalezas. As regras acertadas até agora valem tanto para os países ricos como para os em desenvolvimento, grandes e pequenos. Na Nova Zelândia, sempre tínhamos o medo de que um dia acordaríamos e a União Européia teria tomado uma decisão que nos prejudicasse. Por isso, sou favorável a que esses blocos não deixem de participar das negociações nas quais a maior parte dos países está presente. Mas blocos regionais e abertura não são, necessariamente, excludentes.

Veja – O senhor teve uma vida bastante difícil, não?
Moore – Meu pai morreu quando eu tinha 5 anos. Como minha família era muito pobre, tive de parar de estudar aos 14 anos. Fui açougueiro e trabalhei na construção civil. Mesmo tendo sido leve, a poliomielite que sofri quando era pequeno me deixou com a saúde debilitada. Por isso, nunca pensei em me tornar um jogador do All Blacks, o time de rúgbi da Nova Zelândia.

Veja – O senhor sonhava em chegar tão longe, como diretor-geral de uma instituição tão importante?
Moore – Nunca. Meu grande sonho era ser projetista. Mas infelizmente não foi possível. Naquela época, ser um membro da classe trabalhadora e viver no interior tornava tudo muito difícil. Os filhos de uma família miserável tinham muito poucas chances de chegar à universidade. Era ainda mais complicado do que hoje quebrar esse ciclo. Como não tive chances, sou um ferrenho defensor do acesso à educação.

Veja – O fato de não ter freqüentado uma universidade afeta seu dia-a-dia?
Moore – Educação formal não lhe dá sabedoria nem inteligência. Não ter estudado me tornou uma pessoa muito mais esforçada e dedicada. Se tenho de ler tratados, presto muita atenção, pego um marcador amarelo para assinalar o texto. Não me entrego. Mas não quero dizer com isso que a falta de educação formal seja um mérito. Só pessoas românticas de classe média acreditam numa espécie de ignorância sadia. A maioria dos trabalhadores acredita que levaria uma vida melhor se tivesse tido a oportunidade de estudar. Se eu pudesse retroceder no tempo, me esforçaria mais para progredir nos estudos. Certamente eu teria condições de fazer melhor o meu trabalho.

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