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Sérgio
Abranches
Lula
e o neo-realismo
"O
equilíbrio entre as várias forças
político-partidárias é uma defesa
do processo democrático. Evita a
superconcentração e os abusos
de poder. Mas ao mesmo tempo
complica a governabilidade"
Ilustração Ale Setti
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Os cientistas políticos nos Estados Unidos há muito identificaram
a tendência dos eleitores de equilibrar as forças entre os
dois partidos, nas eleições de meio de mandato. É
o que chamam "governo dividido", uma forma de evitar que o Executivo controle
poder demais, acumulando a Presidência e a maioria no Congresso.
A vitória do presidente Bush, fazendo maioria nas duas casas do
Congresso, contrariou essa tendência.
As eleições de 2002 produziram um fenômeno semelhante
ao do governo dividido no Brasil. Luiz Inácio Lula da Silva se
elegeu presidente da República com uma vasta maioria. Na Câmara,
os eleitores deram ao PT a maior bancada, mas não a maioria. No
Senado, o PT ficou com a terceira bancada. Se o presidente eleito fizer
uma coalizão com todos os partidos que o apoiaram no segundo turno,
chegará a 230 votos na Câmara, aquém dos 257 necessários.
Se incluir o PMDB, atinge a maioria de 300 cadeiras, que ainda não
permite aprovar emendas constitucionais (308). No Senado, onde a maioria
é de 41 votos, faria 31; com o PMDB, iria a 50. Com a nova regra
para medidas provisórias e o Congresso mais fragmentado, a relação
entre Executivo e Legislativo se complicou mais. Exige negociação
prévia para aprovação de medidas legislativas mais
controvertidas e reformas constitucionais.
Mas não foi apenas no eixo parlamentar que a governança
ficou mais dividida e complexa, exigindo grande capacidade de articulação
e negociação do governo. O PT não teve no eixo federativo
o mesmo êxito que nas eleições nacionais. Fez apenas
três governadores, de Estados menores. O PSDB conquistou sete governos
estaduais, cinco politicamente importantes. O PMDB, com facções
distintas, ficou com o controle da Região Sul, além de Pernambuco
e do Distrito Federal. O PSB, partido aliado, fez quatro, entre eles o
do Rio de Janeiro. A Bahia continua nas mãos de Antonio Carlos
Magalhães. O PFL ganhou em três outros Estados. A federação
continua dividida e com governadores que têm a corda no pescoço.
Bom para o novo governo, porque isso os torna mais cooperativos. Ruim,
porque os leva a usar seu peso político para tirar vantagens do
também debilitado Tesouro Nacional.
Esse equilíbrio do controle do sistema político nacional
entre as várias forças político-partidárias
é uma defesa do processo democrático. Evita a superconcentração
e os abusos de poder. Mas ao mesmo tempo complica a governabilidade. Exigirá
paciência e habilidade do novo presidente, que terá, ainda,
o enorme desafio de administrar uma agenda sobrecarregada de problemas
e demandas. A sobrecarga deriva de um estoque estrutural de desequilíbrios
ao qual se somaram os resultados de uma sucessão de conjunturas
interna e externamente adversas. A agenda foi inflada adicionalmente pelas
expectativas de mudança associadas à vitória de Lula
e à chegada do PT ao poder. Nada será fácil ou simples.
A reforma tributária, peça central do programa do novo governo,
tem complexidades que se agravam com o novo quadro político. É
o próprio exemplo de excesso de demanda e expectativas exuberantes.
Todos os protagonistas dela entram na negociação em busca
de aumento de receita ou redução de impostos. Para atender
a todos os interesses, a carga tributária ficaria insuportável
para a sociedade. De um lado, o novo governo terá de lidar com
os interesses corporativistas aposta no pacto social para isso
e, do outro, com os governadores. Sem o apoio deles, o Congresso
jamais votará uma reforma tributária. É tema federativo,
que condiciona o eixo partidário e parlamentar.
Com os aliados, mesmo os de primeira hora, haverá sempre o problema
de ajustar o que é possível a uma pauta consolidada da esquerda,
que vai do reformismo radical à revolução, muito
além do neo-realismo imposto pelo fato de ser governo. Nas últimas
semanas, no Congresso, a movimentação dos novos governistas
foi um festival de neo-realismo. Do salário mínimo aos apelos
à responsabilidade. A relação entre o governo Lula
e o PMDB nunca será simples ou fácil, como não foi
com Fernando Henrique. O partido é um condomínio heterogêneo,
que vai de facções ultrafisiológicas a facções
quase ideológicas.
Mas há espaço para negociar, sobretudo se o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva e seus líderes se dispuserem a usar
plenamente a disciplina partidária e a responsabilidade política,
para um lado do espectro de forças, e a negociação
paciente, com flexibilidade, para o outro.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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