Claudio
de Moura Castro
A
banalização da informática
"Educação
é assunto de todos, e informática na
educação é um desafio a mais para a
coordenação
do Estado com a sociedade civil"
Ilustração Ale Setti
 |
No seu ensaio na revista Time, o empresário
brasileiro Rodrigo Baggio afirma que o mundo será
diferente quando os microcomputadores estiverem também
nas mãos dos mais pobres. Os micros foram desenvolvidos
na década de 70 por um bando de hippies irreverentes,
criativos e idealistas que viram o potencial liberador e
enriquecedor desse filho bastardo e rebelde dos "cérebros
eletrônicos" que ameaçavam controlar o mundo.
Os mais educados não perderam tempo em inventar novos
usos e explorar os velhos. Os mais pobres, quando começaram
a ouvir falar, não tinham e não têm
os recursos para tê-los. Daí a conhecida "divisão
digital" (digital divide), dando a uns e negando a outros
o potencial estarrecedor da informática.
Os altos custos são os culpados oficiais dessa separação
entre ricos e pobres no acesso à informática.
Daí a presença dos dinheiros do governo nos
esforços de romper essa barreira ao acesso.
Há também as tentativas de encontrar soluções
privadas para levar os computadores aos pobres. Resolvido
o problema de acesso, o resto virá. Certo?
O Peru encontra um caminho para a informática acessível
e sem apoio dos dinheiros públicos: as celebradas
"cabines informáticas". De passagem por Lima, fui
visitar algumas, a esmo, pois pululam nas áreas comerciais
populares. Os vendedores financiam de cinco a dez máquinas
que são instaladas em uma lojinha acanhada, uma garagem
adaptada, talvez. Por 1 dólar a hora, todos podem
usar. É um grande sucesso comercial.
Será o princípio do fim da digital divide?
Perguntei quem as freqüentava e soube que a faixa ia
dos 10 aos 30 anos. O resto fica de fora. Os mais jovens
usam só para jogos (as mães os deixam nas
cabines enquanto saem para compras). A partir da adolescência,
entram os "chat rooms". Na faixa dos 20 é e-mail
e telefone via computador. E, através das cortininhas
adrede instaladas, visitam-se os sites de pornografia.
E que mais?, perguntei em várias cabines. Raras buscas
para trabalhos pedidos pelas escolas (com os gravíssimos
problemas de que os professores não aprenderam a
detectar plagiarismo). E são ainda mais raros os
usos de programas aplicativos. Talvez um contrato aqui ou
um currículo acolá.
A experiência das "cabines" confirma: não é
o mercado que vai resolver, não são apenas
os custos da informática que impedem florescer seu
potencial liberador e de enriquecimento intelectual. A web
pode conter tesouros ilimitados. Mas, tal como os zeladores
das bibliotecas públicas que não têm
seus livros, estar "plugado" raramente contamina os internautas
do que é bom na web. Isso se vê claramente
nas escolas americanas que usam pessimamente as máquinas
e a internet.
Evidência sugestiva é a pobreza do uso dado
por nossos pimpolhos de classe média, que não
fazem melhor que os meninos pobres de Lima. Quem duvidar
que leia um registro das conversas fiadas nos chat rooms
o principal uso encontrado para os computadores.
Um horror!
É
a informática banalizada. A bem da verdade, há
um ganho, pois, se os computadores estão em todos
os postos de trabalho modernos, aprender a usá-los
é parte do processo de alfabetização.
Mas isso é um mísero prêmio de consolação,
diante de suas promessas educativas.
Temos de entender com toda a clareza: o acesso às
máquinas é apenas uma parte do problema. É
preciso resolvê-lo, por certo. Mas o real problema
é dar asas ao potencial educativo do computador.
Estamos aprendendo que isso não se dá de forma
espontânea, pela mesma razão que educação
não é um processo espontâneo (Baggio
entende isso de forma claríssima). É preciso
inteligência, persistência e clareza de objetivos.
Pelas mesmas razões que o Estado não pode
eximir-se de fazer as coisas acontecer em educação
e pagar o preço , o uso inteligente
e enriquecedor da informática não se dará
somente pela mão invisível do mercado.
Educação é assunto de todos e informática
na educação é um desafio a mais para
a coordenação do Estado com a sociedade civil.
Se falhar, estaremos em mãos de uma informática
boba e irrelevante.
Claudio
de Moura Castro é economista (claudiomc@attglobal.net)