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Edição 1 704 - 13 de junho de 2001
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O estado é muito grave

Governo concede reajuste de
preços recorde para evitar
quebradeira de planos de saúde

Felipe Patury

Ricardo Benichio
Equipamento de tomografia: mais exames com a mesma quantidade de clientes

Associar-se a um plano de saúde envolve uma dose de risco, pois a empresa escolhida, por mais idônea que seja, não está livre de enfrentar problemas financeiros no futuro. Pois esse risco começa a ser medido. A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), órgão responsável pela fiscalização do setor, concluiu um estudo a respeito da situação financeira dos planos de saúde e das empresas de seguro-saúde. O relatório contém um alerta preocupante: há diversos planos e cooperativas médicas operando com "significativos prejuízos". Os planos de saúde enfrentam prejuízos constantes em razão de uma mudança que os economistas chamam de estrutural. Na última década, sua carteira de clientes permaneceu do mesmo tamanho, mas os custos dos serviços de saúde subiram. Só para efeito de comparação, o preço que os hospitais cobram para realizar os procedimentos mais simples, como um parto, por exemplo, aumentou quase 50% mais que a inflação. O resultado é que a conta não fecha: as receitas dos planos de saúde ficaram iguais e seus gastos se elevaram.

De acordo com um alto funcionário da ANS, por causa das dificuldades financeiras algumas empresas poderão ser obrigadas a promover reformulações profundas para tentar sair do vermelho. Há casos em que o ajuste prejudicaria o associado, pois envolveria restrição ao atendimento e descredenciamento em massa de médicos e hospitais. Não há dúvida de que uma medida como essa traria enormes transtornos para aqueles que se associaram a um plano em dificuldade. "Concluímos que, se nada for feito, metade das empresas que atuam no setor poderá desaparecer", diz Solange Beatriz Almeida, diretora de normas e habilitação da ANS.

É evidente que, num universo que abriga mais de 1.500 empresas, há diversos casos em que as dificuldades financeiras estão ligadas a picaretagem. Mas não é esse o ponto central, segundo o relatório. Além do descasamento entre a base de clientes e o custo do atendimento, há fatores adicionais que aprofundam a crise. Primeiro, as empresas de saúde estão sofrendo com a desvalorização cambial. Grande parte dos insumos e equipamentos médicos é importada e cotada em dólar. Depois, por incrível que pareça, muitas das companhias ainda não conseguiram se adaptar à vida sem inflação, uma vez que suas planilhas de custos previam ganhos expressivos no mercado financeiro. Com a estabilidade da economia, essa brincadeira acabou.

Até algum tempo atrás, a maioria das pessoas procurava o médico apenas quando já apresentava os sintomas de uma doença. Agora, elas buscam ajuda cada vez mais cedo, com o objetivo de fazer prevenção. O resultado é que os associados inscritos nos planos de saúde estão visitando o médico mais e mais vezes e fazem cada vez mais exames. Prova disso é que o número de consultas por cliente subiu 30% nos últimos dez anos. As solicitações de exames caros, como as ultra-sonografias, dobraram. Outro detalhe curioso é que mais de 80% dos exames pedidos atualmente pelos médicos apresentam resultado negativo, ou seja, não detectam nada de errado. O sistema de saúde acabou se tornando um modelo de despesas dobradas. Gasta-se muito com as pessoas que procuram o médico para se prevenir de doenças, mas também se gasta muito com as pessoas que não se preveniram.

Os empresários do setor já haviam avisado o governo a respeito de seus problemas, mas os alertas não foram levados muito a sério. Sinais mais evidentes começaram a ser emitidos em dezembro do ano passado. As empresas fecharam o ano com um rombo de caixa de 300 milhões de reais. De lá para cá, duas já quebraram e seis sofreram intervenção – entre elas a Unimed de São Paulo, que tem mais de 80.000 associados. O que acontece com essas companhias afeta a vida de um em cada quatro brasileiros. O Brasil tem 40 milhões de pessoas que dependem de planos de saúde.

Para fazer frente a essa nova situação, a Agência Nacional de Saúde, que não tem nenhuma relação de subordinação com o Ministério da Saúde, estuda a adoção de uma série de medidas preventivas. Na semana passada, entrou em vigor um reajuste recorde para os preços dos planos de saúde. O índice varia de acordo com cada empresa. Alguns carnês chegarão com um aumento próximo a 9%, quase o dobro da correção anual que vinha sendo praticada nos últimos anos. Há outros mecanismos de controle em gestação, inspirados nas regras usadas pelo Banco Central para atuar em bancos em crise. No próximo mês, a agência deverá anunciar um projeto de intervenção nas administradoras de saúde que guarda semelhança com o Proer, o programa oficial de recuperação dos bancos privados. A idéia é vender as carteiras de clientes de planos de saúde em situação financeira ruim a outros em boa situação, o mesmo que fez o programa de auxílio aos bancos. Quem comprar as carteiras vai ganhar vantagens parecidas com as do Proer, como desconto no imposto de renda e financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES. Tomara que dê certo. Milhões de brasileiros estão, mesmo sem saber, envolvidos na operação.

 

Dependência total

40 milhões de brasileiros estão ligados a um plano de saúde. Desse total, 30 milhões integram algum plano coletivo. Os demais 10 milhões pagam planos individuais


Com reportagem de Angela Nunes

 

 
 
   
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