| |
O que fazer com eles?
Rottweiler mata garoto de 8 anos e reforça
a necessidade de uma legislação feroz
contra os cães violentos e seus proprietários
Julio Wiziack e Rachel Verano
Foto: Antonio Milena
 |
 |
| Rottweiller |
Pit bull |
PESO:
42 a 50 kg
ALTURA :
até 68 cm PRESSÃO DA MORDIDA:
2,5 toneladas por centímetro quadrado
LONGEVIDADE:
10 a 11 anos
Cão de guarda tão bravo que não deve ser
treinado para o ataque. Fica irritado em ambientes pequenos porque
precisa movimentar-se constantemente
|
PESO:
30 a 35 kg
ALTURA :
até 50 cm
PRESSÃO DA MORDIDA:
2,75 toneladas por centímetro quadrado
LONGEVIDADE:
10 a 11 anos
É um cão tão feroz que sobe
até em árvores para apanhar sua vítima. É capaz de puxar objetos
até cinco vezes mais pesados que ele. Sofre alterações mentais e
se torna mais agressivo se viver em espaço pequeno
|
Os monstros mataram outra vez. No domingo de Páscoa, o garoto Hugo José
Salomão da Silva, de 8 anos, teve dois encontros com seu cachorro rottweiler
chamado "Napo". O primeiro foi amigável: o menino deu comida
em sua boca e escovou o pêlo do animal. O segundo foi fatal: Napo saltou
contra o corpo de Hugo e mordeu seu pescoço, rasgando veias, rompendo
artérias e destruindo a traquéia – de acordo
com o relatório dos médicos-legistas que examinaram o corpo do menino.
O ataque ocorreu em Boituva, cidade localizada no interior de São Paulo.
Napo era cão de guarda do supermercado do pai de Hugo, mas ironicamente
atacou o menino no momento em que a família mais precisou do cão, para
tentar se proteger de cinco bandidos durante um assalto. O cachorro se
assustou com a movimentação e voltou-se contra o menino. Hugo foi enterrado
no dia seguinte, e Napo, sacrificado. Difícil pensar numa dor maior do
que a do pai que enterra o próprio filho. Mas é assustador saber que outros
pais e mães irão passar exatamente por isso. A não ser que se tomem providências
enérgicas para controlar a proliferação de cães assassinos no Brasil.
| Dobermann |
|
PESO:
35 a 40 kg
ALTURA*:
até 72 cm PRESSÃO
DA MORDIDA: 1,8 tonelada por centímetro quadrado
LONGEVIDADE:
9 a 10 anos
Criados para ser cães de guarda e defesa,
são animais agressivos mas facilmente adestráveis. Precisam de exercícios
físicos diários; caso contrário,
ficam mais violentos
* de pé, sobre as quatro patas
|
A discussão sobre o controle dessas feras vem sendo conduzida de maneira
acanhada e tão irracional quanto os animais a que se refere. De um lado,
os defensores das raças violentas argumentam que qualquer tentativa de
proibir a criação desse ou daquele cão equivale a um cerceamento de liberdade
individual e invasão de privacidade. Afinal, dizem, os animais permanecem
trancafiados em casa na maior parte do tempo e em geral só reagem a agressões.
O caso de incontáveis vítimas e agora o de Hugo mostram que o debate deveria
estar sendo travado num patamar mais responsável. De outro lado, as autoridades
não fazem muito melhor. Todas as medidas tomadas até aqui (muito bem-intencionadas,
diga-se) são apenas paliativas. No Rio de Janeiro, entra em vigor nas
próximas semanas uma lei que ordena a esterilização de todos os pit bull,
um dos tipos de cachorrro mais perigosos que existem. Os mesmos pit bull
também são alvo de projetos semelhantes em Porto Alegre e Fortaleza. O
Congresso Nacional discute uma lei sobre o assunto. O defeito desses projetos
todos é que, em geral, preferem culpar o cão a culpar o dono. É como se
o Código de Trânsito tirasse de circulação as marcas de carro mais envolvidas
em acidentes em vez de cassar a carteira dos motoristas responsáveis pelas
barbeiragens.
Futuros assassinos – Outro defeito
das medidas adotadas até aqui contra os animais violentos (todas muito
bem-vindas, repita-se) é seu lado improdutivo. Enquanto se discute a proibição
do pit bull, pelo menos quatro raças já disputam no mercado brasileiro
o título de fera do século XXI (veja três delas no
quadro). Duas são linhagens conhecidas no exterior, o italiano
cane corso e o dogo argentino. O cane corso, trazido para o Brasil pelo
apresentador Fausto Silva, tem o temperamento e a força do rottweiler,
com a vantagem de ser mais resistente a doenças. "Em breve, ele será
o substituto do rottweiler e do pit bull", anima-se o criador Edson
Augusto Vieira, de São Paulo. Os outros dois animais são aparentemente
mais perigosos. Um deles, o dogue brasileiro, tem temperamento imprevisível.
O outro, o uruguaio cimarron, vivia em estado selvagem nos pampas gaúchos
e sua domesticação tem poucas décadas. "A introdução desses animais
é prova de que não adianta restringir a criação dessa ou daquela raça",
afirma Renato Almada, diretor do Kenel Clube Paulista.

Raças como rottweiler, pit bull, fila e mastim napolitano são resultado
de uma combinação genética feita para produzir animais de guarda e de
combate. A mordida de um mastim napolitano chega a ter mais de 2 toneladas
de pressão por centímetro quadrado. Ele é capaz de matar sem fazer grande
esforço. Por isso, em alguns países, a criação dessas raças mais agressivas
foi proibida e é bom que o mesmo aconteça no Brasil. Mas a experiência
internacional mostra que a forma mais eficiente de combater os animais
é cobrar responsabilidade de seus proprietários. Na França, quem tem um
cão de raça agressiva é obrigado a registrar-se e ter um seguro para cobrir
eventuais danos. Em vários Estados alemães só pode possuir um cachorro
perigoso quem tem mais de 18 anos e nenhuma passagem na polícia. Na maioria
dos Estados americanos, quem decide criar um cão de estimação pela primeira
vez não pode comprar animais como os rottweiler, dobermann ou pit bull,
ao contrário do Brasil. Para adquiri-los lá é preciso ser maior de idade
e passar por cursos de treinamento. Só depois as autoridades concedem
o registro do cão. Menores de idade não podem andar pelas ruas conduzindo
animais de grande porte. "Com essa lei, as autoridades cobram responsabilidades
dos donos sobre seus cães", afirma o veterinário José Pedutti, de
São Paulo.
E, quando os cães atacam, a legislação no exterior é mais feroz em relação
aos donos do que os próprios animais assassinos que eles possuem. Nos
Estados Unidos, se um cão mata, o dono é preso e condenado a penas de
até doze anos de cadeia. O resultado é que as pessoas pensam duas vezes
antes de passear garbosas com seus totozões sem coleira. O mesmo acontece
na Inglaterra e em outros países europeus. No Brasil, é diferente. Em
tese, o dono de um cão assassino pode até ser condenado a pagar multas
e ser preso por homicídio culposo, mas isso não acontece. São raríssimos
os casos em que a vítima recebe do dono do animal que o atacou ao menos
a indenização para as cirurgias plásticas. Nas sentenças de maior rigor,
o dono do cachorro é obrigado a distribuir cestas básicas por alguns meses.
Chega a ser um incentivo ao crime – ou pelo
menos ao pouco-caso e à irresponsabilidade. A desculpa dos donos dessas
feras é invariavelmente a mesma: diante de situações de stress, os bichos
se tornam incontroláveis. Como se fosse possível cobrar conduta ética
de seres irracionais e não de seus donos. São eles que levam os animais
a parques, praças e praias, desprezando o risco que impõem aos outros.
A cada dia mais de 1.000 pessoas dão entrada
em hospitais vítimas de mordidas de cachorro.
Ataque na rua – O brasileiro adora
cachorros. Existe um animal para cada cinco habitantes, o dobro do índice
recomendado pela Organização Mundial de Saúde. Mas o problema não é o
número de cães, e sim a raça do animal e o tipo de dono. Antigamente,
a proporção de cães bravos no universo global dos animais de estimação
era bem menor do que hoje. Como não existe nenhum controle sério, cada
vez que se noticia um ataque, em vez de aversão, cresce a procura por
cães assassinos. Os animais bravos já movimentam mais da metade do mercado
canino. A procura por cães de guarda aumentou quase 30% nos últimos quatro
anos e agora existem no país quase dois rottweiler para cada poodle. Doze
anos atrás, não existia por aqui um único pit bull. Hoje, existem mais
de 10.000.
Quanto aos donos, os compradores de cachorros bravos e fortes gostam
de dizer que, em razão da ausência do Estado, que não lhes dá segurança,
precisam de uma raça feroz o bastante para atuar como guarda da casa.
É uma boa tentativa de desculpa, mas bastante esfarrapada. Primeiro porque
a esmagadora maioria das vítimas foi atacada quando andava na rua. Depois
porque os especialistas já perceberam: quem compra um cachorro feroz quer
o animal como quem escolhe um carro que anda a mais de 200 quilômetros
por hora. Lógico que não é por medo de ladrão que os brutamontes do jiu-jítsu
decidiram adotar o pit bull como bicho de estimação favorito. O animal
serve para intimidar qualquer inocente que cruze a rua. Uma pessoa preocupada
com a segurança da casa ou de si mesma se satisfaria se comprasse um pastor
alemão, uma raça clássica, agressiva o suficiente, mas extremamente inteligente
e capaz de aprender a atacar apenas em situações de risco. Mesmo assim,
muita gente prefere comprar um pit bull, um animal desequilibrado em algumas
situações.
Outro argumento insensato usado pelos donos e por certos criadores é
dizer que a lei quer invadir a privacidade de alguns, ferindo direitos
sagrados. É uma afirmação duplamente infeliz. Primeiro porque só uma legislação
mais moderna pode modificar o quadro atual, este sim que fere um direito
sagrado das pessoas. No caso, o direito de não ser trucidado. Segundo
porque os donos de cães bravos falam de um jeito que sugere alguma culpa
por parte da vítima. Ou a vítima correu e –
culpa dela – não deveria ter feito isso.
Ou passou por um portão e – culpa dela –
foi devorada. Ou estava numa praça e – culpa
dela – fez um movimento brusco e acabou morta.
É tão cretino quanto dizer que a moça provocou o estuprador porque saiu
de casa vestindo minissaia. Basta uma olhada na galeria de exemplos dramáticos
de pessoas feridas e mortas por cães no rodapé das seis páginas desta
reportagem para descobrir quem está do lado certo da discussão. A vida
dessas vítimas e a de sua família nunca serão as mesmas. São rostos desfigurados,
orelhas arrancadas a dentadas, hemorragias e medo. Muito medo.
As vítimas
O Brasil registra mais de 1 000 ataques de
cães por dia. Abaixo, alguns dos mais violentos
|
 |
Hugo José Salomão da Silva,
8 anos Boituva, São Paulo, na semana passada
Cão: rottweiler
Depois do assalto ao supermercado da
família, Hugo correu para os fundos da loja e foi mordido no pescoço
pelo cachorro da família. Morreu a caminho do hospital
|
 |
Edésia dos Santos, 58
anos
São Paulo, novembro
de 1998
Cães: um pit bull e dois rottweiler
Edésia ia à missa quando foi atacada
pelos cães, que estavam soltos na
rua. Ela teve o rosto desfigurado e morreu de hemorragia
|
Foto:
Edson Vara
 |
Jenipher Stephanie Martins
Zimmer, 8 anos
Rio Grande do Sul, novembro de 1998
Cães: quatro pit bull
Jenipher ia para a escola quando
foi atacada pelos cães. Nos quinze segundos do ataque, sofreu dois
cortes na cabeça, vários arranhões e mordidas pelo corpo
|
 |
Marcelo Ricart, 25
anos
Rio de Janeiro, setembro de 1998
Cão: husky siberiano
Ricart passeava com seu poodle. O animal
foi atacado pelo husky siberiano de uma vizinha. Ao tentar salvar
o cachorro, foi mordido no ombro e no braço e arranhado nas pernas
|
 |
Thiago Lacerda Canhedo,
8 anos
Brasília, julho de 1998
Cães: dois rottweiler
Thiago brincava no jardim da casa de um
primo quando foi atacado. Teve o rosto dilacerado e as duas orelhas
e metade do couro cabeludo arrancados.
Já fez quatro cirurgias plásticas
|
 |
Patrícia Andrade Monteiro,
2 anos
São Paulo, junho
de 1998
Cão: pastor belga
Patrícia brincava com um pedaço de madeira
na mão. Um cão se assustou com a brincadeira e a atacou. Ela teve
parte do couro cabeludo arrancada e cortes em todo o rosto. Já fez
uma cirurgia plástica e será submetida a outra
|
 |
Jacques Bergman, 58 anos, e
mais cinco pessoas
Rio de Janeiro, abril de 1998
Cão: pit bull
Uma menina passeava com um pit bull
em Copacabana e foi a primeira a ser atacada. Bergman, que tentou
socorrer a garota, também foi mordido. Na seqüência, o cão mordeu
mais quatro pessoas
|
 |
Mário Tamiya, 58 anos
Paraná, dezembro de 1996
Cães: três mastim napolitano
Tamiya entrou no canil no quintal de sua
casa para alimentar seus cachorros, foi
atacado e morreu de hemorragia. O corpo foi encontrado no dia seguinte
|
 |
Stella Praun, 61 anos
São Paulo, fevereiro de 1996
Cão: fila
Stella passeava com os netos perto
de casa quando o portão eletrônico de um vizinho abriu e o cachorro
escapou. Ela teve cortes no
seio esquerdo e seu braço direito foi dilacerado
|
 |
João Marcos Eduardo Bezerra,
1 ano e 10 meses
São Paulo, março de 1995
Cão: fila
O garoto se separou da
mãe e entrou no depósito de um mercado, onde foi atacado pelo cão
de guarda que ficava preso na corrente. João Marcos morreu de
hemorragia interna, provocada pelas mordidas
|
 |
Alexandre e Alessandra Silva,
4 anos
São Paulo, dezembro de 1997
Cão: pastor belga
|
Os
gêmeos Alexandre e Alessandra brincavam no sítio onde os pais trabalham
como caseiros quando foram atacados pelo pastor, que vivia solto.
Eles submeteram-se a cirurgias para a reconstituição da face e das
orelhas
|
|
Laís Brandão, 9 anos
Ceará, julho de 1995
Cão: dobermann
Laís ia para a escola com a babá
quando foi atacada pelo dobermann na calçada. Ela teve o rosto desfigurado.
Precisou submeter-se a cirurgias plásticas. A
menina ainda tem um nervo paralisado no rosto e problemas de mastigação
e deglutição
|
Geraldo Valdir da Silva, 35
anos
Minas Gerais, março de
1999
Cão: rottweiler
Silva estava alimentando o próprio cão quando
foi atacado. As mordidas foram tão violentas que um dente do cão ficou
cravado em seu punho e precisou de cirurgia para ser retirado
|
|
Jéssica Barbosa da Silva, 6
anos
Pernambuco, março de 1999
Cão: rottweiler
A garota passava de bicicleta em frente
da casa do dono do cachorro quando foi atacada. Teve vários ferimentos
graves no braço, na boca e nas costas
|
Lucas Martins, 4 anos
Rio de Janeiro, fevereiro de 1999
Cão: pit bull
Lucas brincava com o irmão na calçada quando
foi atacado por um pit bull. O
menino foi salvo por uma vira-lata. Ela lutou com o cachorro e levou
várias mordidas
|
|
Juliana Costa, 9 anos
Minas Gerais, abril de 1997
Cães: três pit bull
Juliana ia para a escola acompanhada
do irmão mais velho quando os três cachorros
do vizinho saíram pelo portão da casa e a atacaram. Ficou com o
lado esquerdo do rosto deformado
|
|
Isabel Salcedo Silva, 6 anos
Rio de Janeiro, março de 1997
Cães: três pastor alemão
Ela foi atacada
quando pulou o muro da casa dos padrinhos na mesma rua onde morava.
Não havia ninguém em casa. Isabel morreu vítima de mordidas na garganta,
no braço e nos olhos
|
|
Ivanira Miranda Silveira, 61 anos
Pernambuco, maio de 1996
Cão: fila
Ivanira foi atacada pelo cachorro
por trás quando fazia compras numa frutaria. Ela sofreu ferimentos
nos braços, pernas e nádegas. Passou um ano sem sair de casa e teve
de fazer terapia
|
Depoimento
|
|
"Meu
filho de 8 anos foi desfigurado por dois cães"
Em julho do ano passado,
Thiago foi atacado por dois rottweiler quando brincava no jardim
da casa de uma tia, em Brasília. Meu filho teve o rosto retalhado
pelas mordidas e perdeu os dentinhos de leite. As duas orelhas e
a metade do couro cabeludo foram arrancadas. E o nariz foi comido
por dentro. Para costurar o que os cães fizeram, foram necessários
900 pontos. Ironicamente, um dos cães se chama Killer, assassino
em inglês. Ver meu filho tão machucado foi a pior experiência da
minha vida. Agradeço a Deus todos os dias por ele estar vivo. Thiago
já fez quatro cirurgias plásticas. Até hoje ele tem pesadelos, tem
medo de dormir sozinho e reclama que ainda sente o cheiro da boca
dos cães. Passar por isso é uma dor inigualável para uma mãe. Um
trauma para a vida toda."
Rosângela Lacerda é mãe
de Thiago Lacerda Canhedo, neto do presidente da Vasp, Wagner Canhedo
|
Artigo
|
Mordeu, morreu
Paulo Moreira Leite
Está descoberta a solução para a tragédia dos cães violentos: mordeu,
morreu.
Considerando-se que eles já atacaram crianças, ameaçam vizinhos,
carteiros, passantes e ainda seguem desfilando pelas calçadas, é
mesmo de perguntar: onde foi parar o pessoal da pena de morte? Eles
acham justo matar gente, mas ficam quietos quando o crime foi cometido
por um cão? Cachorros delinqüentes, por assim dizer, não podem continuar
passeando por aí como se fossem preciosos bichinhos de estimação.
Considerando-se que se cobram 117 reais de quem não usa cinto de
segurança, cuja única função é proteger o dono do automóvel, por
que não cobrar multa dez vezes maior de quem deixa solta uma fera
capaz de atacar uma pessoa que não tem nada a ver com isso?
Um cão não precisa arrancar sangue para se transformar num problema.
Basta ameaçar, dar medo, que já estará ferindo a liberdade das pessoas.
O país anda com problemas demais –
segurança, desemprego, trânsito – para
ficar demonstrando cortesia e autocontrole com cachorros agressivos.
Como se o problema estivesse em nós, as vítimas, daqui a pouco seremos
obrigados a tomar novas lições de bom comportamento. Por exemplo:
se você enxergar um cão agressivo se aproximando, mude de calçada.
Se ele andar atrás, não corra. Se ele correr, fique quieto e não
entre em pânico. Se nada disso funcionar, paciência: o dono promete
que um novo ataque não vai repetir-se. Donos de cães agressivos
nunca admitem que têm uma fera perigosa em casa. Sempre vêem o cachorro
deles como um ente com características quase humanas.
Existe outra idéia no ar. É esta: vamos castrar os cães e a próxima
geração será eliminada. Está bem. Pode funcionar. Mas, como se sabe,
nem campanhas sanitárias para proteger seres humanos, como vacinação,
alcançam todo mundo. Imagine-se no caso de cachorros.
A maioria das pessoas gosta de cães e faz muito bem. Eles são companheiros
e brincalhões. Divertem os adultos e ajudam na educação afetiva
das crianças. Não é desses animais que estamos falando, mas de feras
agressivas que passeiam pelos supermercados, pelo parque num domingo,
pela saída da escola. Tem gente que gosta de correr pelo bairro
onde mora em companhia de um rottweiler –
solto, muitas vezes.
Considera-se aceitável que uma pessoa corra o risco de ficar sem
um pedaço da mão, da perna, ou mesmo sofra ataque ainda mais grave
apenas porque o proprietário de um pit bull não está com vontade
de prender sua gracinha? Porque um psicólogo de canil explica que
um fila brasileiro tem direito à liberdade? Não é óbvio que o cidadão
que acha razoável expor outro ser humano a um cachorro perigoso
revela: 1) uma escala de valores anti-social; e 2) um distúrbio
mental digno de urgência médica?
Está na hora de acabar com essa conversa de que um cão é apenas
o reflexo do dono. Primeiro, porque isso não é verdade –
se nem os filhos humanos são o retrato dos pais humanos, o que dizer
dos cachorros. Segundo, porque esse raciocínio só serve para eximir
os irresponsáveis de suas responsabilidades. Não se pune o dono
porque quem atacou foi o cão. E se deixa o cão à solta porque quem
precisa ser educado é o dono.
|
Com reportagem de Alexandre
Secco, de São Paulo,
Ronaldo França, do Rio, e sucursais

|
|