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Edição 1 777 - 13 de novembro de 2002
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"Cuidado, sua sanguessuga!"

Gisele Bündchen faz publicidade
de roupas de pele, é xingada
por
ecologistas e provoca polêmica
no mundo da moda

Cristina Charão

 
AP Photo/NG Han Guan
Ativistas nuas em Pequim: protesto contra desfile de grifes famosas


Veja também
Galeria de fotos: Casacos de pele nas coleções outono-inverno 2002

A nova campanha publicitária de Gisele Bündchen está dando o que falar. Contratada pela Blackglama, uma das mais famosas fabricantes de casacos de pele, a modelo brasileira deixou-se fotografar com vistosos casacos e estolas de mink. Como sempre acontece toda vez que uma top se arrisca a desfilar criações peludas, os ecologistas armaram um rebuliço. Uma das mais ativas organizações de defesa dos animais, a ONG Peta divulgou uma nota raivosa e sexista contra a top. Entre outros impropérios, o texto diz que "Gisele é uma sanguessuga que não tem coração, apenas pernas". Escondidos no fundo dos armários desde o início dos anos 90, quando os ecologistas deflagraram uma guerra contra a morte dos animais, os casacos de pele voltaram à moda com força total. Uma demonstração do retorno do visom foi dada nos desfiles da coleção outono-inverno na Europa e nos Estados Unidos. Nada menos que 300 estilistas internacionais incluíram peles em suas criações. O fato de uma estrela com o brilho de Gisele Bündchen aceitar ligar sua imagem a um produto tão polêmico também é um sinal dos tempos no mundo da moda.

Cortesia Blackglama
Gisele e sua estola de mink: contratada por fabricante de casacos, a musa foi acusada de "não ter coração"


Os casacos de pele sumiram das prateleiras justamente no momento em que a onda do politicamente correto e o movimento ecologista explodiram. Não só era arriscado sair por aí usando um modelo de visom (muitas mulheres nesse período foram alvejadas com spray pela patrulha ambientalista) como não pegava bem. Com a diminuição drástica da produção de pele, os verdes afrouxaram a perseguição às grifes. Não demorou e estas tornaram a investir no produto. Hoje, as vendas de roupas de pele movimentam por ano bilhões de dólares, dinheirama que os fabricantes não estavam dispostos a perder. Para estimular ainda mais o setor, as grifes voltaram a investir em publicidade. Em setembro passado, a Federação Internacional do Comércio de Peles bancou a publicação de um especial da revista Vogue com fotos de criações em pele de doze dos maiores estilistas do mundo. Entre as grifes contempladas na revista, estavam Donna Karan, Roberto Cavalli e Jean-Paul Gaultier. Outra investida recente da entidade ocorreu há duas semanas. Ela organizou um desfile em Pequim com a participação de doze grandes estilistas e suas extravagantes coleções. O evento chamou a atenção dos ecologistas. Ativistas nuas desfilaram pelas ruas da pudica Pequim protestando contra o que elas acusam ser "uma matança de animais".

Os defensores dos bichos reclamam do uso de roupas de pele sob a alegação de que ela pode perfeitamente ser substituída por material sintético. De fato, os produtos artificiais têm cada vez mais qualidade e se aproximam muito dos modelos de pele. Os ambientalistas também dizem que, diferentemente de animais que são sacrificados para alimentar pessoas, como vacas, porcos e galinhas, o mundo da moda tira a vida de bichos para saciar não a fome, mas apenas a vaidade humana. O discurso pode parecer sensato, mas o fato é que é difícil encontrar uma mulher que não ache deslumbrante um casaco de pele ou que não se sinta absolutamente linda usando um produto original, e não uma imitação sintética. Milhões de animais são sacrificados por ano para virar peças de vestuário. Cerca de 85% das peles usadas vêm de bichos criados em cativeiro. Os outros 15% do mercado são atendidos com espécimes capturados na natureza. Segundo os fabricantes, a caça desses animais, além de rigorosamente fiscalizada, serve de sustento para milhares de pessoas, incluindo populações inteiras de nativos do Canadá e dos Estados Unidos. As peles mais valiosas são as da zibelina, da raposa e da chinchila, mas bichos como a lontra, o guaxinim e o coelho também são utilizados. Segundo os produtores, o abate procura infligir o menor sofrimento possível às vítimas. No caso de animais pequenos como a chinchila, o método mais usado é a fratura manual do pescoço. Detalhe: são necessárias pelo menos 120 chinchilas para a confecção de um casaco médio.

   
 

 

 

   
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