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Claudio
de Moura Castro
Democracia ou leilão?
"Há
inteligência no sistema
representativo, em que todos
os cidadãos participam da
escolha das pessoas a quem
vão confiar as decisões que
serão tomadas em seu nome"
Ilustração Ale Setti
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Como resultado da restauração da dinastia Meiji, o Japão
abriu-se para o exterior. No fim do século passado, um japonês
ilustre visitava os Estados Unidos no momento de uma eleição
presidencial. Espantado, escreveu que naquele país havia um leilão
de presidentes. Mas, às vezes, nós também não
entendemos bem como funciona essa tal de democracia.
Cada sociedade
pode criar a sua versão. A nossa é uma democracia representativa.
Nesse sistema, o povo escolhe seus governantes e estes, por sua vez, recebem
uma delegação de poderes para tomar todas as decisões
necessárias. As políticas e propostas são apresentadas
pelos candidatos, e, ao votarem, os eleitores decidem que rumos querem
para o país. Pelas regras do jogo, o presidente fica responsável
pela operação da máquina governamental e pela escolha
de seus auxiliares que também recebem um mandato claro para
decidir.
O bom governante
ouve a todos, ausculta as opiniões, promove debates e mede a temperatura
política dos temas em pauta. Mas, pela delegação
de poderes, em uma democracia representativa, a responsabilidade pela
decisão é sempre dele. Ele age e decide em nome e no interesse
da maioria da sociedade que o elegeu ou que elegeu quem o nomeou.
A falta
de compreensão desse mecanismo traz graves riscos de descarrilamento
da democracia. Em muitas decisões, não há fórmulas
em que todos ganham; um lado acaba perdendo. Quando as decisões,
equivocadamente, voltam "às bases", começam a se parecer
com o leilão que iludiu o japonês nos Estados Unidos. Como
não se pode ouvir a todos, ganha quem faz mais barulho, quem reúne
mais correligionários. Quem não pode estar presente não
é ouvido. É a democracia antidemocrática.
Tomemos
exemplos na educação (mas o princípio é válido
em todas as áreas). Uma decisão do Conselho Nacional de
Educação deveria ser soberana, tomada em nome do bem público.
As liberdades constitucionais garantem que sindicatos, associações
profissionais ou outros interessados podem fazer o barulho que quiserem
respeitadas as leis. Mas há um erro lamentável em supor
que as decisões de um tal órgão possam ser atropeladas
pelo interesse de grupos presentes. É incorreto que a política
educacional seja decidida por aclamação, vaias ou pressões.
Nada há
de errado em que diferentes grupos possam sugerir nomes de reitor para
universidades públicas. Mas é um erro achar que têm
qualquer direito de impor sua nomeação. De fato, se isso
acontecesse, o interesse social estaria sendo definido por grupelhos com
agendas próprias. E o interesse da sociedade? E o interesse dos
contribuintes? E o do setor produtivo que vai empregar os graduados? Uma
universidade não é um edifício onde, soberanamente,
os condôminos (os donos) decidem se vão pôr mármore
na fachada. A universidade não é dos professores, dos alunos
nem dos funcionários. É uma instituição pública,
financiada com impostos. E, no sistema vigente, o ministro da Educação
recebeu a incumbência de nomear o reitor, em nome da sociedade.
Os que não
gostam do sistema deveriam propor sua mudança e lutar por ela.
Mas, enquanto ele não mudar, é preciso respeitá-lo.
Em uma democracia, deve prevalecer a vontade da maioria (com as tradicionais
ressalvas de que as minorias não sejam tiranizadas). Entretanto,
como grande parte das decisões se toma diante da ausência
de muitos interessados, o que seria uma consulta nacional acaba se parecendo
mais com assembléia de diretório acadêmico, em que
as decisões são monopolizadas por grupos especializados
em fazer barulho e manipular tais processos. No caso da educação,
falta a voz dos alunos ausentes ou futuros, dos contribuintes, das empresas.
Os presentes e barulhentos são apenas um dos muitos grupos que
compõem a sociedade. Portanto, há inteligência no
sistema representativo, em que todos os cidadãos participam da
escolha das pessoas a quem vão confiar as decisões que serão
tomadas em seu nome. Se desagradarem muito, perderão o prestígio
e as eleições seguintes. Se a besteira for grande demais,
há a demissão do ministro ou o impeachment do presidente.
Claudio
de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net)
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