Edição 1 653 -14/6/2000

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Geral
Economia e negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Colunas
Stephen Kanitz
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
Veja recomenda
Os mais vendidos

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


 

O Consenso de Berlim

"Ainda será preciso conversar muito para chegar
a um modelo de governança progressista"

 

Ilustração Ale Setti
 


É possível chegar a um modelo "pós-liberal", que retenha do liberalismo os valores da democracia e da liberdade e a disciplina fiscal, mas que vá além dele na construção de um Estado mais ativo e mais eficaz e de uma sociedade civil revigorada? Foi para discutir esse novo estilo de governo para o século XXI que se reuniram em Berlim, na semana passada, presidentes e primeiros-ministros de catorze países e 145 especialistas de diferentes disciplinas, muitos independentes, sem vinculações com governos ou partidos.

Não era mais um lance de propaganda, lazer ou pura encenação. Foi uma reunião de trabalho, da qual os chefes de governo e/ou de Estado saíram todos visivelmente cansados. Estavam lá governantes de países do centro do poder mundial, como Estados Unidos, de potências intermediárias, como Itália e Canadá, de potências regionais emergentes, como Brasil e África do Sul. A afinidade política principal entre todas essas lideranças era pertencerem a uma heterogênea linhagem de partidos de centro e centro esquerda. O evento teve poucas cerimônias públicas, pouco show, se quiserem, e a população de Berlim se deu conta dele quase exclusivamente por causa das comitivas em alta velocidade, transferindo as delegações dos hotéis para o castelo de Charlottemburg ou para a Chancelaria Federal.

Esse novo modelo de "governança progressista" ainda está muito mal definido. O objetivo seria substituir o consenso de Washington e a agenda neoliberal por um novo paradigma com maior orientação social. Foi esta a ênfase do presidente Fernando Henrique, que defendeu ativamente a adoção de uma visão mais social e a superação do Consenso de Washington. Foi levado a sério.

É clara, também, a preocupação de revitalizar a democracia representativa, enfraquecida, por toda parte, pela crise dos partidos, pela distância entre representantes e representados e conseqüente despolitização da sociedade civil.

Não se chegou a muitas conclusões, nem creio que este fosse o objetivo. Na reunião de especialistas, da qual participei, o que se pretendia era criar um fórum de debate, uma rede de reflexão, e definir os principais tópicos para discussão. Há um diagnóstico comum, que indica existir uma crise da democracia representativa, alguns riscos sociais importantes associados ao desenvolvimento da nova economia e um déficit de qualidade na governança, seja nos mecanismos políticos de relacionamento entre governo e sociedade, seja na qualidade da ação estatal.

O episódio neoliberal do final do século XX deixou duas convicções unânimes. A primeira, de que qualquer governo deve adotar firme disciplina fiscal. A nova economia globalizada não comporta governos perdulários e pune duramente as sociedades que os permitem. A outra, de que é preciso e possível, obedecida a disciplina fiscal, evitar que as novas tendências sócio-econômicas reproduzam e agravem os padrões de exclusão e desigualdade hoje existentes. Isso requer que os governos tenham um papel ativo no âmbito social e o foco dessa ação deve ser na educação, principalmente dos mais jovens.

No campo político, a perda de representatividade das instituições da democracia provocou uma fadiga cívica: as pessoas votam cada vez menos – a taxa de alienação eleitoral beira a média dos 50% – e acreditam cada vez menos nos partidos, nos parlamentos e nos políticos. Para combater a crescente alienação política, a sociedade civil precisa ser reativada, sem que isso comprometa os valores democráticos fundamentais com o predomínio do ativismo desinstitucionalizado. Esse ativismo por fora dos canais de governança democrática fragmenta a sociedade civil, em vez de agregá-la.

Para chegar a um modelo de governança progressista ainda será preciso conversar muito. Nessas conversas, à medida que se avance, surgirão divergências e matizes. Se a busca terá sucesso, não é possível dizer. Mas ela vale a pena em si mesma, pois é procurando novos rumos que as pessoas e os governos se enriquecem e melhoram.

 

Sérgio Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)